Em uma passagem decisiva de O capital (1867), Karl
Marx define o trabalho humano como um processo que ocorre entre o ser humano e a natureza, no qual, por meio da própria ação, o ser humano media, regula e controla o intercâmbio orgânico entre si e a natureza, contrapondo-se à materialidade natural como uma dentre as potências da natureza e acionando as forças naturais de sua corporeidade — braços e pernas, mãos e cabeça — para apropriar-se dos materiais da natureza, de modo que o trabalho aparece como uma operação mediadora e governante do intercâmbio entre vida humana e mundo natural.
Em perspectiva histórica, é justificável ler tais formulações como preâmbulo de uma antropologia energética generalizada, hoje mais pertinente do que nunca, ainda que os termos “potências da natureza” e “materiais da natureza” permaneçam fortemente marcados pelo Zeitgeist do século XIX, isto é, por um materialismo direto; contudo, a expressão semimetafórica “intercâmbio orgânico”, ao lançar uma ponte entre fenômenos biológicos e culturais, adquire densidade estratégica, pois, na medida em que o intercâmbio se realiza como trabalho — emprego de energias racionais humanas — ele se descola dos automatismos naturais (como fotossíntese e digestão) e passa a constituir aquilo que, com razão, se denomina “cultura”, entendida como quintessência de um comportamento baseado em gestos repetidos e orientado ao conhecimento.
O que Marx não enfatiza expressamente é que o encontro entre “força” e “matéria” não se desencadeia apenas pela ativação dos membros e faculdades corporais, porque, desde a pré-história, às potências naturais inscritas na corporeidade soma-se um agens extracorpóreo sem o qual o intercâmbio orgânico com a natureza permaneceria no nível vegetativo e químico-microbiano, como nos animais; esse agens é o fogo, o mais antigo cúmplice do homo sapiens em sua fuga para além das meras condições naturais e, simultaneamente, uma das primeiras grandezas compreendidas como manifestação de princípios transcendentais de “força” e “potência”, funcionando como metáfora inaugural do divino ao lado do vento, do relâmpago e do sol.
Somente com a inclusão do fogo no campo do manipulável humano tornou-se possível assimilar os materiais da natureza às necessidades humanas em sentido estrito, razão pela qual, já nas primeiras “sociedades”, enquanto o cru figurava o que permanece idêntico na natureza, o cozido tornou-se o emblema do que é assimilado e transformado para usos humanos mediante a força natural do fogo, como mostrou Claude Lévi-Strauss em seus estudos sobre o mito; desse ponto de vista, a tecnologia essencial — além da produção de armas líticas primitivas para caça e combate — foi sempre a arte de dominar o fogo, isto é, a pirotecnia, de modo que, assumindo o tom marxista que o tema solicita, a história da humanidade até hoje pode ser tomada como história das aplicações do fogo, e, não por acaso, o jovem Marx, em sua dissertação, celebra Prometeu, aquele que entrega o fogo aos humanos a partir do carro do Sol, como “o maior santo e mártir do calendário filosófico”.
O poder assimilativo do fogo manifesta-se de modo privilegiado na manipulação do alimento, pois torna as presas da caça comestíveis e, sem a alquimia do calor, não ocorreria a transformação do grão cru em pão; além disso, o fogo controlado constitui a primeira incógnita da fórmula “força muscular + x”, que descreve o intercâmbio orgânico por meio do trabalho, funcionando como energia diferencial que institui a distinção originária entre cru e cozido e, ainda, separa o metal do bloco mineral, possibilitando ao martelo do ferreiro forjar o ferro incandescente em lâminas.
Os termos “força” e “matéria” remetem aos conceitos abstratos de dynamis e hyle do pensamento grego antigo, sendo que, em
Homero, hyle designava sem ambiguidades a madeira, os bosques e as florestas, ao passo que, em
Aristóteles, a antiga madeira já se tornara “matéria” simpliciter, o “de onde” de todas as coisas, contraparte universal da “forma” (morphe, eidos); convém notar que o conceito de matéria (hyle), na metafísica e na física clássicas, conserva, ao menos etimologicamente, uma memória remota do primeiro combustível.
O regime metabólico das culturas humanas mais antigas permaneceu por longo tempo — durante muitos milênios — determinado por horizontes geográficos reduzidos e por conversões de massas relativamente desprezíveis, de tal maneira que caçadores, pescadores, guerreiros e coletoras que utilizam o fogo são quase sempre fracos demais para destruir a força reprodutiva de suas presas e os ciclos de crescimento dos ambientes vegetativos; por isso, desenvolve-se cedo um sentimento de reciprocidade entre humanos e natureza, que se exprime no impulso protoreligioso de realizar atos regenerativos e oferecer sacrifícios ou dádivas de reconhecimento ao mundo paralelo de espíritos, ancestrais e potências numinosas.
Ao mesmo tempo, seria inadequado atribuir genericamente aos ancestrais dos humanos atuais uma consciência das relações ecossistêmicas ou um senso de conservação de “recursos”, pois evidências paleontológicas sugerem que tribos que migraram para a Austrália há cerca de cinquenta mil anos, hoje chamadas aborígenes, causaram a extinção da grande fauna local por meio da caça; além disso, os achados ósseos aos pés da rocha de Solutré, perto de Mâcon, na Borgonha, indicariam que caçadores da Idade da Pedra, por milhares de anos, teriam conduzido cavalos selvagens até a borda do precipício para que, em pânico, se lançassem ao abismo, sendo então abatidos e eviscerados caso não morressem de imediato, o que assegurava carne por dias, mas não autoriza qualquer certificação moral relativa ao bem-estar animal.
A rocha formada por ossos de cavalos fossilizados testemunharia uma época inteira dominada por uma “economia” arcaica do desperdício, o que contradiz frontalmente o mito difundido de uma unidade harmoniosa entre ser humano e natureza no Paleolítico; e, por conseguinte, quando surgem normas explícitas voltadas à conservação ambiental — como leis de proteção das florestas na China antiga ou a ordenação de proteção das águas nas Constituições de Melfi (1231), promulgadas pelo imperador Frederico II — já se está diante dos primeiros indícios de uma consciência ecológica culturalmente elevada.