No início do século XXI, a proposta de Paul J. Crutzen de denominar a época atual como “Antropoceno”, retomando analogamente a noção geológica de Antonio Stoppani do século XIX, parecia destinada a permanecer confinada a um discurso técnico e especializado, restrito aos laboratórios das ciências atmosféricas e geofísicas.
De modo inesperado, o conceito ultrapassou os limites institucionais da ciência e passou a circular amplamente na esfera pública, infiltrando-se no jornalismo cultural, nos museus, na macrossociologia, em novos movimentos religiosos e na literatura de alerta ecológico, como se fosse um vírus semântico artificial.
A difusão do termo deve-se sobretudo ao fato de que, sob a aparência de neutralidade científica, ele veicula uma mensagem de urgência moral e política sem precedentes: os seres humanos tornaram-se responsáveis pela habitação e pela gestão da Terra como um todo.
O termo “Antropoceno”, embora se apresente como conceito geológico, opera como um gesto jurídico de imputação de responsabilidade, fornecendo um destinatário abstrato para acusações relativas a danos geo-históricos causados pela humanidade enquanto tal.
Falar de Antropoceno equivale menos a participar de um seminário científico do que a integrar uma audiência preliminar de um processo judicial, cujo objetivo inicial é avaliar a imputabilidade do acusado denominado “o ser humano”.
Surge então a objeção de que a humanidade, considerada quantitativamente como biomassa, seria insignificante diante das dimensões materiais do sistema terrestre, argumento explorado exemplarmente por Stanislaw Lem ao reduzir a humanidade a uma quantidade desprezível em termos oceânicos.
Essa linha de argumentação aproxima-se de antigas desvalorizações filosóficas do humano, como a metáfora de
Schopenhauer que compara a humanidade a um mofo efêmero na superfície do planeta.
A acusação, contudo, sustenta que a humanidade não pode ser definida apenas como biomassa, pois constitui uma agência metabiológica capaz de influenciar profundamente o ambiente por meio de sua capacidade técnica e operativa.
A responsabilidade antropocênica está ligada sobretudo às revoluções tecnológicas modernas, inicialmente europeias, baseadas no uso do carvão, do petróleo e da eletricidade, que introduziram uma nova universalidade energética no metabolismo humano com a natureza.
O que hoje se chama genericamente de “humanidade” corresponde, em grande medida, à difusão global de tecnologias desenvolvidas na Europa, razão pela qual a noção de “Euroceno” ou “tecnoceno” seria conceitualmente mais precisa do que “Antropoceno”.
A influência humana sobre a natureza não é inédita, pois já na Antiguidade se observavam desmatamentos e transformações agrícolas, mas apenas recentemente esses efeitos passaram a adquirir relevância geológica.
A pecuária, historicamente associada à expansão imperial, exemplifica um impacto indireto significativo, tanto em termos históricos quanto ambientais, devido às emissões de gases de efeito estufa produzidas pelo metabolismo animal.
Apesar da insignificância física da humanidade e mesmo do gado em termos de peso global, os efeitos indiretos das emissões tornam-se decisivos, legitimando a abertura de um julgamento pleno da condição antropocênica.