A verificação ontológica do princípio de causalidade e a referência a Vom Wesen des Grundes
-
Heidegger fornece também a verificação ontológica da estrutura ôntica do princípio de causalidade.
-
É a esse princípio que, ainda que de modo indireto, se dirige o ensaio Vom Wesen des Grundes.
-
A investigação não visa a negar a validade do princípio, mas a esclarecer o horizonte ontológico que permite seu funcionamento.
-
A questão do condicionamento da direção ôntica pela fundação ontológica
-
A fundação ontológica do conceito de adaequatio e do princípio de causalidade leva Heidegger a sustentar que um procedimento conceitual orientado por tais princípios não pode funcionar adequadamente sem essa fundação prévia.
-
Tal posição sugere que a articulação da direção ôntica dependeria necessariamente da fundação ontológica correspondente.
-
Contudo, essa necessidade não se impõe de modo rigoroso na estrutura efetiva da filosofia heideggeriana.
-
A complementaridade entre direção ontológica e direção ôntica
-
A estrutura autêntica da filosofia de Heidegger não exige que a fundação ontológica condicione de modo impeditivo a articulação da direção ôntica.
-
Ao contrário, a articulação ôntica é não apenas permitida, mas solicitada como complementar à direção ontológica.
-
A relação entre ambas não é de subordinação rígida, mas de coimplicação estrutural.
-
A necessidade do condicionamento no âmbito do fundamento metodológico
-
A exigência de condicionamento não pertence propriamente à direção ontológica, mas ao fundamento metodológico.
-
No caso do princípio de causalidade, sem a delimitação originária do horizonte do primeiro certo, a construção especulativa que conduz à primeira causa permaneceria instável.
-
Persistiria sempre a possibilidade de que aquilo que foi deixado na sombra — a unidade originária como unidade da imanência — fosse, na verdade, a causa última.
-
A exigência de um primeiro ponto inconcusso
-
Toda investigação especulativa exige um primeiro ponto inconcusso de apoio.
-
Esse ponto não é fornecido pela conclusão da investigação, mas por sua delimitação inicial.
-
Sem essa delimitação, a construção especulativa permanece exposta à oscilação e à ambiguidade.
-
A confusão entre fundamento metodológico e condições ontológicas subjetivas
-
A íntima relação entre fundamento metodológico e condições ontológicas subjetivas gera uma confusão característica.
-
Essa confusão consiste em atribuir às condições ontológicas subjetivas a necessidade própria do fundamento metodológico.
-
Tal atribuição indevida obscurece a distinção entre os planos metodológico e ontológico.
-
O alcance metodológico limitado das condições ontológicas
-
Se às condições ontológicas pode ser concedida alguma portata metodológica, isso ocorre apenas em sua relação com o fundamento metodológico.
-
Elas não podem reivindicar validade metodológica quando consideradas isoladamente como determinações da direção ontológica.
-
À unidade extática pode ser concedida tal portata; à simples ecstaticidade ontológico-transcendental, não.
-
A determinação do objeto de Vom Wesen des Grundes
-
O ensaio tem como objetivo direto a investigação da essência da causa.
-
Indiretamente, refere-se ao princípio de causalidade.
-
O termo Grund é tomado em sua ambiguidade essencial: causa, fundamento, razão.
-
A distinção entre o problema do fundamento e o princípio de causalidade
-
A observação preliminar do ensaio estabelece a alteridade entre o problema do fundamento como tal e o problema do princípio de causalidade.
-
O princípio pode introduzir a questão do fundamento, mas não esclarece sua essência.
-
Na formulação tradicional, o princípio de causalidade pressupõe como evidente aquilo que deveria ser esclarecido.
-
A crítica à formulação tradicional do principium rationis
-
Na expressão Nihil est sine ratione, a essência da ratio não é determinada, mas simplesmente pressuposta.
-
A validade do princípio só pode ser plenamente compreendida após a elucidação da essência do fundamento.
-
O princípio depende, portanto, de uma determinação ontológica prévia que ele mesmo não fornece.
-
A relação entre princípio de razão suficiente e princípio de causalidade
-
Na formulação leibniziana completa, o princípio de razão suficiente e o princípio de causalidade aparecem vinculados.
-
Tomar essa vinculação como identidade rigorosa implica confundir ambos os princípios.
-
O princípio de causalidade mantém uma relação de dependência lógica em relação ao princípio de razão suficiente.
-
O princípio de razão suficiente como corolário do princípio de identidade
-
O princípio de razão suficiente deriva imediatamente do princípio de identidade.
-
O ente, enquanto não contraditório, exige aquilo sem o qual seria contraditório.
-
Essa exigência expressa a necessidade absoluta de uma razão suficiente.
-
A emergência do conceito de causa
-
O conceito de causa surge em um segundo momento, a partir do princípio de razão suficiente.
-
Causa designa aquilo sem o qual algo não pode subsistir.
-
A essência da causa encontra-se formalmente determinada nesse sentido.
-
A posição da investigação heideggeriana
-
A investigação de Heidegger não visa a uma suspensão da validade dos princípios lógicos clássicos.
-
Ela busca fornecer-lhes um sentido ontológico que não compromete sua derivação ôntica.
-
Quando Heidegger nega a derivação do princípio de causalidade a partir do princípio de não contradição, nega apenas a pretensão de que essa derivação substitua a fundação ontológica.