A violência que Heidegger adota diante do assalto institucionalizado é a não-violência do pensamento
Heidegger opõe o lassen (deixar) ao überfallen (assaltar), assim como opõe a ação de afastar àquilo que “faz tela” ou se apodera
O abandono não é uma atitude benigna, mas a única saída viável do campo de ataque montado pela razão calculadora
Três razões pelas quais “deixar ser” é a única saída
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Primeiro, ele desloca o conflito
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Heidegger não opõe uma Grande Recusa dialética à violência
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A dialética ainda é “a potência mais forte até aqui da lógica”; filosofar contra a técnica equivale a uma simples re-ação
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Heidegger não nega a técnica, mas retrogride às condições que a tornam possível como violência ordenada
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Este passo para trás, para a essência, desloca o conflito: em vez de “como fazer frente?”, pergunta-se “o que é da presença?”
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O “campo livre” é o campo de interdependência, do qual a técnica é uma modalidade possível
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Este deslocamento da questão para o originário vai mais direto ao coração da técnica que a questão das alternativas
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Segundo, ele é essencialmente ateoleocrático
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“Deixar o campo livre às coisas” é libertar o pensamento das representações de fim
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O pensamento não tem objetivo; é livre da dominação teleocrática
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Sua tarefa é modesta: seguir as coisas em sua emergência a partir da ausência
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Isto nos instrui sobre uma origem sem télos, sempre outra e sempre nova, que desliga o complexo técnico-científico
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O conselho heideggeriano contém um imperativo: “Estamos em nossa existência historicamente perto da origem?”
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Estar perto da origem seria seguir, no pensamento e no agir, a emergência “sem porquê” dos fenômenos
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A poesia e o pensamento entalam a teleocracia; Mestre
Eckhart traduziu esta entaladura na ação: o justo nada busca em suas obras
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Terceiro, ele é preparador de uma economia anárquica
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“Deixar o campo livre às coisas” é engajar-se na passagem da violência à anarquia
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Passagem de um lugar onde os entes são forçados sob um princípio epocal a um lugar onde sua contingência radical é restaurada
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Passagem das “substâncias” determinadas por uma arché e um télos imutáveis às “coisas” emergindo com precariedade em seu mundo
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Esta inocência reconquistada do múltiplo é sugerida sobretudo nos textos sobre a obra de arte
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A obra de arte institui uma rede de referências e produz a verdade como uma esfera contingente de interdependência
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Ela é o paradigma do modo não-principial pelo qual uma coisa vem ao mundo e o mundo vem à coisa
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Condição prática para a anarquia econômica e resposta à violência tecnológica
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Para que uma economia possa assim restituir todas as coisas a seus mundos, a condição prática é a queda das últimas figuras teleocráticas da presença
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À pergunta “Que fazer?”, deve-se responder: desalojar esses vestígios de uma economia teleocrática e assim liberar as coisas de sua “captação” sob os princípios epocais
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Na situação ambígua de transição, a fenomenologia pode responder ao “assalto” tecnológico mostrando a fissura que o abandono introduz nas constelações sociais fixas
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Heidegger liga o aparecimento de uma constelação nova a um pré-requisito prático
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O obstáculo principal que faz tela ao evento de apropriação vem dos “fundamentos metafísicos gregos da frase como relação do sujeito ao predicado”
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Heidegger designa diretamente a ambiguidade do sítio econômico contemporâneo - a ambiguidade do “princípio de anarquia” - ao lamentar que a conferência “Tempo e Ser” ainda tenha podido “falar apenas enunciando proposições”
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Exigência de uma fluidez radical na prática social
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As implicações práticas do pensamento de Heidegger exigem que uma fluidez radical seja introduzida nas instituições sociais e na prática em geral
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Com a essência bi-frontal da técnica, legitimar a prática não pode mais significar referir o fazível a uma instância primeira, a uma razão última ou a um fim último
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Trata-se de um reverso do princípio de razão: não são os entes presentes que reclamam um fundamento, mas a presença sem fundo que interpela a existência e reclama um agir igualmente sem fundo
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Assim se compreende o vínculo complexo, na última frase do exergo, entre gramática da proposição, diferença “coisa e mundo” e afastamento dos obstáculos como pré-requisito para o evento de apropriação