SCHÜRMANN, Reiner. Le principe d’anarchie. Heidegger et la question de l’agir. Paris: Seuil, 1982.
A primazia dada por Husserl à visão (…). Os conteúdos eidéticos dão-se a ver (através de uma visão produtiva, é verdade, e não de uma visão simples e direta), isto é, subsistem perante o olhar, para o olhar. Isto continua a ser verdade mesmo que Husserl descreva frequentemente o sujeito que percebe como se movendo em relação aos objetos percebidos, vendo-os de diferentes ângulos. De fato, esta primazia da visão não é nada de novo. É uma indicação reveladora de que a sua fenomenologia pertence à metafísica ocidental. Desde Aristóteles, a visão continua a ser a metáfora preferida para a atividade da mente; de fato, desde os gregos clássicos, pensar significa ver. Conhecer é ter visto; e alcançar a evidência, como a palavra indica, é “ter visto bem”. Só se vê bem o que ocorre como um dado adquirido, e se vê melhor o que mantém imóvel. A escuta, por outro lado, é o órgão acordado ao tempo: o ouvido percebe os movimentos de aproximação e de afastamento melhor do que o olho. Um som ainda não é, em seguida anuncia-se, é aí, e já se desvanece e não é mais. Para o olho, existe apenas o “ou/ou” do presente e do ausente. Olhar é buscar ver o que é. É um ato que exige um distanciamento. Não se pode ver os caracteres impressos numa página se o olho estiver colado à página. A escuta é diferente: quanto mais próximo estiver um som, melhor o percebo. Daí a conotação entre entender (entendre) e pertencer: Hören significa gehören. Em grego, latim e línguas germânicas, poder entender significa também poder obedecer: Horchen é gehorchen. O olho é o órgão da distância e do constantemente presente. A audição é o órgão do pertencimento e da descoberta no tempo.