SCHÜRMANN, Reiner. Maître Eckhart ou la joie errante. Paris: Denoël, 1972
1. A abundância de palavras e interpretações acumuladas em torno de Mestre Eckhart torna necessário reaprender a lê-lo diretamente, pois tanto o leitor não iniciado quanto o especialista encontram uma obra desconcertante, e a multiplicidade de comentários produzidos ao longo de mais de seis séculos, longe de dissipar sua obscuridade, frequentemente a intensifica por meio de interpretações profundamente divergentes.
2. Desde o século XIX, sucessivas correntes ideológicas obrigaram cada geração a reabrir a questão eckhartiana a partir dos próprios textos, enquanto a filosofia alemã transformava Eckhart em precursor de diferentes sistemas e o nacional-socialismo chegava a submetê-lo a deformações racistas que o tornavam praticamente irreconhecível.
3. O retorno às fontes tornou-se assim indispensável e encontrou expressão decisiva, a partir de 1936, na edição crítica das obras latinas e alemãs de Mestre Eckhart, permanecendo entretanto ainda rara uma investigação capaz de penetrar na articulação propriamente filosófica de seu pensamento por meio de uma escuta rigorosa da própria letra dos sermões alemães.
4. A recepção contemporânea de Mestre Eckhart estende-se paradoxalmente para além da tradição cristã, encontrando afinidades no budismo e nas escolas espirituais do Extremo Oriente, ao mesmo tempo que certas interpretações marxistas procuram transformá-lo em teórico medieval da luta de classes e compreender sua “irrupção” para além de Deus como recuperação humana de um bem alienado pela religião.
5. Diante do conhecimento ainda limitado de Mestre Eckhart na França, impõe-se privilegiar a tradução, a análise e a exposição direta de seus próprios textos, reservando-se posteriormente um confronto com Martin Heidegger em torno da Gelassenheit, entendida como “serenidade”, “deixar-ser” ou “desprendimento”, no horizonte da influência reconhecida dos sermões eckhartianos sobre a gênese do pensamento heideggeriano. :contentReference[oaicite:0]{index=0}
6. A obra alemã de Mestre Eckhart oferece as formulações mais expressivas e linguisticamente criativas de seu pensamento, enquanto a obra latina, elaborada no contexto universitário e segundo formas escolásticas tradicionais, fornece sua base doutrinal e funciona como critério de controle contra interpretações arbitrárias, de modo que a primeira convida ao percurso vivo do pensamento e a segunda delimita conceitualmente seu caminho.
7. Três sermões alemães são tomados como núcleos principais de análise, sendo cada tradução acompanhada por uma análise de seu argumento e por um comentário dos temas fundamentais, embora o método varie conforme o sermão, de modo que, no primeiro, “Jesus entrou”, investigação histórica, fontes e afirmações feitas perante a Inquisição permanecem inseparavelmente integradas à própria análise.
8. No segundo sermão, “Mulher, vem a hora”, análise e comentário seguem orientações distintas, pois a primeira procura esclarecer as implicações filosóficas da experiência espiritual mediante sua inserção na tradição intelectual representada por Eckhart em Colônia e Paris, enquanto o segundo reconstrói sua via espiritual através da Dessemelhança, Semelhança, Identidade e Deiscência até o deserto inefável da Deidade.
9. Mestre Eckhart revela plenamente a profundidade de seu pensamento sob uma leitura filosófica, razão pela qual o terceiro sermão, “Vede que amor…”, é abordado a partir da questão tradicional da compreensão do ser, buscando-se explicitar aquilo que modernamente poderia ser chamado de sua ontologia mediante uma dupla interpretação, primeiramente pela teoria aristotélica da analogia e depois pela diferença do Ser em Heidegger, na qual o Ser “deixa ser” o ente.
10. Os sermões foram escolhidos em função do que constitui o centro da pregação eckhartiana, o desprendimento, no qual se articulam inseparavelmente a exigência prática de desapropriação e empobrecimento voluntários e a manifestação de uma liberdade originária jamais perdida no fundo da alma, reunindo numa mesma dinâmica a conversão ainda exigida e a identidade com Deus já concedida.
11. No plano concreto da existência cotidiana, essa dialética assume a forma de uma alegria inseparável da errância, pois aquele que se desapropriou de si mesmo e deixou também Deus experimenta uma alegria que ninguém lhe pode retirar, embora continue vivendo sob a condição peregrina de uma existência sem posse.
12. A aproximação do universo eckhartiano mediante dependência rigorosa de seus textos reduz o risco de interpretações arbitrárias, permite ao leitor verificar diretamente as hipóteses pela integralidade dos textos e conduz ainda à inclusão de outros sermões que desenvolvem ideias fundamentais de sua filosofia, ampliando o conjunto apresentado para seis sermões até então inéditos em francês.
13. As contradições e oscilações presentes nos raciocínios de Mestre Eckhart devem ser compreendidas a partir da dupla tradução exigida por seus sermões, nos quais uma experiência inefável precisa tornar-se linguagem cotidiana e comunicável, enquanto o próprio ouvinte é simultaneamente reconduzido à fonte dessa experiência, fazendo com que a insuficiência estrutural da linguagem diante da alegria experimentada se manifeste como hesitação, paradoxo e, finalmente, convite ao silêncio.