Como essa autodação pode se dar em evidência mais ou menos “adequada”,
Husserl concluirá que a verdade, apesar de tudo, é apenas uma “ideia regulativa”
-
A fenomenologia de
Husserl desloca a problemática da verdade da esfera do em-si para o âmbito de nossa referência a ele, sendo a verdade a forma a priori de toda referência ao mundo
-
Em toda consideração da verdade, seja “enquanto verdadeira” ou em uma relação concreta, há um duplo ponto de vista: “subjetivo”, a adequação como “direção” à “objetividade”, e “objetivo”, o fato ou objeto que torna verdadeiro
Os três pontos essenciais que resultam do exposto — a verdade como autodadidade da coisa, o questionamento do papel fundamental da evidência para a verdade e a verdade como ideia regulativa — são retomados, de forma modificada, na concepção de verdade de Heidegger
III. Heidegger's Phenomenology of Truth
-
Em Heidegger, no §44 de Ser e Tempo, três níveis da verdade são apresentados, com um quarto implícito que será desenvolvido após a “virada”
-
O primeiro nível, a verdade “ôntica”, destaca a função não derivada da proposição de descobrir o ente tal como ele é em si mesmo, com a estrutura “tal… como…” sendo decisiva
-
A proposição “entdeckt” o ente, e a verdade da proposição deve ser entendida como “ser-descobridor”
-
Heidegger passa despercebido do primeiro para o segundo nível, do sentido “ôntico” para o “ontológico” do verdadeiro, onde o “ser-descoberto” pressupõe um “ser-descobridor”, estabelecendo a dimensão ativa implícita na verdade
-
A proposição só pode mostrar o ente como ele é se este já se mostrou como ente, e a “descoberta” ou “ser-descobridor” é um “modo de ser do ser-aí”, um “existencial” que torna possível uma referência “verdadeira” ao ente
-
O fundamento desse ser-descobridor é a “clareira” do próprio ser-aí, e o ser-aí, como ser-no-mundo, é ontologicamente “na verdade”, onde a verdade remete ao ser-aí e o ser-aí remete à verdade
-
A verdade como ser-descobridor significa que o ente se torna acessível em si mesmo ao ser-aí, e “com” a descoberta do ente, o ente se mostra como aquele que já era antes, sendo esta a maneira de ser da “verdade”
-
Heidegger determina o “fenômeno da verdade mais originário” de duas maneiras: a verdade no sentido mais originário é a clareira do ser-aí, à qual pertence a descoberta do ente intramundano; e o ser-aí é cooriginariamente na verdade e na não-verdade
-
A clareira do ser-aí se articula na disposição, no compreender e no discurso, e a descoberta do ente intramundano corresponde à clareira do ser-aí
-
O “ser-na-verdade-e-não-verdade” implica que todo aparecente pode ser acompanhado por seu “simulacro”, e que toda formação de sentido se mostra também por uma transformação devida à fixação linguística
-
A clareira é um “compreender disposicional” que, como poder-ser do ser-aí, se projeta sobre o sentido, um “projeto” que permanece no estado de “projetado”, mantendo-se na tensão entre uma interpretação que se move no compreender e um compreender que jamais pode ser apreendido de forma mais adequada do que no processo infinito da interpretação
-
O “ser-na-verdade-e-não-verdade” permite a Heidegger explicar o status do ser-aí em contraposição ao “sujeito transcendental”, situando-o aquém da separação entre sujeito “ideal” e “fático”
-
A facticidade do ser-aí, que é cooriginariamente na verdade e na não-verdade, manifesta-se por sua perdição no mundo, e a “cada vez minha” do ser-aí é caracterizada por um “ser-na-verdade-e-não-verdade”, que constitui a origem verdadeira da distinção entre os modos de ser da propriedade e da impropriedade
-
Essa mesma determinação do “ser-na-verdade-e-não-verdade” é decisiva para o conceito de verdade de Heidegger após Ser e Tempo, onde o conceito de “clareira” assume um papel central
-
Heidegger passa a enfatizar que a clareira do ser-aí pressupõe um “aberto” que possibilita a abertura do ente, e nesse aberto se desenvolve um jogo de ocultação e desocultação que caracteriza o ser e a verdade do ser
-
A desocultação é um “desocultar da ocultação”, onde o desocultado é arrancado da ocultação, mas nesse arrancar se revela a própria ocultação como condição da aparência de todo desocultado
-
A “clareira” substitui o conceito de “possibilitação” a partir da década de 1930, designando a claridade dentro e graças à qual todo ente pode aparecer, mas também a abertura pressuposta por essa claridade
-
O status desse aberto é semelhante ao do conceito kantiano de transcendental, mas, ao contrário de
Kant, Heidegger reflete sobre o status do que torna possível a revelação do ente, e esse aberto é essencialmente caracterizado por se retirar e se ocultar
IV. As três dimensões da verdade na fenomenologia generativa
-
As conclusões provisórias da fenomenologia generativa para o conceito de verdade, a partir de
Husserl e Heidegger, apontam para três dimensões da verdade compreendida como “singulare tantum”
-
A primeira dimensão, a verdade fenomenalizante, é uma condição necessária, mas não suficiente, da verdade, pois toda “verdadeira” proposição pressupõe um manifestar-se, um aparecer
-
A verdade fenomenalizante é “in-finita” porque diz respeito a todo “objeto” da verdade, independentemente de seu modo de aparecimento, e porque vale para todo ente que se manifesta
-
A questão é se todo ente é, de certa forma, “verdadeiro”, o que poderia levar a uma concepção “deflacionária” da verdade
-
A verdade fenomenalizante é uma condição necessária, pois só se pode afirmar algo de algo sob a condição de que ele seja algo, mas isso implica uma manifestação para…, uma aparição para…, uma dadidade para…
-
O “para quem” não precisa estar corporalmente presente, pois a verdade fenomenalizante é uma manifestação para uma “testemunha de direito”, e é preciso distinguir entre as condições “necessárias” e “suficientes” da verdade
-
A segunda dimensão da verdade concerne a um “recolhimento” ou “retraimento” que joga em toda manifestação, e que se apresenta de duas maneiras e em dois níveis diferentes
-
Toda aparição é condicionada, e o condicionante não aparece da mesma maneira que o condicionado, sendo essencial e fundamentalmente retirado do condicionado
-
Esse é o fundamento da epochē e da redução, que garantem o acesso ao condicionante e possibilitam uma “experiência” do transcendental
-
O condicionante ou não aparece ou se petrifica em um mero “dado” objetivo, e o retraimento também se manifesta na “relação de condicionamento recíproco” entre o constituinte e o constituído, que é geneticizada por uma autorreflexão
-
Essa autorreflexão implica um “salto” entre os registros, um constante alternar entre “presença” e “não-presença”, que constitui o caráter de retraimento da verdade
-
A terceira dimensão, a verdade generativa, determina não apenas o caráter de retraimento da verdade de maneira positiva, mas também a dimensão da verdade do procedimento construtivo
-
A verdade generativa é caracterizada por uma circularidade “generativa”, que não é viciosa, mas constitui “a verdade” da circularidade transcendental e hermenêutica
-
A verdade é a reflexão da reflexão, ela confere sentido à possibilitação, abrindo a “espacialidade” para uma “correspondência” ou “adequação”
-
A reflexão da reflexão estabelece uma distância e é a lei do refletir-se, sendo ao mesmo tempo constitutiva da realidade
-
A verdade não se reduz à verificação por um objeto, mas é uma dimensão de referência ao objeto, caracterizada por uma reflexividade produtiva que contém uma dimensão geradora e criadora
-
A tese de que “a verdade é generatividade” tem consequências fundamentais para a fenomenologia compreendida como idealismo transcendental, pois significa a prioridade do transcendental sobre o empírico, sem excluir que o primeiro possa assumir formas concretas diversas
-
A generatividade é o nome para essa capacidade, não como uma faculdade da razão, mas como uma “força” anônima
-
A verdade como generatividade faz a identidade da reflexibilidade transcendental e transcendente, motivando e completando toda construção genética
-
A reflexão se revela como “pedra de toque” da realidade por meio da “hipoteticidade categórica”, uma figura lógica que faz surgir uma necessidade onde algo foi posto hipoteticamente
-
A necessidade de essência e a generatividade justificam a passagem do hipotético ao categórico, onde a concordância entre a construção e o que é construído é um “perder-se” no verdadeiro, que fundamenta a circularidade transcendental e hermenêutica
V. Zusammenfassung
-
A verdade como “singulare tantum” pode ser resumida no esquema: hipoteticidade categórica → recolhimento → revelação (duplicação possibilitadora) (condicionamento recíproco), onde as diferentes dimensões constitutivas constituem a “verdade” de cada momento anterior e, portanto, da verdade como verdade