Os comentadores não concordam sobre quantos níveis de tempo as análises de
Husserl distinguem, mas na famosa distinção do §34 das Lições sobre o Tempo, ele fala dos “objetos da experiência no tempo objetivo”, das “multiplicidades de aparecimento constituintes de diferentes níveis” e do “fluxo absoluto da consciência constituinte do tempo”
-
A passagem organizada por Edith Stein distingue entre o “ser da experiência”, o “pré-empírico” e o “fluxo da consciência”
-
Uma segunda leitura possível, baseada em um texto de 1913, distingue entre uma “temporalidade pré-fenomenal, pré-imanente” e o tempo imanente, o que sugere uma estrutura de dois níveis, ou três se incluirmos o tempo objetivo
-
A dificuldade é compreender o status ontológico do “pré-empírico”, “pré-fenomenal”, “pré-imanente” e “pré-real”, bem como a performance constitutiva do nível imanente no e através do pré-imanente
-
Outra leitura vê o empírico e o pré-empírico como “duas intencionalidades inseparavelmente unitárias, como dois lados de uma mesma coisa”, tecidas juntas no fluxo da consciência
III. Consciência do tempo e, mais uma vez, autoconsciência
-
A constituição da consciência do tempo coloca problemas que as análises descritivas não conseguem resolver, exigindo sua superação
-
Uma primeira resposta, ainda no âmbito da fenomenologia descritiva, equipara a pré-fenomenalidade à “autoconsciência pré-reflexiva do ato”, interpretando a descrição husserliana da consciência interna do tempo como uma análise da estrutura da auto-aparição pré-reflexiva de nossas experiências em geral
-
O “urbewusstsein” não é um ato de apreensão, mas uma “pré-consciência” que torna cada ato simultaneamente intencional e autoconsciente, o que resolve o problema do regresso infinito e mostra a inadequação do esquema apreensão/conteúdo de apreensão para a constituição do tempo
-
A resposta mais convincente para a possibilidade de uma autoconsciência pré-reflexiva é dada por
Schelling, para quem o surgimento do tempo e o da autoconsciência são cooriginários
-
O “eu” torna-se objeto para si mesmo como sentido interno quando o tempo (não como algo já intuído externamente, mas como ponto, como limite) surge para ele
-
A atividade do eu, quando se torna objeto para si mesma, é o tempo, e o eu é o próprio tempo pensado em atividade
-
A análise de
Schelling aborda o problema da constituição do tempo antes da pressuposição de um tempo já constituído no mundo, levantando duas dificuldades
-
A análise de
Schelling oferece uma resposta ao mostrar que a autoconsciência é a condição da consciência do tempo, e a consciência do tempo é a condição da autoconsciência
-
Heidegger desenvolve a ideia da cooriginalidade da autoconsciência e da consciência do tempo a partir da interpretação do tempo kantiano como “auto-afeição pura”, que é a estrutura essencial da subjetividade
-
Merleau-Ponty retoma essa ideia ao mostrar que a temporalidade é igualada à autoposição do sujeito, onde o afetante e o afetado são um, e essa ek-stase é a subjetividade
IV. Considerações generativas sobre os três tipos de temporalidade
-
Os procedimentos descritivos (
Husserl) e especulativo-dedutivos (
Fichte,
Schelling) são insuficientes para dar conta da constituição do tempo, e a abordagem construtiva fenomenológica oferece uma saída
-
A equiparação da pré-fenomenalidade à autoconsciência pré-reflexiva é justificada, mas não se a estrutura pré-reflexiva for considerada “epifenomenal” em relação à consciência imanente, exigindo uma construção fenomenológica
-
A intencionalidade genuinamente constituinte do tempo não pode ser ativo-signitiva nem passivo-intuitiva, e a vivacidade do tempo se esquiva de qualquer dedução metafísica
-
A construção fenomenológica, diferentemente da dedução, “descobre” o arquétipo e o télos da construção somente na própria construção, e não os pressupõe como válidos
-
Correspondendo aos “três gêneros” da construção fenomenológica, podem-se distinguir três tipos de temporalidade: tempo vivido, tempo instituído e tempo pré-imanente
-
Constitutivamente, eles não se movem em uma escala linear de três níveis, mas o tempo pré-imanente constitui a temporalidade tanto do tempo vivido quanto do tempo instituído
1. Tempo vivido
-
O tempo vivido, que é o tempo no sentido fenomenológico pleno e genuíno, é caracterizado por uma grande variedade de modos de aparecimento e pode se impor de diferentes maneiras
-
Cada ente tem seu “tempo próprio”, e o tempo vivido não é intersubjetivo nem inserido em um quadro extra-egológico, mas o mundo aparece como uma “dimensão” do eu
-
A radical ausência de reflexão é uma característica essencial do tempo vivido, e a heterogeneidade entre a vivência do tempo e a reflexão explica a dificuldade de “explicar” a experiência do tempo
-
As características do tempo vivido são a multiplicidade dos modos de aparecimento, a temporalidade própria de cada ente e a ausência de reflexão
2. Tempo instituído
-
Embora o tempo vivido esteja ligado à existência viva do eu, cada vivência parece ocorrer em um quadro temporal “anônimo”, e a humanidade instituiu um tempo uniforme como medida para a medição cotidiana
-
O tempo instituído é unitário, mas essa unidade não é um atributo fortuito nem de natureza empírica, sendo instituída pela reflexão, enquanto na prática o tempo nunca pode ser medido “exatamente”
-
O tempo instituído apresenta uma dupla dificuldade: um contraste entre a multiplicidade de tempos próprios a cada ente e a unidade do tempo instituído, e um contraste dentro do próprio tempo instituído entre um quadro temporal “absoluto” pré-empírico e pré-reflexivo e sua fixação na reflexão
-
A reflexão não é o meio adequado para compreender e justificar a constituição do tempo, sendo necessária uma construção fenomenológica do “terceiro gênero” que, como uma reflexão da reflexão, explicite o próprio “temporal” tanto do tempo vivido quanto do tempo instituído
3. Tempo pré-imanente
-
O conceito de construção fenomenológica está ligado à problemática do tempo por oferecer uma solução para a disputa sobre se a atividade sintética espontânea do eu transcendental é temporal ou não
-
O que é construído fenomenologicamente se realiza em um movimento de “zig-zag” entre os fenômenos não explicáveis descritivamente e o que deve ser construído, trazendo à tona “fenômenos” que estão aquém da separação entre ente e conhecido e que exibem “estruturas pré-intencionais”
-
A construção se realiza através do que
Husserl chamou de “processo originário” nos Manuscritos de Bernau, que consiste em fases que se preenchem e é irreversível
-
Ao contrário da suposição de
Husserl, o processo originário deve ser descontínuo, pois só assim é fenomenologicamente demonstrável
-
Cada fase é um todo “retencional” e “protencional”, composto por um “núcleo” (uma “fase originária”) de preenchimento máximo e por núcleos modificados cujo preenchimento tende a zero
-
O núcleo originário não é uma impressão hilética pura, mas “é o que é apenas como núcleo pré-intencionalmente encerrado”, e a “nuclearidade” dos núcleos modificados diminui à medida que a modificação avança
-
Essa construção fenomenológica traz à tona uma “in-tencionalidade” preenchedora e “esvaziadora”, e há uma “relação de intensidade” entre o tempo imanente e o pré-imanente
-
A estrutura do processo originário não é uma retenção ou protensão de um conteúdo, mas a abertura de um campo de “núcleos” que estão aquém da separação entre ser e conhecer, constituindo a temporalidade pré-imanente
-
A lei essencial que rege a relação entre a fase originária e as fases com menor grau de preenchimento é que cada “intenção” no campo “protencional” remete ao núcleo originário como seu “terminus ad quem”, e no campo “retencional” ela “empobrece” à medida que se afasta da fase originária
-
O processo originário é um “campo de tensão” que estrutura a subjetividade transcendental como “vida” intencional, onde o campo “protencional-retencional” constitui a própria intencionalidade
-
A auto-aparição do processo originário é possibilitada por uma dupla irradiação de “in-tenções” — uma gradação in-tencional positiva e negativa — cujo ponto de intersecção na fase originária constitui a consciência de um presente originário
-
O processo originário não se torna autoconsciente “posteriormente”, mas é consciente de si mesmo em um fluxo de “núcleos” mediados protencional e retencionalmente, em um presente que também flui
-
Essa estrutura de dupla irradiação torna possível a autoconsciência “simultânea” do processo originário e de todo tempo instituído e vivido, e a referência à temporalidade objetiva é realizada pelo preenchimento das fases do processo originário
-
A auto-aparição do processo originário não deve ser confundida com o ponto de vista reflexivo do fenomenólogo, pois a autoconsciência do processo originário não é “reflexiva” no sentido clássico, nem é uma consciência posicional, surgindo apenas na construção fenomenológica
V. Conclusão
-
O aspecto mais difícil da exposição é tornar compreensível o status “intencional” dos fenômenos originariamente constituintes do tempo, cuja dificuldade reside na ambiguidade da “pré-intencionalidade”
-
A “pré-intencionalidade” não é uma intencionalidade de ato e, como tal, é “pré-intencional”, mas ainda assim é constitutiva para a referência intencional-temporal e, portanto, “ur-intencional”
-
O conceito de “tudo-intencionalidade”, que contém uma forte afirmação e uma não menos forte negação, é uma aproximação para essa dupla significação
-
Construída fenomenologicamente e apreendida em uma “reflexão da reflexão”, a “tudo-intencionalidade” é o núcleo da tentativa de lançar uma nova luz sobre um problema ainda não resolvido de forma convincente
-
A problemática do tempo pode servir de base para uma “fenomenologia da ambivalência” ou da “ambiguidade”