Uma primeira e fundamental modalidade do transcendental, que serve de base para as outras quatro, é o “transcendental da fenomenalização não aparente”, que não diz respeito a nenhuma “realidade” particular, mas à possibilidade mesma do aparecer e à sua articulação com o aparecente, sem que isso implique uma teoria das faculdades ou uma doxa
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Essa modalidade é constituída por formas a priori que fundamentam as condições da fenomenalização em geral, correspondendo ao que se pode chamar de “realidade” da fenomenalização, composta pela necessidade que introduz na experiência
O “transcendental fenomenalizante aparente” reúne os modos concretos de constituição do aparecente, sendo o domínio da fenomenologia descritiva que investiga os tipos de intencionalidade, incluindo a intencionalidade de horizonte, e determina o que se chama de “transcendental fenomenalizante aparente”
O “transcendental genético” genetiza a factualidade do transcendental imanente, operando em um nível “pré-imanente” e envolvendo uma “reflexibilidade transcendental”, sendo responsável tanto pela genetização da factualidade imanente quanto por uma relevância arquitetônica
O “transcendental ocorrencial” diz respeito à factualidade dos fatos que constituem o mundo, onde a “Urdoxa” é a tese do mundo em sua estabilidade e realidade, e o “ocorrência” é um fato absolutamente singular, contingente e não apreensível conceitualmente, cuja realidade é chamada de “realidade de ocorrência”, e no qual atua uma “reflexibilidade transcendente”
O “transcendental urdóxico” concerne à existência do próprio mundo e à sua constituição transcendental, envolvendo as dificuldades, desde
Husserl até
Merleau-Ponty, de determinar sua “estabilidade” em vista dos “mandamentos fenomenológicos”
O desafio é conceber a relação do “pensamento” com o “ser” sem cair nas insuficiências de um idealismo ou realismo unilaterais, ambos vitimados por uma petição de princípio
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A referência ao mundo não pode ser estabelecida fora de uma referência à consciência, mas restringir-se a isso leva a um idealismo radical que faz o ser escapar, razão pela qual a relação com o real introduz uma negação e uma aniquilação
A aniquilação atua diretamente sobre a realidade, e a resposta à pergunta sobre o que é a realidade em cada referência ao mundo exige arrancar-se do absorvimento em uma percepção singular, revelando uma distância necessária entre o “aparecente” e o “ente”, onde cada determinação é uma negação que se aninha no núcleo do transcendental e da “realidade” que lhe pode ser atribuída
IV. Considerações arquitetônicas
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A apresentação das cinco “modalidades” do transcendental se desdobra em diferentes níveis, exigindo uma distinção prévia entre um “plano de essência” e um “plano de existência” da realidade, que não corresponde ao antagonismo entre “dado” e “real”
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Essas modalidades se distribuem segundo uma dupla perspectiva ligada ao modo de constituição: a constituição imanente e o princípio da fenomenalização, e a constituição do mundo e dos ocorrências intramundanos, coordenados entre si pelo princípio da gênese
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A fenomenalização e a constituição do real imanente buscam responder à legitimação da necessidade da realidade, enquanto a realidade mundana e a realidade de ocorrência esclarecem o significado da “realidade nua”, operando a gênese em um nível aquém da separação entre esses dois planos
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A constituição transcendental-fenomenológica não é meramente cognitiva, mas tem uma função constitutiva de objetividade, enquanto a questão da “factualidade nua” tem um status “transcendental”, e ambas as perspectivas se cruzam geneticamente no nível da “reflexibilidade transcendental”, que constitui o “ponto mais alto” da fenomenologia generativa
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Embora cada modalidade do transcendental seja constitutiva de algo, cada uma também é caracterizada por um tipo correlativo de realidade
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Nas modalidades relativas ao real imanente, aos ocorrências e ao mundo, o que constitui a respectiva modalidade transcendental constitui a própria realidade do que é constituído por ela
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Nas modalidades da fenomenalização não aparente e da gênese, o que elas determinam e sua respectiva “realidade” são distintos, pois sua realidade se baseia em um certo tipo de necessidade
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As distinções estabelecidas são: dois tipos de transcendental fenomenalizante (não aparente e aparente) e dois tipos de transcendental factual (ocorrencial e urdóxico), além do transcendental genético, situado aquém de qualquer separação
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A essas modalidades correspondem: a realidade do transcendental fenomenalizante não aparente, a realidade do transcendental fenomenalizante aparente, a realidade intramundana ou de ocorrência, a realidade “do mundo” e a realidade do Genético
V. As diferentes concepções do real
1. O real do transcendental fenomenalizante não aparente
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A modalidade do transcendental fenomenalizante não aparente é um transcendental de “algo”, mas não lhe corresponde nenhuma “realidade” exterior e positiva, pois não é constitutivo de um objeto determinado, mas abre a possibilidade de um “encontro” de algo
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As “formas” da fenomenalização constituem a realidade dessa modalidade transcendental, mas como nenhum conceito de sujeito é pressuposto, não se pode falar de uma doutrina das faculdades ou de uma linguagem particular com suas estruturas próprias
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A reflexão sobre as condições transcendentais do aparecimento não se situa no quadro de uma doutrina do juízo
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A exterioridade radical é caracterizada pelo fato de que, em cada “encontro”, algo novo se apresenta, sendo o dado uma ilimitação caótica
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A estabilidade e regularidade da experiência atestam um “excedente” constituído pelas “formas da fenomenalização”
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Quatro formas podem ser distinguidas: a espaço-temporalidade como forma fundamental de todo encontro, que não abre o “mundo”, mas a possibilidade do encontro de uma “coisa” em geral
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A forma fundamental da coisidade de uma coisa é a identidade, a extensionalidade e a qualificabilidade
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A forma fundamental das relações entre as coisas é a ação recíproca, incluindo o distanciamento, a causalidade e a interação
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As três formas fundamentais das relações entre o “si mesmo” e as coisas são a existencialidade, a possibilidade e a necessidade
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A “realidade” do transcendental fenomenalizante não aparente constitui a necessidade da ordem e regularidade da experiência por ele constituída, o que exige o tratamento do real do transcendental fenomenalizante aparente para uma fundamentação mais aprofundada
2. O real do transcendental fenomenalizante aparente
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Trata-se da modalidade da dadidade intuitiva dos objetos, embora essa “intuição” só seja dada em uma intuição reflexiva, e o conceito de “Transcendental” remeta a uma dimensão eidética da reflexão
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A realidade dessa modalidade transcendental é o caráter real da esfera da consciência imanente, cujos “componentes” transcendentais não são dados da mesma maneira que o que nela aparece, remetendo a uma dimensão pré-reflexiva, ou seja, a uma autoconsciência pré-reflexiva do ato de consciência em questão
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A dimensão pré-reflexiva é o excedente fenomenalizante aparente no imediatamente dado, e sua “realidade” é o próprio constituído por ela, caracterizando-se por uma “relação de condicionamento recíproco” entre o “Constituinte” e o “Constituído”, na qual a realidade do transcendental é o que por ele é constituído, e essa realidade, por sua vez, o “funda”
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A renovação do conceito de transcendental inaugura, como
Levinas mostrou, uma “nova ontologia”, na qual o ser não é meramente correlato de um pensar, mas funda esse pensar que o constitui
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A dimensão transcendental que determina a realidade não parte unilateralmente da subjetividade para o objeto, mas há uma relação de condicionamento recíproco entre pensar e ser, sujeito consciente e objeto da consciência
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Isso vincula
Husserl a
Schelling, na medida em que a determinabilidade real do transcendental remete à categorialidade lógica do próprio real, constituindo o transcendental através de uma espécie de “retroalimentação” pelo real e assegurando uma “realidade objetiva” literal
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Somente na medida em que o ser “funda” a consciência pode a consciência “constituir” o ente real em seu sentido, de modo que o conceito de constituição da realidade deve ser entendido de forma que o objeto não sirva apenas como fio condutor abstrato, mas como um concreto que contamina as performances transcendentais
3. O real genético
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Na fenomenologia, podem-se distinguir três tipos de “fatos”: os “meros fatos” ou “eventos” contingentes da fenomenologia descritiva; os “fatos originários” ou “absolutos” da metafísica; e os fatos particulares da fenomenologia construtiva, que impõem limites à abordagem descritiva, mas são “geneticamente construíveis”
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Esses limites e sua superação pela “construção” são exemplificados pela análise da constituição da consciência do tempo, onde a “forma” temporal caracteriza tanto o fluxo hilético quanto a intencionalidade constitutiva, sendo ao mesmo tempo “objetiva” e “subjetiva”
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A pergunta sobre o que constitui o tempo daquilo que constitui o próprio tempo, sem que essa constituição possa ser garantida pelo que foi primeiro constituído, revela uma aporia que a análise puramente descritiva não pode resolver, levantando a questão da legitimação do procedimento fenomenológico diante desses “fatos” irredutíveis
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O método construtivo na fenomenologia consiste em genetizar esses fatos, caracterizando-se por uma “abordagem” própria e uma “realidade” que lhe é inerente
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A abordagem não é uma produção subjetiva pura nem um registro passivo de uma realidade preexistente, mas uma espécie de “interrogação” ativa, uma configuração que só “é” na medida em que é descoberta e possui uma necessidade que se manifesta apenas na própria genetização
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Em relação à relação de condicionamento recíproco que caracteriza o real do transcendental fenomenalizante aparente, o Genético constitui uma (auto)reflexão do sentido fundamental dessa “relação de condicionamento”, na qual cada condição implica uma diferença de nível que traz à tona presença e retirada
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Não se trata apenas de que o transcendental implique aniquilação e criação por não admitir experiência possível, mas ocorre um “salto entre os registros” que se estende por toda a esfera aquém da consciência imanente, desencadeando um jogo entre “presença” e “não-presença” que influencia retroativamente o status das condições transcendentais da fenomenalização
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Esse “salto” não é executado de fora, mas realiza, em uma “reflexão da reflexão”, a determinação fundamental do transcendental, que consiste em uma duplicação característica da possibilitação
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A “reflexibilidade transcendental”, distinta da “reflexibilidade transcendente”, determina o “registro mais arcaico” de toda gênese
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Enquanto no nível transcendental da fenomenalização a coerência da experiência “sustenta” a necessidade das condições transcendentais, no nível transcendental da gênese nenhum tipo de experiência pode servir como “estabilizador”, razão pela qual a “necessidade” da gênese é uma necessidade puramente interna
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No nível da gênese, não se fala propriamente de “necessidade”, mas de “realidade”, de realidade geneticada, que “injeta” o “Real” na factualidade para além da qual a abordagem descritiva é ineficaz
4. O real dos ocorrências
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A questão do “Real” se coloca de maneira diferente no nível da constituição factual do mundo e de sua ocorrencialidade, ou “plano de existência” da realidade
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Enquanto nas modalidades da fenomenalização e da gênese se trata de uma relação de condicionamento ou de possibilitação, no nível da “realidade de que” a “factualidade” é de outra natureza, perguntando-se o que faz de um ocorrência um ocorrência, ou o que constitui a “factualidade” nua
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O problema é que o ocorrência, em sua radical contingência, se furta a qualquer tentativa de lhe “prestar contas”, e sua profunda instabilidade revela que a unidade de “reflexão da reflexão” e “realidade” se apresenta em uma outra modalidade de “reflexibilidade”, a “transcendente”, que atua como “princípio de fragmentação” da Urdoxa
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Enquanto a “reflexibilidade transcendental” diz respeito à lei do refletir-se da reflexão no nível do “princípio”, a “reflexibilidade transcendente” torna possível, graças a uma construção fenomenológica de terceiro gênero, a equiparação entre a “reflexão da reflexão” válida no nível do ocorrência e a “realidade”
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Na elucidação de como a “reflexibilidade transcendente” pode ser “determinante da realidade” para o aparecente, o “si mesmo” entra em jogo na relação entre o “real intramundano” e o “ocorrência”
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Quando o “si mesmo” entra em contato com o mundo, ocorre, no registro fenomenológico mais arcaico, uma fragmentação “infinita” do que é sustentado pela Urdoxa, onde cada ocorrência representa uma cristalização ou uma deposição dessa fragmentação, sendo marcado por uma contingência irredutível
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Essa fragmentação, que precede toda determinação objetiva do aparecente, ocorre no ponto de contato entre o si mesmo e o mundo, sendo, em certo sentido, a “forma a priori” desse contato, “antes” de qualquer “apropriação” e “compreensão”
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A constituição da experiência exige, segundo
Kant, uma reflexão sobre a síntese do múltiplo caótico por formas unificadoras, mas essa multiplicidade não pode ser simplesmente pressuposta, sendo antes o resultado de uma conformação que adere à Urdoxa
5. O real mundano
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No “plano de existência” da realidade, a questão de sua essência revela um princípio de unidade e fragmentação entre a Urdoxa e a fragmentação infinita característica do real do ocorrência
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A resposta de
Richir ao problema da “realidade” do próprio mundo em sua “transcendência” é que ela deve seu caráter “transcendente” à “transposição arquitetônica do 'elemento fundamental' do esquematismo no 'elemento inteligível'”
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O “elemento fundamental” é o “elemento” da “corporeidade”, identificado com a “chora”, ou o “espaço de transição”, que é a “hyle” em sentido fenomenológico, sendo uma condição arquitetônica do “pensamento” que produz a distância irredutível necessária para que ele não perca toda a dinâmica
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A “realidade” não se limita ao excedente do ente perceptível sobre o atualmente “percebido”, pois, se assim fosse, não se poderia distinguir entre o ente “real” e o meramente imaginado
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Não se trata de questionar a necessidade de examinar a relação entre a “realidade do mundo” e uma dimensão “inteligível”, mas de preservar o mandamento fenomenológico de eliminar todo recurso a teses metafísicas e de considerar o vínculo entre a factualidade peculiar da “realidade do mundo” e a dimensão genética da inteligibilidade que a “sustenta”
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O que confere “realidade” ao Genético é a factualidade, e vice-versa, e a possibilidade de se situar em um nível aquém da separação entre epistemologia e ontologia se justifica por essa nova “relação de condicionamento recíproco”, situada em um nível constitutivo mais profundo
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A estabilização do real mundano é garantida tanto pelo real urdóxico quanto pelo genético, sendo o Genético, em sentido estrito, a razão fundamental para que o real não se converta em imaginário
VI. Conclusão
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A questão a que se respondeu foi a do ser “da” realidade em geral, onde se cruzam as dimensões do eu e do externo, e os planos de essência e existência da realidade, levantando duas questões de legitimação distintas: a da determinação do real por categorias de pensamento a priori e a de um excedente de estabilidade em relação à consciência como “possuidora” da realidade
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A realidade entra em jogo na apreensão das categorias fundamentais da fenomenalização, que trazem para suas performances instituidoras de realidade uma relação de condicionamento recíproco com o constituído, refutando um idealismo unilateral
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O “ponto mais alto” da problemática da realidade na “fenomenologia generativa” é a identificação de realidade e “reflexão da reflexão”, pois essa relação pode ser geneticada graças à “reflexibilidade transcendental”, enquanto a “reflexibilidade transcendente” se apresenta como princípio reflexivo da fragmentação do sustentado pela Urdoxa
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O “real mundano” é caracterizado por uma segunda relação de condicionamento recíproco, mais profunda, entre gênese e factualidade
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A “Realidade” traz à tona vários aspectos da “não-dadidade” aquém da dadidade: a “não-aparência” e a dimensão “pré-reflexiva” na fenomenalização, a “pré-imanência” na gênese e a “aniquilação” da consciência no real mundano
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A tese de Markus Gabriel de que “o mundo não existe”, baseada na impossibilidade de conhecer o todo e na retomada do motivo heideggeriano de um antecipar a possibilidade da impossibilidade de existir como condição da possibilidade de toda possibilidade finita, é fundamentalmente acolhida
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Três observações finais dizem respeito ao “construtivismo”, ao “ceticismo” e à crítica do “realismo especulativo”
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A orientação “construtiva” da fenomenologia generativa não deve ser confundida com o construtivismo usual, que é uma teoria do conhecimento para a organização da experiência subjetiva, não para o conhecimento de uma realidade objetiva, e que defende a impossibilidade de acesso à realidade, substituindo-a por ideias de “viabilidade” ou “autopoiese”
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Embora o construtivismo tenha razão em preferir a perspectiva coerentista à correspondente, a ideia de “viabilidade” pressupõe um mínimo de determinação “mundana” e uma realidade para além do construído, de modo que não há realidade “por trás” da construção, mas apenas nela ou junto a ela
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A necessidade da realidade só se revela em sua própria execução, o que exclui qualquer tomada de posição abrangente
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Quanto ao ceticismo, se sua atitude é fundada e necessária, não é porque a dadidade do mundo poderia ser legitimamente posta em dúvida, mas porque o fato de a realidade ser a aniquilação do fenomenalizado encerra uma incerteza, uma vez que toda referência consciente foi aniquilada
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O ceticismo não tem um papel “impulsionador”, mas mergulha na profundidade da realidade, sendo uma figura subsequente e indestrutível, pois “para além” da referência consciente não há um “estabilizador” transcendente para assegurar
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Por fim, a crítica do “realismo especulativo” ao “correlacionismo” é refutada a partir do que foi exposto
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O realismo especulativo afirma que as proposições “ancestrais” tornam absurda qualquer constituição da consciência, mas o fenomenólogo contra-argumenta que, para que uma proposição ancestral expresse um conhecimento verdadeiro, é preciso que lhe seja atribuída realidade, o que se deve ao modo como nos relacionamos com seu conteúdo e estabelecemos as conexões que decidem quais proposições são “verdadeiras”
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A ancestralidade é, portanto, o explicandum da boa fundamentação do correlacionismo
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O correlacionismo não afirma que o visado em uma proposição tem uma consciência correlativa como pressuposto, mas que isso vale para o sentido do visado “conscientemente”, ou seja, graças a uma formação de sentido
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O fenomenólogo afirma que as proposições ancestrais são capazes de verdade, e isso só é possível “através” da “consciência” formadora de sentido e da relação de condicionamento recíproco que lhe é característica
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Sem essa “consciência”, não se pode decidir qual proposição ancestral é verdadeira, nem mesmo compreender o sentido de qualquer proposição desse tipo
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A ancestralidade funciona como uma alavanca para um argumento ontológico invertido ou “anancológico”: a existência da ancestralidade implica a necessidade da possível dadidade para e pela “consciência” formadora de sentido e, consequentemente, a realidade do visado ancestral
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A “generatividade” designa a essência da formação de sentido na medida em que determina o conteúdo de sentido de uma proposição ancestral
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Assim, pela afirmação bem fundada da ancestralidade, o correlacionismo — não mais o de um sujeito constituinte e seu objeto, mas o do processo de formação de sentido e do sentido objetual que nele se cristaliza e estabiliza — é não apenas reafirmado, mas posto em sua dignidade por esse argumento invertido