Estórias

SCHAPP, Wilhelm; LÜBBE, Hermann. In Geschichten verstrickt: zum Sein von Mensch und Ding. 2. Aufl ed. Wiesbaden: Heymann, 1976.

CAPÍTULO 1

Geschichten und was darin vorkommt — Der in Geschichte Verstrickte — Das Wozuding in der Geschichte — Das Wozuding in der Außenwelt (Histórias e o que nelas ocorre — O Envolvido em história — O Coisa-para (Wozuding) na história — O Coisa-para (Wozuding) no mundo exterior)

1. Os seres humanos encontram-se sempre envolvidos (verstrickt) em histórias (Geschichten), e aquele que está envolvido pertence tão essencialmente à história que talvez nem mesmo em pensamento se possa separar a história do estar-envolvido em história.

2. Ao perguntar o que mais, além do envolvimento (Verstricken), pertence às histórias e como isso ocorre nelas, o campo a ser examinado parece, à primeira vista, incalculável e inesgotável.

3. Nas histórias comparece, além disso, a chamada mundo exterior (Außenwelt), desde a Terra até as últimas estrelas, e, com isso, surge algo de novo, pois, embora se possa dizer que casas, rios, montanhas, vales, estrelas, lua e sol comparecem em histórias, já não se pode mais dizer, em nenhum sentido, que eles estão envolvidos em histórias, ainda que possa ter havido épocas em que essas formações foram representadas como pessoas ou seres vivos, restando ainda hoje resquícios dessas representações.

4. Há um estreito caminho que estabelece uma conexão interna entre as histórias e o mundo exterior, e vê-se essa junção (Nahtstelle) nas formações denominadas coisas-para (Wozudinge), com as quais se ocupa a primeira seção do trabalho, dando-se uma visão geral das relações entre a primeira e a segunda seções, isto é, da relação da coisa-para com a história, de um lado, e com o mundo exterior, de outro.

5. Se as coisas-para (Wozudinge) medeiam tal conexão entre histórias e mundo exterior, então estaria demonstrado o primado das histórias sobre o mundo exterior, ou o mundo exterior e o espaço surgiriam primeiramente a partir das histórias e do contexto histórico em que as coisas-para aparecem, embora essa tese, no primeiro momento, possa causar estranheza e exigir uma fundamentação, a qual será fornecida no decorrer da seção, sendo a conclusão da seção de que o caminho para as coisas (Dinge) e para o mundo exterior (Außenwelt) só se encontra a partir das coisas-para (Wozudinge), e que a compreensão do mundo exterior depende essencialmente da compreensão dessas formações criadas pelo homem.

Über die Verständigung durch die Sprache — Das Erzählen und Verstehen (Sobre a compreensão mútua por meio da linguagem — O narrar e o compreender)

6. Dois conhecidos, A e B, caminham juntos em silêncio, cada qual entregue a seus próprios pensamentos, e tanto os complexos de pensamentos de A quanto os de B estão interligados e inseridos em contextos mais amplos, podendo-se perguntar por que A se ocupa com certos pensamentos e B com outros que não têm pontos de contato com os pensamentos de A; quando A começa a falar, referindo-se aos pensamentos que tinha antes e os expondo em conexão, interessa saber como B é “arrancado” de seus próprios pensamentos e como, após o relato de A, o mesmo complexo que ocupava A passa a estar, em certo sentido, diante de B.

7. Tal compreensão mútua (Verständigung) só pode ter sucesso quando o que A comunica, o complexo de pensamentos de A, encontra de algum modo acolhida no mundo de pensamentos de B, quando estabelece uma relação com esse mundo, quando esse mundo já oferece, por assim dizer, lugar para o aparecimento do complexo que A quer transmitir, e por isso a fala é naturalmente orientada para estabelecer essa conexão, devendo ser dirigida de modo diferente conforme se fale com uma criança ou com um adulto, com um leigo ou com um especialista, com um homem ou com uma mulher, como o exemplo de Paulo, que busca conexão com o mundo de pensamentos dos atenienses ao remeter-se ao altar do deus desconhecido.

8. Pode-se talvez dizer que toda compreensão mútua depende de que se encontre tal conexão, ou, em outras palavras, de que no ouvinte já esteja presente um horizonte (Horizont) no qual a fala se insira, ou, talvez melhor, no qual o complexo de pensamentos se insira, e quem fala, inclusive o próprio texto, encontra-se na mesma situação que qualquer um que tem algo a comunicar, dispondo para isso da rica língua do povo, com a ampliação do horizonte que se deve às ciências da linguagem, a língua de Lutero e Goethe, de modo que não poderia haver falta de expressões para o que se quer dizer.

9. A maior dificuldade para a tarefa reside talvez no constante confronto com a linguagem artificial (Kunstsprache) dos filósofos, fixada mais ou menos ao longo de dois milênios, e com as linguagens artificiais das ciências particulares, especialmente da ciência natural, nas quais se cresceu, de modo que, ao examinar todas as expressões fornecidas por essas linguagens artificiais, talvez não se pudesse adotar nenhuma, ou seria necessário colocar quase todas entre aspas para indicar que são usadas em sentido diverso do de seus criadores, sendo que, em muitos casos, a distância em relação à linguagem artificial é maior do que em relação à língua popular.

10. Embora se possa folhear todo o léxico das expressões filosóficas sem estar disposto a adotar qualquer uma no sentido corrente, enquanto expressões como história (Geschichte) e coisa-para (Wozuding) dificilmente se encontram registradas, a dificuldade da expressão ou do confronto com as expressões não é o pior; pior é que todo leitor cresceu com essas expressões, está, por assim dizer, colocado em um mundo que corresponde a elas, e é preciso encontrar de algum modo uma conexão com esse mundo tal como ele está dado para o leitor.

11. Comparando-se esse mundo do leitor com um edifício, o leitor deve contar com a possibilidade de que seja necessário demolir esse edifício até os alicerces para se obter a conexão, mas nessa comparação mostra-se o quanto a tarefa é mais difícil do que a de um construtor, pois, enquanto este, após a demolição, cria definitivamente espaço para o novo edifício, os complexos de pensamento não podem ser demolidos dessa maneira, parecendo antes ocorrer como na luta contra a Hidra, em que no lugar de uma cabeça cortada nascem duas novas, e um erro eliminado gera dois novos erros.

12. É preciso ver como lidar com esse emaranhado de ameaçadores mal-entendidos, e a tarefa pode ser esclarecida pelo fato de que tudo o que se considera erro tem lugar nas histórias em que se está envolvido, e talvez nas histórias e na história os erros tenham tanta importância quanto o que se considera verdade, embora ao falar de erro e verdade já se faça uma concessão ao uso linguístico, sendo mais adequado falar de não-real e real, e perguntar se o não-real também é, em certo sentido, real, como no caso de uma notícia falsa que pode causar angústia mortal ou de uma falsa cosmovisão que pode obscurecer o ânimo, mas isso ainda é pouco mais do que uma indicação das dificuldades que se opõem à compreensão mútua e ao compreender (Verstehen).