Tezuka

El Oriente de Heidegger. Carlo Saviani. Tr. Raquel Bouso García. Barcelona: Herder, 2004

TOMMO TEZUKA: UMA HORA COM HEIDEGGER

1. Tezuka relata sua visita ao professor Heidegger em Friburgo no final de março de 1954, onde a conversa, inicialmente planejada para discutir o papel do cristianismo na civilização europeia, logo se voltou para questões sobre a mentalidade e a arte japonesas, pois Heidegger, que teve seu interesse pelo Japão despertado por Shūzō Kuki, mostrou fotos da tumba de Kuki e expressou seu interesse pelo pensamento zen, aberto à vastidão do mundo, nomeando também Daisetz Suzuki.

2. A conversa derivou para o caráter essencial do arte japonês, e Tezuka explicou que a peculiaridade do povo japonês e de sua arte consiste antes de tudo no sensível, na tendência a dar sempre mais valor ao crescimento do sentido artístico, de modo que o que foi captado na sensibilidade adquire caráter simbólico, e algo minúsculo eleva seu significado por estar situado em um espaço vasto, e o caráter espiritual do arte japonês reside nesta concepção que vai além do caráter sensível, através do qual o espiritual é suscitado, e Heidegger, ao ouvir, perguntou se esse caráter espiritual poderia ser designado como metafisicidade, e Tezuka concordou, embora sentindo que precisava acrescentar alguma aclaração, e Heidegger observou que em Platão o metafísico e o sensível são separados em dois âmbitos, enquanto no Japão parecem constituir uma unidade.

3. Heidegger expressou o desejo de ler literatura japonesa em traduções inglesas, e perguntou pela fonte literária do filme Rashōmon, de Akutagawa Ryunosuke, e o achou interessante, e Tezuka notou que a espécie de indeterminação que o filme mostra sobre o conhecimento da realidade talvez tenha interessado Heidegger como um traço oriental, e que, pelo modo como Heidegger formulava as perguntas, se podia descobrir para onde se dirigia seu interesse, e Heidegger disse que é nessa profundidade que Oriente e Ocidente devem dialogar, sendo insignificante conceder uma entrevista seguindo simplesmente a atualidade.

4. Tezuka perguntou a Heidegger sobre seu ensaio “Wozu Dichter?”, onde Heidegger considera Rilke, como Hölderlin, um poeta em tempos de indigência e um poeta do amor, mas ao final escreve “se Rilke é poeta em tempos de indigência”, e Tezuka perguntou por que Heidegger escreveu “se”, e Heidegger respondeu que evitou um juízo definitivo e deixou “offen”, aberto, o problema, e concordou que sobre Rilke devia meditar de forma ainda mais radical.