Filosofia japonesa

El Oriente de Heidegger. Carlo Saviani. Tr. Raquel Bouso García. Barcelona: Herder, 2004

KÖICHI TSUJIMURA: O PENSAMENTO DE MARTIN HEIDEGGER E A FILOSOFIA JAPONESA

1. A relação singular entre o pensamento de Heidegger e a filosofia japonesa

1. Tsujimura, em seu discurso de agradecimento pelo octogésimo aniversário de Heidegger, afirma que o longo caminho percorrido pelos japoneses para alcançar a proximidade do pensamento de Heidegger indica que este guarda uma relação de singular importância com a filosofia japonesa, e para descrever essa relação, é necessário partir de uma definição e de uma dificuldade constitutiva [Wesensnot] da filosofia japonesa, entendida não como a filosofia importada da Europa e da América, mas como o esforço de pensamento que surge do fundo originário da tradição espiritual japonesa.

2. Tsujimura caracteriza a dificuldade constitutiva da filosofia japonesa a partir da concepção tradicional de “natureza” [shizen ou zinen], que significa “ser tal como se é por si mesmo”, sinônimo de liberdade e verdade, onde os japoneses, desde a antiguidade, querem viver e morrer de maneira conforme à natureza, sem dominá-la, e essa concepção foi profundamente enraizada pela visão budista da transitoriedade e da vacuidade de todas as coisas.

2. O pensamento de Heidegger e o despertar do fundo esquecido

3. Tsujimura afirma que, com o pensamento de Heidegger, a situação é completamente distinta, pois o que se torna digno de ser perguntado [ fragwürdig ] é aquilo que os japoneses já são e que já foi compreendido de modo não objetivo, mas que foi constantemente obviado e saltado de pés juntos [übersprungen] pela ciência e pela filosofia, e a coisa em questão no pensamento [die Sache des Denkens] de Heidegger se retrai em sua verdade quando se a quer representar, captar e saber, sendo por isso que seu pensamento, por sua razão de ser, permanece inimitable.

3. O exemplo do “árvore em flor” e a superação do pensamento representativo

4. Tsujimura analisa o exemplo do “árvore em flor” na obra “Was heißt Denken?” (GA8) de Heidegger, onde Heidegger descreve a situação de estar diante de um árvore em flor, mas substitui o habitual “nós nos representamos [stellen uns … vor] um árvore” por “(Nós) nos pomos frente [stellen uns … gegenüber] a um árvore, ante ele”, e nessa descrição, o “nós” como sujeito que representa e o “árvore” como objeto representado desaparecem, pois desde Descartes o pensar significa “eu represento a mim”, e Heidegger descreve a situação a partir do “nos” [“Da”], onde o árvore está, que é o solo “onde vivemos e morremos”.

5. Tsujimura compara essa situação com o famoso kōan de Chao-Chou: “Ciprés no jardim”, onde um monge pergunta ao mestre sobre a verdade budista e a resposta de Chao-Chou, “Ciprés no jardim”, ilumina como um raio que, num só golpe, derruba a pergunta e o monge que a formula, fazendo resplandecer nua a verdade requerida, mas o monge, ainda ligado ao representar objetivante, não presta atenção à resposta, mas ao ciprés como objeto, e por isso deve rogar que não indique a verdade recorrendo a um objeto, sem perceber que o mestre nunca o fez.

6. Tsujimura sugere que, se o mestre zen Dōgen tivesse ouvido a pergunta de Heidegger, possivelmente teria respondido: “No instante em que um velho cirmeleiro floresce, em seu florescer advém [ereignet sich] o mundo”, e que o pensamento de Heidegger e o budismo zen concordam ao menos em derrubar o pensamento representativo, e o campo da verdade que se abre indica uma afinidade muito íntima entre ambos, ainda que não suficientemente aclarada.

4. O discurso de agradecimento de Heidegger

7. Heidegger, em seu discurso de agradecimento, observa que o desarraigo [Heimatlosigkeit] é o destino mundial, e o homem moderno está a ponto de se estabelecer nesse desarraigo, que se oculta sob o fenômeno da “civilização mundial”, caracterizada pelo predomínio das ciências da natureza, da economia, da política e da técnica, e que essa civilização mundial submeteu toda a Terra, de modo que a dificuldade [Not] dos japoneses é também a sua.