A reconciliação e os encontros finais com Hannah
Arendt marcaram um reatamento profundo do diálogo intelectual e afetivo, fundado numa compreensão singular de seu pensamento.
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O poema Otoño, enviado por Heidegger por ocasião do sexagésimo aniversário de Arendt, foi interpretado por ela como um sinal elegíaco e um convite ao reencontro.
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As visitas anuais subsequentes, inclusive a de 1969 acompanhada por Heinrich Blücher, estabeleceram uma nova normalidade cordial, simbolizada pelo uso dos prenomes entre as mulheres e pela dedicatória conjunta em livros.
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A interpretação arendtiana da obra tardia de Heidegger, que via nela um pensamento da gratidão pelo fato bruto de existir, foi reconhecida pelo próprio filósofo como a mais precisa compreensão de seu trabalho.
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A mediação de Arendt na tentativa de venda do manuscrito de Ser e tempo demonstra o envolvimento prático dela em assuntos da vida de Heidegger, culminando na doação do manuscrito ao Arquivo de Marbach.
A vida em Freiburg e as visitas a Messkirch configuraram uma velhice pública e enraizada, contrastando com a imagem do pensador recluso.
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A rotina diária era metódica, dividindo-se entre trabalho, descanso, passeios e encontros informais no mesón Jägerhäusle.
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A relação com Messkirch era de pertencimento mútuo, expresso na concessão da cidadania honorária, na participação nas tradições locais e no desejo de ser ali sepultado.
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O episódio da antiga colega de escola, que o aborda com o impessoal um, revela o embaraço perante a fama, mas também a persistência de Heidegger como uma figura familiar na paisagem de sua infância.
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O interesse entusiasmado por futebol, em particular pela figura de Franz Beckenbauer, mostrava uma admiração por qualidades atléticas que metaforicamente ecoavam temas de sua filosofia, como a genialidade e a invulnerabilidade tática.
Os esforços editoriais finais concentraram-se na preparação da edição completa de suas obras, projeto que testemunhava a autoconsciência de seu legado.
O cerne da tarefa filosófica heideggeriana é definido como a paixão pelo perguntar, atividade entendida como a verdadeira devoção do pensamento.
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A pergunta pelo ser é identificada como a questão única e orientadora de toda sua trajetória, cujo sentido não é obturar com uma resposta, mas manter aberto um claro.
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Nesse claro, instaura-se o espanto diante do fato de que há ente, o homem se experimenta como lugar de abertura, e torna-se possível a gratidão ontológica.
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A recepção frequentemente intimidante e obscurantista dessa pergunta é criticada através da parábola zen do ganso na garrafa, sugerindo que a solução está num gesto de simples reconhecimento, não num esforço contorcido.
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A história zen das montanhas e das águas serve de analogia para o percurso do pensamento autêntico: da atitude natural, passa pela desfamiliarização crítica, para retornar, num nível superior, à apreensão renovada do óbvio.
O método da indicação formal é elucidado como a prática pedagógica e fenomenológica fundamental, que transfere a responsabilidade da evidência para a experiência intuitiva do interlocutor.
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A analogia com o guarda de museu que abre as cortinas define o papel do filósofo como aquele que remove obstáculos e prepara o olhar, não como aquele que impõe uma visão.
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O objetivo último é permitir uma visão das coisas como se fosse a primeira vez, restaurando a luminosidade originária do mundo.
A análise ontológica do ser-aí é exemplificada pela descrição fenomenológica da ponte, que revela a existência humana como um pontear constitutivo.
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A observação comum da ponte como mero utensílio dá lugar a uma visão que o compreende como gesto que une terra e céu, suportando os mortais sobre o abismo.
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A existência é interpretada como trânsito e risco, um construir-se no próprio caminhar, onde o espaço aberto se constitui sob os pés.
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As esculturas dos santos das pontes materializam a gratidão pelo dom de existir neste entre, nesta claridade entre o celestial e o terrestre.
A escrita tardia e enigmática de Heidegger, por vezes envolvida em jogos linguísticos, recebe uma avaliação equilibrada que rejeita tanto a veneração acrítica quanto o descarte irônico.
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Passagens sobre o quadrado [Geviert] são comparadas aos tatuagens indecifráveis do personagem Quiqueg, de Moby Dick: inscrições de um saber destinado a perecer com seu portador, transferido para o caixão como testemunho mudo.
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Admite-se que parte considerável do legado escrito contém enigmas que permanecerão como inscrições na madeira do ataúde.
A aproximação da morte foi vivida com serenidade e marcada por um retorno afetivo e simbólico às origens.
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A morte de Hannah Arendt em 1975 precede sua própria partida.
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O último encontro com Heinrich Petzet registra o momento de consciência do fim, expresso nas palavras de Heidegger sobre a proximidade do término do caminho.
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A conversa final com Bernhard Welte estabelece os termos do funeral desejado e articula a conexão íntima entre a proximidade da morte e a proximidade da pátria.
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A última anotação manuscrita, um Saudação a Welte, encerra com uma interrogação filosófica sobre a possibilidade de uma pátria na era da tecnificação global.
A morte ocorreu em 26 de maio de 1976, de modo pacífico, após um despertar tranquilo.
O funeral em Messkirch reatou os laços com a tradição religiosa de seu berço, num gesto interpretado como respeito histórico pela busca do divino.
A conclusão do relato evita um fechamento categórico, optando pela citação da sentença de Heidegger sobre a morte de Max
Scheler.
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A frase Outra vez um caminho da filosofia recai na obscuridade aplica-se reflexivamente a Heidegger, sublinhando que seu desaparecimento representa o apagar de uma luz singular no firmamento do pensamento, cuja travessia retorna à escuridão do mistério.