Ocorrência de um debate público em 1965 entre Arnold Adorno e Arnold Gehlen, assumindo papéis alegóricos opostos.
Gehlen posiciona-se como o “grande inquisidor”, enquanto Adorno assume o papel de “amigo dos homens”, configurando um embate sobre a condição humana moderna.
Posição de Gehlen: A Crítica à Universalização da Emancipação
Interrogação sobre a pertinência de impor a todos os homens o peso da reflexão filosófica e da autodeterminação.
Argumento central de que a exigência de emancipação total desconsidera os erros existenciais e a tendência humana ao formalismo.
Conclusão pragmática de que tal exigência pertence a uma “antropologia utópica”, impraticável na realidade social concreta.
Posição de Adorno: A Defesa da Reflexão como Condição de Felicidade Objetiva
Resposta afirmativa à necessidade universal de reflexão e autodeterminação.
Tese de que o bem-estar sem responsabilidade é uma mera aparência, destinada a um colapso catastrófico.
Diagnóstico da exoneração como reação a gravames sociais historicamente constituídos, não como constante antropológica natural.
Denúncia do mecanismo de “identificação com o agressor”, onde os homens buscam refúgio no poder que os oprime.
Conclusão do Debate e Visões da Catástrofe
Réplica final de Gehlen, alertando para o perigo de criar insatisfação com os resquícios de ordem existentes.
Base comum não declarada: ambos os filósofos compartilham a premissa de que “o todo é o falso” e a situação global é catastrófica.
Diferença radical nas prescrições: Gehlen defende a proteção contra a reflexão para preservar a vida prática; Adorno defende o estímulo à reflexão como caminho para a liberação.
A Catástrofe como Pano de Fundo: Coexistência da Crítica e do Conformismo
A Catástrofe como Condição Estável e Invisível
Paradoxo de uma catástrofe fundamental que não é alarmante e com a qual se pode viver bem.
Diagnóstico convergente de Adorno, Gehlen e Heidegger sobre a natureza catastrófica da totalidade social moderna.
Explicações Diferenciais para a Invisibilidade da Catástrofe
Adorno: A alienação é dupla; os homens estão alienados e perderam a consciência de sua alienação.
Gehlen: A civilização é precisamente a catástrofe em um estado no qual ela se tornou habitável.
Heidegger: O “engrenagem” técnico é um “destino” incontrolável, cujos problemas fundamentais não podem ser resolvidos pela técnica.
O Discurso da Catástrofe nos Anos 50 e 60
Coexistência pacífica entre o discurso catastrofista da crítica cultural e o otimismo prático da reconstrução e do bem-estar na República Federal.
A crítica atua como um acompanhamento em “modo menor” para a atividade alegre da sociedade de prosperidade.
Participação Paradoxal no Sistema Crítico
As Aporias da Própria Posição Crítica
Gehlen utiliza meios intelectuais para proteger a sociedade dos intelectuais e da reflexão crítica.
Adorno, ao pintar o horror da alienação capitalista, realiza pesquisas empíricas sobre clima empresarial para o estabelecimento.
Heidegger recusa o discurso edificante sobre a técnica, mas o faz através de uma linguagem que ela mesma é edificante.
Recepção Estetizante da Crítica Fundamental
Crítica que recusa a politização direta e a religião é inevitavelmente recebida sob um prisma estético.
Exemplo: A proposta de ingresso de Heidegger na Academia de Belas Artes de Berlim, justificado por sua obra como “grande poesia”.
Consequência: O pensamento é aproximado do poetizar, afastando-se das lutas temporais concretas.
A Influência de Heidegger e o "Jargão da Autenticidade"
Ampliação da Influência para Além da Universidade
A influência de Heidegger se estende a “colegiados de irmãos leigos”, círculos de devotos leigos em toda a Alemanha.
Uso de sua terminologia proporciona uma linguagem de comoção com reputação acadêmica, servindo como sucedâneo espiritual.
Análise de Adorno do “Jargão da Autenticidade”
Diagnóstico do jargão como linguagem estandardizada dos “eleitos socializados”, que vai da filosofia à economia.
Mecanismo do jargão: Palavras como “encargo”, “chamada”, “encontro” soam como se dissessem algo mais elevado que seu significado imediato.
Função ideológica: Eleva a eficácia nos negócios à dignidade de um círculo eleito, criando um “superhomem suave”.
Contexto Histórico e Declínio do Jargão
O jargão prosperou na era patriarcal de Adenauer, mas seu tempo havia passado quando o livro de Adorno foi publicado.
Ascensão de uma nova objetividade, desmascaramento e crítica direta na esfera pública e intelectual.
A Crítica de Adorno a Heidegger: Fascismo e Proximidade Filosófica
A Suspeita de Continuidade Fascista
Tese central de Adorno: A sobrevivência do nazismo dentro da democracia é mais perigosa que o fascismo aberto.
O anticomunismo do pós-guerra permitiu a reabilitação de elites nazistas e manteve impulsos autoritários.
Experiência pessoal de Adorno com antissemitismo e difamação no ambiente acadêmico de Frankfurt.
Ameaça da Proximidade Filosófica e o Ressentimento
Além da crítica política, há uma ameaçadora proximidade filosófica entre Adorno e Heidegger.
Ressentimento de Adorno frente à ignorância de Heidegger pela sociologia e psicanálise, vendo-a como “provincianismo”.
Inveja implícita pela falta de vergonha de Heidegger em expressar intenções metafísicas diretamente.
Estratégia de Adorno: A Dança Filosófica do Véu
Adorno torna-se mestre da mediação indireta, criticando a “imediatez” em colegas como Marcuse.
Sua metafísica só se expressa sob proteção de reflexões intrincadas e através do arte.
Proximidades Filosóficas no Diagnóstico da Modernidade
Diagnósticos Convergentes da Doença Moderna
Heidegger: A “rebelião do sujeito” transforma o mundo em objeto de manipulação, reificando o próprio sujeito.
Adorno e Horkheimer: A violência sobre a natureza exterior retorna como coação sobre a natureza interior do homem.
Conceito comum: O princípio de poder e dominação conduz à alienação e à catástrofe.
Auschwitz como Ponto de Convergência Implícita
Para Adorno, o extermínio é a “integração absoluta” do princípio identificador levado ao extremo.
Para Heidegger, a fabricação industrial de cadáveres nas câmaras de gás é da mesma essência que a agricultura motorizada.
Ambos veem Auschwitz como um crime típico da modernidade técnica e da vontade de poder.
Estratégias Diferentes de Superação
Heidegger: Um “pensamento que abre” para deixar o ser se mostrar, superando a vontade de poder.
Adorno: O “pensamento da não-identidade” que respeita a singularidade sem violá-la pela identificação.
Crítica de Adorno a Heidegger: Acusa-o de cair no irracionalismo ao buscar superar imediatamente a separação sujeito-objeto.
Lugares da Experiência Metafísica: Amorbach versus Senda do Campo
A Busca por Lugares de Experiência Metafísica
Para Adorno, a experiência metafísica já não está na totalidade ou na história, mas em micro-experiências e lembranças.
Exemplo: A felicidade prometida por nomes de lugares como Otterbach, evocada na memória proustiana.
Amorbach como Lugar da Metafísica Adorniana
A pequena cidade de infância torna-se protótipo de uma beleza fundamental e lugar de preparação para o choque da modernidade.
Funciona como um lugar real-imaginário análogo aos “caminhos do campo” de Heidegger.
A Senda do Campo como Lugar da Metafísica Heideggeriana
Heidegger evoca a vereda campestre como lugar onde o mundo se outorga e Deus se torna Deus no “não falado” da linguagem.
Polêmica de Adorno contra a Senda Heideggeriana
Adorno desqualifica a evocação de Heidegger como “arte patriótica” barata e ideologia de “sangue e solo”.
A implicação nazista de Heidegger serve a Adorno para estabelecer uma distância filosófica através da denúncia política.
Ascensão e Transformação do Jargão Dialético
O Jargão da Dialética como Sucessora
Após a polêmica contra Heidegger, ascende ao “jargão da dialética”, que se afirma como linguagem de alta pretensão.
Surge da tentativa de superar discursivamente a complexidade da realidade e encontrar o “totalmente outro”.
Características da Dialética Adorniana e sua Vulgarização
Em Adorno, a dialética negativa é um prodígio de sutileza, fiel à metafísica através da negação da negação.
Vulgarização: A dialética torna-se uma “falta de claridade que se apresenta como superclaridade”, um gesto arrogante e sermonário.
Mudança de Paradigma e o Fim do Instituto
Nos anos 1968, a dialética torna-se positiva e orientada para a práxis, o sujeito revolucionário e a emancipação.
Este paradigma “operante” entra em colisão com a postura de Adorno, culminando na ocupação do Instituto e na intervenção policial.
O episódio marca o fim de uma época e contribui para a morte de Adorno.
O Heidegger Tardio: Defesa, Silêncio e Encontro com Celan
A Entrevista do “Der Spiegel” em 1966
Condição de Heidegger: a publicação só após sua morte.
Estratégia defensiva: minimiza seu papel revolucionário nacional-socialista, apresentando-o como tentativa de renovação e prevenção de males piores.
Recusa do papel de “democrata purificado” e ceticismo sobre a democracia como sistema adequado à época técnica.
Frase emblemática: “Só um Deus pode ainda salvar-nos”.
O Problema do Silêncio de Heidegger
Recusa em fazer uma confissão pública de arrependimento, vista como ato oportunista e indigno.
Seu silêncio filosófico não é sobre Auschwitz (abordado implicitamente em sua crítica à modernidade), mas sobre a autossedução do filósofo pelo poder.
Falta de reflexão sobre “quem” é o pensador quando pensa, sobre sua contingência e possibilidade de erro.
O Encontro com Paul Celan
Atração mútua e relação tensa entre o poeta sobrevivente do Holocausto e o filósofo.
Encontro em Todtnauberg (1967): esperança de Celan por uma “palavra por vir”, que pode ser tanto uma palavra filosófica quanto uma palavra de esclarecimento pessoal.
Ambiguidade da relação: atração filosófica e repulsa política, gestos de aproximação e de rejeição.
O poema “Todtnauberg” captura essa ambivalência entre esperança e deferimento.
Julgamento final de Heidegger sobre Celan: vê-o como “doente, incuravelmente doente”, reconhecendo a profunda crise do poeta.