Nas Contribuições, Heidegger não apenas filosofa
a partir do evento do pensamento, mas também filosofa
sobre si mesmo como um fato da história do ser, imaginando-se como “buscador, conservador e guardião” e tecendo fantasias sobre como seu pensamento, através de uma aliança iniciática, poderia penetrar silenciosamente no corpo social.
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Ele se descreve como parte de um círculo íntimo de “poucos indivíduos” que fundam as novas paragens, seguidos por “confederados” e por “muitos referidos”, numa “história própria” oculta, distante do ruído das revoluções da “história universal”.
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Contudo, essa visão carece de concretude política, derivando para metáforas de grandiosidade: as grandes filosofias são como “montanhas elevadas” que orientam o povo na planície, e a própria filosofia de Heidegger aspira a ser uma dessas montanhas no “país do ser”.
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Enquanto se projeta nesse cenário grandioso da história do ser, Heidegger permanece cego para o exame de sua própria vida factual e de suas ações durante os anos do regime nazista, prática filosófica do
conhece-te a ti mesmo que ele ignora.
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Os “espinhos” de que falara a
Jaspers (a perda da fé de origem e o fracasso do reitorado) são sublimadas nas Contribuições como destino da época e derrota gloriosa, numa “abstração por essencialização” (Habermas) que separa a esfera pessoal e moral da grandiosa coisa do pensamento.
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Esta falta de reflexão moral não é apenas um traço de caráter (notado por Jaspers e
Arendt como “impureza” ou “falta de caráter”), mas um problema filosófico: implica a renúncia a uma prudência que leve a sério a finitude, incluindo a possibilidade da culpa contingente, e abandona o ideal da transparência do ser-aí para consigo mesmo.
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O poder do pensamento heideggeriano subjuga o próprio pensante, que se experimenta como um médium através do qual “isso me faz pensar em mim”, numa existência medial marcada pela “consciência de ter sido atingido… com a tarefa do pensamento” (Picht) e pela sensação de ser possuído por uma verdade estranha e única.
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Esse estado gera um vaivém entre a solidão extática e a sensação de malfeita ou indiferença perante a grandeza da tradição filosófica, como expresso em cartas a Blochmann e Jaspers, onde oscila entre a euforia do “grande logro” e o sentimento de que seu trabalho é “totalmente indiferente e desleixado”.
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Apesar do tormento, há também júbilo (Freude) nesse processo: o júbilo, junto com a angústia e o tédio, forma uma “trindade sagrada” de afecções fundamentais nas Contribuições, sendo no júbilo que o ser-aí se torna o céu onde o mundo e as coisas aparecem no admirável “fato de que são”.