O acesso a esse poder transformador da poesia (e, por analogia, da política revolucionária ou do pensamento) exige uma decisão de se expor ao seu “turbilhão”, abandonando as “táticas de distância de segurança” que a interpretam como mera expressão de vivências, superestrutura ideológica ou função biológica necessária.
A crítica à atitude “liberal” conecta-se diretamente com o diagnóstico hölderliniano da “noite dos deuses”: os “atuais” são muito especialistas no conhecimento científico, mas perderam a capacidade de perceber a plenitude e a vitalidade das coisas, da natureza e das relações humanas.
Heidegger traduz esse “divino” como a “relação com o ser” (Seyn), usando a forma arcaica *Seyn* para denotar a relação explícita e “própria” que diviniza o ser-aí, abrindo-o para o abismo e o prodígio do mundo.
-
Essa abertura tem agora uma dimensão histórica e coletiva mais acentuada: há épocas de “escurecimento do mundo” que dificultam tal relação, e Hölderlin é grande por existir justamente em um momento de ruptura, entre deuses que se foram e deuses que ainda não chegaram.
-
O poeta, como aquele que é “atingido pelo raio de Apolo” e se expõe às “tempestades de Deus”, sofre em solidão, antecipando para o povo um “ser” (Seyn) que este ainda não pode acolher, pois se aferra à “indigência da falta de necessidades”.
Nesta figura do poeta precursor e incompreendido, Heidegger projeta claramente um autorretrato: também ele se abriu para as “tempestades” do ser, também foi “atingido”, também lida com a surdez do povo, também “fundou” uma obra ainda não bem recebida.
-
A citação de Hölderlin — “Mas eles não podem necessitar de mim” — é usada por Heidegger em duplo sentido, aplicando-a tanto ao poeta quanto a si mesmo em relação à revolução nacional-socialista, que deveria ser o “grande giro” que tornaria os alemães clarividentes para escutar tais fundadores.
No entanto, após o fracasso do reitorado, Heidegger reconhece que a ação política imediata (“organizar e administrar”) não é seu assunto; sua tarefa é servir à reabilitação “através de outra metafísica”, ou seja, através de uma nova experiência fundamental do ser (Seyn).
-
Nas lições de “Introdução à Metafísica” (1935), ele diagnostica as forças que ameaçam essa reabilitação: a redução do espírito à “inteligência” instrumental a serviço de ideologias, seja o marxismo, a obsessão técnica ou o racismo popular, todos conduzindo a um “escurecimento do mundo”.
-
A mobilização total, econômica, técnica e racial, ameaça extinguir os melhores impulsos da revolução, entregando-a ao “frenesi desesperante da técnica desencadeada e da organização sem fundo do homem normal”, perigo que vem tanto de fora (América e Rússia) quanto de dentro (pelo racismo).
Diante desse panorama, a filosofia assume uma tarefa intempestiva e solitária: conservar e defender a verdade originária da reabilitação revolucionária, preparando silenciosamente o “manifestar-se do ser” (Seyn) que, para irradiar na sociedade, exigirá um “longo tempo” de indigência.
-
Heidegger começa, assim, a desvincular sua fantasia filosófica do envolvimento concreto com o nacional-socialismo realmente existente, que se torna para ele cada vez mais um sistema da “revolução traída”.
-
O autêntico nacional-socialista, na visão de Heidegger, transforma-se então em um “pensador em tempo de indigência”, um arauto que chegou cedo demais e, como Hölderlin, corre o risco de ser triturado e rejeitado por sua época, inscrevendo-se assim em uma história do ser como precursor solitário.