(RR1999)
FILOSOFIA COMO CIÊNCIA, COMO METÁFORA E COMO POLÍTICA
PARA ALÉM DA FILOSOFIA CIENTÍFICA
1. A relação com a tradição filosófica ocidental recebe três respostas fundamentais, associadas a diferentes finalidades do filosofar: a científica, compartilhada por Husserl e pelos positivistas, a poética, vinculada a Heidegger, e a política, própria do pragmatismo.
2. Enquanto Heidegger aproxima a filosofia da poesia e compreende a tradição como uma sequência de criações de grandes pensadores, o pragmatismo aproxima o filósofo de engenheiros e assistentes sociais, tratando os conceitos herdados como ferramentas cuja conservação, renovação ou substituição depende de sua utilidade.
3. Husserl interpreta o abandono do ideal de um conhecimento filosófico universal e fundador como consequência desastrosa da predominância das ciências positivas, cuja prosperidade teria afastado a humanidade das questões decisivas para sua existência.
4. Husserl procura superar o racionalismo e o empirismo pela fenomenologia transcendental, enquanto Heidegger inclui essa tentativa e o pragmatismo na tradição objetivista, exigindo que a crítica dos preconceitos alcance também a própria ideia herdada de filosofia.
5. Heidegger considera insuficientemente radicais tanto a fundamentação pragmatista da cultura nas necessidades humanas quanto sua fundamentação husserliana na subjetividade transcendental, pois ambas preservam pressupostos tradicionais que deveriam ser questionados.
6. Embora compartilhe com Husserl a preocupação com a crise europeia, Heidegger aproxima-se de Dewey ao rejeitar a busca de fundamentos e compreender o conhecimento científico como modalidade derivada do ser-no-mundo, apoiada no uso de instrumentos e na primazia das práticas sociais.
7. Heidegger e os pragmatistas rejeitam as metáforas visuais que sustentam a esperança de alcançar uma perspectiva divina sobre todas as coisas, identificando na procura de esquemas formais e a-históricos uma tentativa de antecipar integralmente o domínio do possível.
8. A rejeição comum do fundacionalismo e do ideal contemplativo não elimina as diferenças entre Heidegger e Dewey, que se manifestam sobretudo na compreensão da metáfora e na relação da filosofia com a política.
A METÁFORA COMO O PONTO DE PARTIDA DA LINGUAGEM
1. A percepção, a inferência e a metáfora constituem três maneiras de transformar nossas redes de crenças e desejos, sendo que a percepção acrescenta informações e a inferência explicita compromissos que exigem revisar crenças anteriores ou aceitar novas consequências.
2. A percepção e a inferência modificam os valores de verdade das frases sem alterar o repertório linguístico, de modo que considerá-las as únicas fontes legítimas de mudança equivale a pressupor um espaço lógico definitivo que a filosofia apenas precisaria esclarecer.
3. Reconhecer a metáfora como fonte de transformação das crenças implica admitir a abertura indefinida da linguagem e do possível, compreendendo-a como um chamado para modificar a vida e o vocabulário, em vez de acomodar novas informações em estruturas previamente estabelecidas.
4. A concepção transformadora da metáfora exige rejeitar a existência de significados metafóricos previamente disponíveis e distinguir, com Davidson, os significados estabelecidos pelas relações inferenciais habituais dos usos inovadores que ainda não possuem esse estatuto.
5. As metáforas frequentemente surgem como frases aparentemente falsas e tornam-se posteriormente verdades literais, mediante uma transformação das crenças inseparável da mudança dos significados das palavras empregadas.
6. A compreensão dos significados como padrões habituais de uso torna a mudança linguística inseparável da mudança das crenças e enfraquece os projetos filosóficos que pretendem descobrir uma matriz a-histórica de possibilidades subjacente à cultura e à investigação.
7. A crítica de Davidson ao dualismo entre esquema e conteúdo aproxima-se da crítica heideggeriana à matematização do mundo ao reconhecer nas metáforas precursoras de novos usos linguísticos uma fonte de transformação comparável à percepção e à inferência.
8. O progresso intelectual depende também de causas mentais que não funcionam como razões reconhecidas pelo indivíduo, pois crenças e desejos exteriores ao seu esquema consciente podem favorecer a autocrítica e o aperfeiçoamento.
9. As revoluções conceituais são desencadeadas por sugestões inicialmente incompatíveis com as crenças vigentes, posteriormente convertidas em evidências que a tradição tende a apresentar como manifestações de uma racionalidade sempre existente.
10. Heidegger rejeita a existência de um objeto filosófico a-histórico, como a razão humana ou a natureza da linguagem, e compreende a construção filosófica como inseparável da destruição histórica dos conceitos herdados.
11. O reconhecimento posterior dos limites historicistas de Ser e tempo conduz Heidegger a distinguir a filosofia do emprego irrefletido da linguagem herdada, atribuindo ao pensamento essencial uma intempestividade que impede sua assimilação imediata pelo presente.
12. A metáfora inicialmente incompreensível pode ser aproximada da palavra heideggeriana do ser, cuja força a filosofia deve preservar contra o nivelamento produzido pelo senso comum e os pseudoproblemas que dele resultam.
13. A função autêntica da filosofia consiste em desafiar o ser-aí histórico (Dasein) e, em última instância, o próprio ser (Sein).
14. A resposta poética de Heidegger procura libertar o presente de sua linguagem sedimentada pela recuperação da força das palavras dos pensadores anteriores, tornando perceptível sua contingência histórica e preparando uma possível renovação sem prometer imediatamente um novo vocabulário.
POESIA E POLÍTICA
1. O pragmatismo aproxima-se de Carnap e Heidegger ao considerar pseudoproblemas aquelas questões cuja resolução não produz diferenças relevantes em nossas crenças, como certas formulações tradicionais sobre outras mentes e o mundo exterior.
2. Enquanto Carnap e os pragmatistas veem na filosofia tradicional uma pseudociência, Heidegger a critica como poesia banalizada, rejeitando a transformação do pensamento em uma atividade cooperativa e rotineira de análise ou descrição.
3. O pragmatismo reconhece a originalidade dos grandes pensadores, mas considera que sua realização se completa quando suas metáforas são assimiladas pela comunidade e convertidas em instrumentos comuns capazes de facilitar a vida e promover transformações sociais.
4. A renovação das crenças coletivas não exige um programa sistemático fundado numa matriz definitiva, mas intervenções orientadas por necessidades concretas, nas quais a grandeza de poetas e pensadores se justifica por sua contribuição à liberdade social.
5. A diferença entre Heidegger e o pragmatismo decorre fundamentalmente de suas atitudes diante da história política moderna, pois o pragmatismo prolonga a esperança de construir uma sociedade aberta ao desenvolvimento das potencialidades humanas e à transformação contínua de seus vocabulários.
6. Uma democracia liberal pode prescindir de fundamentos filosóficos definitivos se seus cidadãos aceitarem ouvir novas metáforas, revisar convicções e reconhecer que seus projetos sociais e suas linguagens permanecem experimentais e sujeitos à obsolescência.
7. A apropriação pragmatista das ideias heideggerianas de abertura e historicidade exige preservar a importância fundamental da diferença entre democracia e totalitarismo, recusando sua dissolução numa interpretação filosófica geral da modernidade tecnológica.
8. O compromisso social-democrata é constitutivo do pensamento de Dewey, cujo pragmatismo procura ampliar a felicidade pela transformação de instituições e linguagens, enquanto Heidegger considera esgotadas essas esperanças juntamente com os demais ideais da tradição metafísica.
9. O pragmatismo distingue os ideais ainda fecundos de progresso, felicidade e civilização das antigas garantias metafísicas, assumindo sua posição dentro da comunidade democrática sem pretender justificá-la por argumentos provenientes de uma perspectiva filosoficamente neutra.
10. A escuta dos pensadores pode orientar a compreensão do presente para uma ampliação da liberdade humana, pois a racionalidade técnica tanto pode eliminar a abertura democrática quanto ser subordinada às necessidades e decisões da comunidade.
A SITUAÇÃO ATUAL
1. As principais divisões metafilosóficas separam o cientificismo de Husserl e dos positivistas das respostas anticientificistas de Heidegger e Dewey, cuja divergência fundamental reside na rejeição ou aceitação do projeto democrático de ampliar a felicidade humana.
2. A situação institucional da filosofia pode ser examinada internamente, pelas relações entre escolas rivais, ou externamente, por suas relações com as demais esferas da cultura.
3. A filosofia analítica preserva pressupostos cientificistas sobre estruturas formais a-históricas e mantém relativo isolamento diante da filosofia não analítica, distinguindo-se desta também pelo menor interesse em refletir historicamente sobre sua própria atividade.
4. As diferenças entre os cânones filosóficos favorecem orientações distintas, pois a centralidade de Berkeley, Hume, Mill e Frege tende a reduzir o interesse metafilosófico, enquanto Hegel, Nietzsche e Heidegger estimulam narrativas que situam a filosofia no desenvolvimento histórico da cultura.
5. A tradição analítica geralmente pressupõe a permanência de problemas fundamentais, e mesmo representantes mais atentos à história, como Nagel, defendem a busca de uma verdade eterna apesar da impossibilidade reconhecida de alcançá-la.
6. A tradição não analítica considera a impossibilidade de obter verdades eternas uma razão para abandonar antigas ambições e rejeita a ideia de que os problemas filosóficos tenham uma origem pré-verbal ou pré-cultural.
7. A compreensão a-histórica da filosofia pode ser vista como uma manifestação de imaturidade intelectual e uma versão do Mito do Dado, contra a qual se torna necessário historicizar os cânones e os problemas filosóficos.
8. A distância entre os pressupostos das duas tradições dificulta o debate e consolida instituições relativamente isoladas, cujos integrantes tendem a interpretar a orientação rival como idealismo estetizado ou realismo dogmático.
9. A divergência decisiva entre as tradições reside na existência ou inexistência de uma realidade filosófica pré-linguística e a-histórica, diante da qual a metáfora aparece como distração ou como recurso para desfazer essa própria ilusão.
10. A concepção quase científica da filosofia permite aos filósofos analíticos concentrar-se na resolução de problemas especializados sem atribuir grande importância à influência de sua atividade sobre outras disciplinas ou sobre a cultura em geral.
11. A filosofia não analítica procura prolongar-se na literatura ou na política e, quando se aproxima da primeira, torna pouco relevantes as fronteiras institucionais entre os diferentes gêneros de escrita e as classificações profissionais de seus autores.
12. A aproximação da filosofia não analítica com a política é dificultada pela predominância de uma visão pessimista da modernidade e pela exigência de crítica radical, que frequentemente substituem o reformismo democrático por reelaborações teóricas sem relação concebível com a prática.
13. A contribuição política dos filósofos pode consistir em intervenções concretas a favor de reformas social-democratas, auxiliando a revelar sofrimentos e opressões mediante recursos compartilhados com a literatura e as ciências sociais, sem exigir uma crítica dos fundamentos da sociedade.
14. A exigência de crítica radical conserva um resíduo cientificista ao pressupor uma realidade escondida sob as aparências e fundamentos teóricos para a política, ideias incompatíveis com a compreensão histórica e contingente da linguagem compartilhada por Heidegger e Dewey.
15. A rejeição consequente do cientificismo exige discutir diretamente os problemas das sociedades democráticas e as alternativas políticas efetivas, em vez de apresentar divergências políticas como questões metodológicas ou metafísicas.
16. A reflexão teórica não elimina o caráter básico da luta entre os detentores do poder e aqueles que sofrem sua ausência, nem as principais correntes filosóficas do século XX forneceram instrumentos políticos superiores aos disponíveis para Dewey e Weber.
17. O vocabulário social-democrata permanece capaz de descrever a opressão e os grandes horrores contemporâneos, cuja persistência decorre da resistência das situações históricas à transformação, sem exigir necessariamente recursos filosóficos mais radicais.
18. Embora o agravamento das condições históricas enfraqueça a confiança de Dewey num futuro livre de mitos religiosos e cientificistas, o abandono da filosofia como autoridade salvadora permite recorrer à criatividade de poetas e engenheiros para ampliar a felicidade humana.