RORTY, Richard. Philosophy and the Mirror of Nature. Princeton: Princeton University Press, 1979.
Introdução
1. A filosofia concebe-se tradicionalmente como disciplina voltada a problemas perenes sobre a mente e os fundamentos do conhecimento e, entendendo conhecer como representar com precisão o que está fora da mente, pretende ser uma teoria geral da representação capaz de julgar as pretensões de conhecimento da ciência, da moral, da arte e da religião.
2. A teoria do conhecimento baseada em processos mentais remonta a Locke, a mente como entidade separada a Descartes e a filosofia como tribunal da razão pura a Kant, concepção consolidada pelos neokantianos no século XIX, quando a filosofia se tornou para os intelectuais um substituto da religião e o lugar onde se tocava o fundo último das convicções.
3. No início do século XX, a reafirmação de uma filosofia rigorosa e científica por Russell e Husserl soava desesperada, pois a secularização estava praticamente consumada e poetas e romancistas haviam substituído pregadores e filósofos como mestres morais, de modo que quanto mais científica se tornava a filosofia, mais distante e absurda parecia em relação ao resto da cultura.
4. Wittgenstein, Heidegger e Dewey, os três filósofos mais importantes do século, tentaram de início refundar a filosofia como disciplina fundacional, mas depois reconheceram esse esforço como autoengano e romperam com a concepção kantiana, produzindo uma obra madura terapêutica, edificante e não sistemática.
5. Os três concordam em abandonar a noção de conhecimento como representação precisa, os fundamentos do conhecimento e a mente como objeto especial de estudo, pondo de lado epistemologia e metafísica não por refutação, mas vislumbrando, como os modernos diante da escolástica, uma cultura pós-kantiana na qual o vocabulário herdado do século XVII pareça ocioso, inaugurando assim uma filosofia revolucionária no sentido de Kuhn.
6. Desenvolvimentos recentes da filosofia analítica, vistos à luz dessa revolução anticartesiana e antikantiana, servem para minar a confiança na mente como objeto de uma visão filosófica, no conhecimento como algo com fundamentos e na filosofia pós-kantiana, num empreendimento terapêutico e não construtivo que, no entanto, se alimenta das críticas de filósofos sistemáticos como Sellars, Quine, Davidson, Ryle, Malcolm, Kuhn e Putnam.
7. Os meios vêm desses filósofos analíticos e os fins de Wittgenstein, Heidegger e Dewey, cabendo levar alguns passos adiante a dialética interna da filosofia analítica na filosofia da mente, da linguagem, da epistemologia e da ciência, até o ponto de criticar a própria noção de filosofia analítica e de filosofia tal como entendida desde Kant.
8. A diferença entre filosofia analítica e outras filosofias é questão de estilo e tradição, não de método, e a filosofia oriunda de Russell e Frege, como a fenomenologia husserliana, é apenas mais uma variante kantiana que troca a representação mental pela linguística sem alterar a problemática cartesiano-kantiana, permanecendo comprometida com um quadro neutro e permanente para toda a investigação e toda a cultura.
9. O que liga a filosofia contemporânea à tradição de Descartes, Locke e Kant é a ideia de um quadro de pressupostos discernível a priori e imposto pela natureza do sujeito cognoscente, ideia que se dissolve com a concepção deweyana de justificação como fenômeno social, a wittgensteiniana da linguagem como ferramenta e não espelho e a heideggeriana da filosofia como abertura ao estranho.
10. A filosofia tradicional é uma tentativa de escapar da história buscando condições não históricas de todo desenvolvimento possível, e contra ela converge a mensagem historicista de Wittgenstein, Dewey e Heidegger, que denuncia como apologética a eternização de jogos de linguagem e práticas contemporâneas, perspectiva que orienta a historicização das noções de mente, conhecimento e filosofia, começando pela origem histórica das intuições que sustentam o dualismo cartesiano.
11. A epistemologia nasce no século XVII de uma confusão entre justificação e explicação causal, e os ataques de Sellars ao dado e de Quine à necessidade, com seu holismo e pragmatismo, minam a possibilidade de uma teoria do conhecimento, revelando a representação precisa como elogio vazio às crenças bem-sucedidas e mostrando que psicologia ou filosofia da linguagem não podem suceder à epistemologia, já que a concepção de conhecimento como representação é opcional e substituível por uma concepção pragmatista que elimina a oposição grega entre contemplação e ação.
12. A distinção tradicional entre conhecimento objetivo e atividades menos privilegiadas reduz-se à distinção entre discurso normal, dotado de critérios consensuais de acordo, e discurso anormal, carente deles, e a tentativa de explicar racionalidade e objetividade por condições de representação precisa é um esforço autoenganoso de eternizar o discurso normal do momento, ao qual se contrapõe uma filosofia edificante que ajuda a romper com vocabulários e atitudes desgastados.
13. São imagens e metáforas, não proposições, que determinam as convicções filosóficas, e a imagem da mente como grande espelho sustenta a noção de conhecimento como representação precisa e a estratégia de polir o espelho, imagem desmontada por Wittgenstein, historicizada por Heidegger e combatida por Dewey a partir da visão de uma sociedade orientada pelo enriquecimento estético, diante da qual as acusações de relativismo e irracionalismo não passam de reflexos defensivos da tradição.