ROMANO, Claude. L’événement et le monde. Paris: PUF, 1998
O evento acima de tudo: Nietzsche tentou tornar possível essa abordagem denunciando a “gramática metafísica” que rege as proposições ontológicas nas quais o evento aparece imediatamente subordinado ao ser, retraído e reduzido a uma propriedade deste. O que caracteriza, afirma Nietzsche, um evento como “o relâmpago brilha”, traduzido aqui por um verbo, o verbo “brilhar”, é que ele questiona radicalmente as distinções ontológicas que afetam o ser em sua existência: “Quando digo: ‘o relâmpago brilha’, coloquei o brilhar uma vez como atividade e uma segunda vez como sujeito: supus, portanto, sob o evento (Geschehen) um ser (Sein) que não se confunde com o evento, mas, muito mais, permanece, é, e não “se torna”. — Colocar o evento como ação: e a ação como ser: tal é o duplo erro, ou interpretação, do qual nos tornamos culpados. Assim, por exemplo, “o relâmpago brilha” —: (9) “brilhar” é um estado que nos afeta, mas não o apreendemos como ação sobre nós, e dizemos: “algo brilhante”, como um “Em-si”, e procuramos um autor para ele, o “relâmpago”.
Neste fragmento, Nietzsche ataca o que ele chama de “crença fundamental”, “essa crença de que existem sujeitos”. De fato, assim que interpretamos qualquer manifestação relacionando-a a um sujeito, por exemplo, qualquer “ação” relacionando-a a um agente, qualquer “efeito” relacionando-o a uma “causa”, também postulamos implicitamente que “tudo o que acontece se comporta predicativamente em relação a algum sujeito”. A atribuição do evento a um substrato óntico é acompanhada por uma redução do evento a um puro e simples “predicado”, que se diz, consequentemente, de um “sujeito”. No exemplo citado por Nietzsche: “o relâmpago brilha”, o brilho não é pensado aqui em seu sentido puramente verbal como um evento que se mostra como tal e se manifesta a partir de si mesmo, mas como um “predicado”, uma “propriedade” que manifesta outra coisa, a saber, seu substrato óntico, designado aqui pelo sujeito lógico da proposição: o relâmpago. Ora, é precisamente nessa transformação do evento em predicado que residem, segundo Nietzsche, o “erro” profundo e a “mitologia” veiculados pela linguagem; aos eventos como “modificações de nós mesmos”, “sobrepusemos uma entidade à qual eles estão ligados, ou seja, colocamos a ação como agente, o agente como sendo”. O que chamamos de “relâmpago” não é um “ser” que possuiria um certo modo de ser, pois não é de forma alguma um ser, mas “é” precisamente nada mais do que o próprio brilho: é o “acontecimento” do evento que dá origem à “coisa”, e não o contrário; é da verbalidade do verbo que deriva o sujeito, em vez de o verbo ser concebido aqui como aquilo que expressa a “ação” de um agente.