(ROMANO, Claude. L’événement et le monde. Paris: PUF, 1999, §10)
A hermenêutica evental e sua delimitação em relação à psicologia ou à antropologia
1. A interpretação da aventura humana à luz do evento é denominada hermenêutica evental (herméneutique événementiale), termo cunhado para evitar confusão com a concepção da aventura humana como sucessão de “eventos” mundanos, distinguindo-se o evental (événemential), que remete ao evento em sentido próprio, do eventual (événementiel), relativo ao fato intramundano, colocando-se a questão de saber se tal hermenêutica não seria mera réplica de análises pertencentes à psicologia ou à antropologia filosófica, e onde residiria exatamente o limite de princípio entre seus modos de acesso ao adveniente (l'advenant).
2. A diferença fenomenológica essencial entre causa e origem é estabelecida a partir da afirmação kantiana, nos Prolegômenos, segundo a qual todo evento cuja ocorrência a experiência ensina deve ter uma causa, validade universal que vale para todo evento exceto para o evento em seu sentido evental, o qual não flutua sem causa mas cujas causas não atingem seu teor fenomenológico de sentido.
3. A diferença de princípio entre disciplinas como a psicologia ou a antropologia e a hermenêutica evental corresponde à distinção entre ciências intramundanas, que se movem no nível dos fatos e de suas causas, e uma disciplina voltada a esclarecer o evento como origem, sendo esta origem não princípio nem causa primeira, subtraída a toda arqueologia explicativa, não brotando senão de si mesma e escapando ao regime de causas e efeitos que rege o encadeamento dos fatos no mundo.
4. O evento constitui esse sentido irredutível que surge na aventura humana como sua própria origem, podendo ser compreendido em seu teor evental próprio mas não explicado, distinção entre compreender e explicar que não deve ser confundida com a distinção homônima de Dilthey entre ciências da natureza, regidas pela causalidade estrita, e ciências do espírito, que recorrem aos conceitos de motivos e móveis para compreender o sentido de uma ação histórica, sendo o motivo, ao contrário da causa, sempre relativo a um fim.
5. A definição sartriana em O Ser e o Nada articula a conexão intrínseca entre motivo e fim, ao passo que os móveis, distintos dos motivos, pertencem à parcela de irracionalidade e contingência das ações humanas, ligada não à vontade e à escolha consciente mas à afetividade, prevalecendo a compreensão pelos motivos, tida por racional, sobre a compreensão pelos móveis.
6. A pertinência fenomenológica da distinção entre motivos e móveis não impede reconhecer que a compreensão diltheyana equivale, com matizes, ao que aqui se chamou explicação, pois visa a explicar — não em termos de causas, mas de motivos e móveis, analogon das causas naturais no mundo do espírito — o porquê dos atos humanos, de modo que essa compreensão explicativa permanece inteiramente no interior do mundo, com seus encadeamentos causais e suas finalidades articuladas em contexto significativo, deixando escapar a dimensão do evento como origem do mundo, cujo sentido reside precisamente em seu surgimento sem porquê, instaurador de mundo.
7. A psicologia, a antropologia, a sociologia e a etnologia, como ciências intramundanas dos fatos e de suas causas — analisadas ou não em termos de motivos e móveis —, situam-se em plano inteiramente distinto da análise evental, pois enquanto as primeiras se desenrolam sob o horizonte do mundo, onde compreender ainda significa explicar, a segunda interroga a própria origem do mundo tal como este surge a partir do evento e com ele, voltando-se a compreensão para os núcleos de sentido formados pelos eventos, não para investigar suas causas ou motivos, mas para determinar em que medida eles fazem história para mim, nunca mais sendo o mesmo mundo antes e depois de sua ocorrência, nós da aventura e crises desta em que o adveniente se expõe ao risco de uma transformação ao perigo de si, sob pena de sucumbir ao anonimato traduzido pelas experiências do desespero, do pavor ou do trauma.
8. O evento de uma decisão fundamental, que compromete o indivíduo por inteiro, evidencia claramente a diferença entre a abordagem psicológica ou antropológica, causal-explicativa, e a abordagem evental, integralmente compreensiva.
9. Buscar as causas, os motivos, os móveis de uma decisão é desde logo perder-lhe o sentido, pois ela é sua própria origem, cabendo à diferença radical, de princípio e insuperável, entre uma analítica evental e toda antropologia, psicologia e mesmo psicanálise, à diferença fundamental entre a explicação pelas causas e a compreensão do sentido, diferença esta que deve agora ser posta em evidência por si mesma.