Eventalidade

(ROMANO, Claude. L’événement et le monde. Paris: PUF, 1999:32)

1. A relação entre Evento e possível permanece indeterminada enquanto não se esclarece o sentido do verbo reconfigurar e o modo como o Evento se articula com a noção de possibilidade do Adveniente.

2. O fato intramundano mantém com o possível uma relação de efetuação (Vollzug), na qual a possibilidade equivale à propensão a se realizar, de modo que a realidade do possível cresce proporcionalmente à sua efetuabilidade.

3. Essa definição de possibilidade como efetuabilidade não se aplica sem mais à aventura humana, diante da qual se opõem duas teses sobre a origem dos possíveis do Adveniente.

4. As duas teses apresentadas revelam-se, a um exame mais atento, equivalentes entre si, e insuficientes para dar conta do possível tal como se oferece ao Adveniente.

5. Uma terceira via faz do possível algo possibilizado não por possíveis já dados nem por possíveis vazios, mas pelo projeto (Entwurf) que os torna seus, ainda que tal possibilização pelo projeto permaneça inscrita no horizonte do mundo já articulado, revelando-se por isso menos originária que a possibilização operada pelo próprio Evento, o único capaz de abrir um mundo ao reconfigurar seus possíveis.

6. O Evento, ao sobrevir na própria aventura, ilumina sob nova luz os mesmos possíveis que antes articulavam o mundo do sujeito, como o atesta a passagem de L'Éducation sentimentale, de Flaubert, relativa ao retorno de Frédéric após o encontro com Madame Arnoux.

7. Não há possível para o Adveniente sem projeto, nem projeto sem possível — paradoxo que remete à tese heideggeriana da co-originariedade entre possíveis e projeto, ambos enraizados no ser como existir (Dasein, ek-sistieren), embora tal solução suprima o retardo irredutível que estrutura todo projeto como resposta diferida ao excesso do Evento.

8. A Eventalidade é mais originária que a possibilidade configurada pelo projeto, pois lhe confere seu sentido e sua carga de porvir, vindo de um porvir absoluto sem relação com o presente, de modo que só o projeto capaz de se deixar transformar pelo improjetável merece o nome de projeto verdadeiro.

9. A Eventalidade não provém do sujeito, mas lhe sobrevém e o submerge; contra o dito segundo o qual ao impossível ninguém está obrigado, só ao impossível se está verdadeiramente obrigado.

10. O sentido mais alto do possível é rigorosamente o impossível, não havendo previamente uma totalidade de projetos pelos quais o Adveniente se abriria o possível e, num segundo momento, possibilidades factícias oriundas dos eventos, nem tampouco um poder-ser (Seinkönnen) formal antecipável pelo antecipar da morte, uma vez que todo possível já se destina ao sujeito como previamente aberto e determinado pelo Evento e pela configuração de mundo que este faz surgir.

11. A Eventalidade do possível não se opõe à sua efetividade, mas lhe é indissociável, pois o próprio Evento também se produz como fato, sendo somente nessa medida capaz de introduzir na aventura humana o excedente de possibilidades que o torna irredutível à sua efetuação intramundana.

12. No Evento da decisão, à medida que se realizam as possibilidades antes indeterminadas do Adveniente, abre-se, para além da decisão efetuada, a Eventalidade de um possível excedente que o próprio sujeito é para si mesmo, irredutível a todo projeto e constituindo, face aos possíveis já realizados ou projetados, uma im-possibilidade.

13. A decisão, ao deter o possível fatício resultante de uma deliberação inscrita em motivos e móveis prévios, libera por isso mesmo a Eventalidade de um possível outro, indecidível e inantecipável, que confere à decisão sua seriedade e a transforma em Evento.

14. À medida que o possível que o sujeito é ele mesmo se realiza e ganha determinação, cresce correlativamente em possibilidade o possível excedente e eventual, inacessível a toda realização e a todo projeto; o sujeito é chamado a mais do que pode e descobre, a cada instante, poder mais do que acreditava poder, sendo todo projeto, como o livro para o escritor ou o quadro para o pintor, votado a esse inacessível que só se atinge deixando-se por ele atingir.

15. O possível eventual só se dá como o avesso da própria impossibilidade do Adveniente, possibilidade e impossibilidade constituindo o avesso e o direito de um mesmo fenômeno ao qual toda aventura está irremediavelmente ligada, de modo que é o im-possível que designa, em primeiro lugar, na relação com o Adveniente, o nome mais próprio da possibilidade.