Verdade

(RIVERA, Jorge Eduardo. Heidegger y Zubiri. Santiago de Chile: Ed. Universitaria, 2001:28-30)

1. Coloca-se a questão do sentido dessa verdade profunda do Dasein de que se vem falando até aqui, indagando-se que verdade é essa que se enraíza no mais fundo da existência humana, ficando claro desde logo que não se trata de uma verdade no sentido tradicional da adequação do intelecto com as coisas, adequação essa que exige que o intelecto se enfrente com as coisas, tendo-as diante de si como objetos, o que só é possível na cognitio in actu signato, no conhecimento temático e explícito de qualquer realidade.

2. A verdade originária não é uma verdade temática, sendo prévia a toda tematização, a toda diferenciação entre os atos e o objeto a que apontam intencionalmente, constituindo antes uma espécie de compenetração da existência por ela mesma, algo como uma presença de si a si mesmo.

3. Poder-se-ia pensar tratar-se dessa outra verdade que Heidegger descreve no parágrafo 44 de Ser e tempo e que chama a mais originária, partindo, para esclarecê-la, de um tipo prévio de verdade, intermediário entre a verdade de adequação e a verdade mais originária, chamado a verdade dos entes.

4. Ser-verdadeiro, enquanto ser-descobridor, é uma forma de ser do Dasein, devendo aquilo que torna possível esse próprio descobrir ser chamado verdadeiro num sentido mais originário, concluindo-se que os fundamentos ontológico-existenciais do próprio descobrir põem pela primeira vez à vista o fenômeno mais originário da verdade.

5. Esse fenômeno mais originário da verdade é, frente ao estar ao descoberto dos próprios entes, o ser-descobridor do próprio Dasein, alcançando-se somente com a aberturidade (Erschlossenheit) do Dasein o fenômeno mais originário da verdade, sendo o Dasein, enquanto é essencialmente sua aberturidade, seu Aí, e por estar aberto abre e descobre os entes, também essencialmente verdadeiro, o que se resume na fórmula de que o Dasein é na verdade.

6. Encontram-se assim três estratos da verdade: a verdade como adequação, a verdade como estar ao descoberto dos entes, fundamento daquela, e a verdade como aberturidade do próprio Dasein, que funda, por sua vez, a verdade dos entes, chegando-se com essa última verdade ao fundo definitivo de toda verdade, sendo verdade, em última instância, aberturidade do Dasein, como momento constitutivo de seu ser.

7. Recupera-se agora aquela nota do Hüttenexemplar antes deixada sem exame, posta ao texto do parágrafo 7 onde se dizia que o que a fenomenologia tem, primariamente, de fazer ver é aquilo que de modo imediato e regular precisamente não se mostra, mas que ao mesmo tempo pertence essencialmente ao que imediata e regularmente se mostra, a ponto de constituir seu sentido e fundamento, nota à qual se acrescenta a breve e lacônica frase verdade do ser (Wahrheit des Seins).

8. Essa nota é obviamente posterior à época de Ser e tempo, entendendo-se haver aqui uma espécie de autocrítica: aquilo último em que se funda a verdade do ente não é, em definitivo, a aberturidade do Dasein, sem negá-la, mas algo ainda mais radical, algo em que a própria aberturidade do Dasein se funda, sendo isso a verdade do ser.

9. O ser oculta-se para que possam aparecer ao descoberto os entes, e se estes aparecem ao descoberto é porque o próprio ser os faz aparecer, o que equivale a dizer que, ao mesmo tempo em que se oculta, o ser se manifesta de forma inadvertida, manifesta-se ocultamente, para dizê-lo com um paradoxo.

10. Essa verdade do ser que torna possível o aparecer ao descoberto dos entes é a verdade mais originária, não sendo o mais originário a verdade do Dasein, mas a verdade do ser mesmo, sendo o que no fundo do Dasein está manifesto como o mais radical desse mesmo Dasein a verdade do ser.