(RIVERA, Jorge Eduardo. Heidegger y Zubiri. Santiago de Chile: Ed. Universitaria, 2001:34-36)
1. O segundo momento essencial do Dasein é expresso na afirmação de que o ser que está em questão para esse ente em seu ser é cada vez o meu, não podendo o Dasein ser concebido ontologicamente como caso e exemplar de um gênero do ente que está-aí, não lhe sendo esse seu ser indiferente, ou mais exatamente, sendo ele de tal maneira que seu ser não pode ser-lhe nem indiferente nem não-indiferente, devendo a referência ao Dasein, em conformidade com o caráter de ser-cada-vez-meu, conotar sempre o pronome pessoal: eu sou, tu és.
2. Já apareceu a palavra que dá título a este trabalho, a Jemeinigkeit, isto é, o ser-cada-vez-meu, significando esse ser cada vez meu, em primeiro lugar, que o Dasein jamais é um caso singular de um gênero, isto é, de um universal perfeitamente definido em si mesmo, mas que o Dasein é sempre único: o meu, o teu, sendo o Dasein essencialmente individual.
3. Poder-se-ia objetar que o Dasein é cada vez o de cada qual, mas que todos eles são Dasein, isto é, algo universal, não se vendo a diferença com os demais entes, com os entes que estão-aí dentro do mundo, podendo dizer-se ainda mais, pois as coisas reais são sempre individuais ou singulares, não havendo realidades universais, não se vendo assim em que sentido o ser sempre cada vez este e não outro ente singular constitui uma peculiaridade do Dasein, já que também um gato é cada vez este ou aquele gato.
4. Ao formular essa objeção, cai-se, sem se dar conta, numa maneira de entender o Dasein que é precisamente aquela que se quer descartar aqui: pensa-se o Dasein como algo que está-aí no mundo, e isso, justamente, é o que o Dasein jamais é, não sendo a individualidade do Dasein a de um ente individual de tal ou qual espécie, isto é, de algo que se põe diante de nós como tendo tais ou quais caracteres gerais, e que, além disso, é tudo isso em singular.
5. Cabe perguntar de onde se extrai a certeza com que se afirma que a realidade tem de ser individual, e por que teria de sê-lo, não se sabendo se é possível dar uma razão a priori disso, ao menos não partindo da concepção tradicional do ser como algo que se desdobra aí diante de nós, sendo indubitável que as coisas reais são singulares, mas mais difícil provar que tenham de sê-lo.
6. A única demonstração possível de que o real tem de ser singular deve partir de que o real é o que está-aí diante de nós, o que nos sai ao encontro dentro do mundo em que vivemos e se nos apresenta como sendo ele na abertura que se abre por meio de nosso próprio ser, implicando o fato de que o real tem de se nos pôr diante que se nos dá dentro do âmbito de singularidade constituído a partir de nossa própria singularidade, sendo o real singular porque o Dasein é essencialmente singular.
7. O Dasein é singular de outra maneira, não por estar diante, pois o Dasein não está diante de nós, mas o somos nós mesmos, significando isso que o Dasein tem uma singularidade muito particular, uma singularidade que se poderia chamar executiva, sendo o modo de ser individual do Dasein o de executar os atos da própria existência, isto é, sendo ativamente seu próprio ser.
8. Ao falar-se do Dasein em geral, como é o caso de tudo o que aqui se vem dizendo, não se fala de um gênero, de um eidos universal que reunisse singulares que estariam-aí diante, mas de algo que por sua própria índole jamais pode ser universal nesse sentido, sendo o Dasein universal apenas no sentido de uma estrutura formal, que cada vez se realiza de uma maneira própria e diferente, que tem de ser cada vez de uma determinada maneira, formando parte essencial dessa estrutura formal o ser de uma determinada maneira.