Existir

(RIVERA, Jorge Eduardo. Heidegger y Zubiri. 1. ed ed. Santiago de Chile: Ed. Universitaria, 2001:33-34)

1. No parágrafo 9 de Ser e tempo, que constitui, na realidade, o começo dessa obra após oito parágrafos introdutórios, expõe-se o tema da analítica do Dasein, sendo Dasein o termo empregado para falar do ser humano, termo que por ora se poderia traduzir pela palavra existir, concebendo-se o ser humano como um existir.

2. Existir não significa aqui o simples fato de ter existência, isto é, de ser uma coisa a mais entre as muitas coisas que há no mundo, ou mesmo a mais importante delas, empregando-se o termo apenas para falar do ser humano, nunca para referir-se à existência das coisas, para as quais se usa a palavra Vorhandensein ou Vorhandenheit, traduzida por ser ante os olhos ou, preferivelmente, por estar-aí-diante ou simplesmente estar-aí, termo técnico para o que a tradição filosófica chamou existentia, atribuída a tudo o que existe na realidade.

3. Existir, como termo próprio e exclusivo para designar o ser humano, deve ser entendido como ex-sistir, isto é, como ser estando fora de si mesmo, significando existir estar fora daquilo que se é, estando o ser humano fora daquilo que ele é na medida em que, sendo, se comporta em relação a algo que é mais do que ele mesmo, sendo esse mais o ser enquanto tal.

4. O ser humano é um ente determinado: é isto, e não outra coisa; é ser humano e não árvore, nem puro animal, nem anjo, nem Deus, sendo algo perfeitamente delimitado e, por conseguinte, perfeitamente determinado e, em definitivo, limitado, recortando aquilo que o ser humano é, sua essência, se se quiser, de todos os demais entes, separando-o de tudo o que não é ser humano.

5. Esse ente determinado é também um ente particularíssimo, distinguindo-se o ser humano de todos os demais entes porque seu ser consiste em haver-se com os demais entes e consigo mesmo enquanto aqueles e ele mesmo são, o que significa que o existir humano é o que é na medida em que se abre ao ser.

6. Por isso, precisamente, o termo empregado para falar do ser humano é o termo Dasein, tendo Gaos traduzido Dasein por ser aí, o que constitui, a meu juízo, um grave erro, pois o Dasein não é que seja aí, mas consiste em ser o Aí do ser, isto é, a abertura ao ser.