§1

JRCST1

§ 1 Necessidade de uma repetição explícita da pergunta pelo ser

1. Fazem-se algumas observações acerca deste título: a necessidade da pergunta vem esclarecida no título como necessidade de uma repetição explícita dessa pergunta, tratando-se de voltar a fazer a pergunta pelo ser, isto é, de retomar a pergunta dos gregos, mas desta vez num novo nível, mais originário, devendo essa repetição ser explícita, plenamente refletida, tendo presente tudo o que ela implica.

2. No título da Introdução falava-se da pergunta pelo sentido do ser, ao passo que no título do parágrafo 1, assim como no título do capítulo 1, fala-se apenas da pergunta pelo ser, correspondendo no texto alemão o título do capítulo 1 a die Seinsfrage e o título do parágrafo 1 a Frage nach dem Sein, podendo-se em espanhol dizer, em ambos os casos, a pergunta pelo ser.

3. Esclarece-se de uma vez por todas que, quando Heidegger diz Frage nach dem Sinn von Sein, não se traduz, como alguém poderia crer necessário, pergunta pelo sentido de ser, mas pergunta pelo sentido do ser, empregando Heidegger 52 vezes em Ser e tempo a expressão Sinn von Sein e nunca Sinn vom Sein, sendo a única exceção aparente o título da Introdução, que em algumas edições anteriores aparecia como Exposition der Frage nach dem Sinn vom Sein, mas que a partir da décima primeira edição foi corrigido pelo próprio Heidegger para Sinn von Sein.

4. Heidegger usa também outra expressão que substitui muitas vezes a expressão Sinn von Sein, a saber, Sinn des Seins, usada 18 vezes, onde obviamente se quer dizer sentido do ser, falando por exemplo da Frage nach dem Sinn des Seins, sem dúvida equivalente à Frage nach dem Sinn von Sein, usando também as expressões Seinsfrage, pergunta pelo ser ou questão do ser, e Frage nach dem Sein, que só se pode traduzir por pergunta pelo ser.

5. Sem dúvida, Heidegger não pretende contrapor uma presumida pergunta pelo sentido de ser a uma pergunta pelo sentido do ser, estando em todos os casos falando da pergunta pelo sentido do ser ou da pergunta pelo ser.

6. Passa-se agora ao desenvolvimento do parágrafo 1, cuja estrutura é bem clara: os três primeiros parágrafos são introdutórios, os parágrafos 4 a 7 desenvolvem os preconceitos que tornariam desnecessário perguntar pelo sentido do ser, sendo o último parágrafo, o oitavo, um passo em direção ao tema do parágrafo 2.

Parágrafos introdutórios

7. Esses três parágrafos poderiam intitular-se situação, pois falam da situação em que nos encontramos, uma situação de esquecimento.

8. Hoje essa pergunta caiu no esquecimento, ao contrário de outrora, quando ela inquietava os pensadores da Hélade, sendo hoje uma pergunta morta, que já não se faz, situação filosófica dos anos vinte em que Heidegger escreve Ser e tempo, expressando a palavra alemã Vergessenheit um estado, algo como um estar submerso no esquecimento.

9. Não há apenas um esquecimento, isto é, um mero não colocar-se da pergunta pelo sentido do ser, não havendo apenas uma preterição dela, mas estando essa preterição respaldada por razões que a avalizam, tendo-se constituído, com base nos começos gregos da interpretação do ser, um dogma que não só declara supérflua a pergunta pelo sentido do ser, como também ratifica e legitima sua omissão, sendo isso o que Heidegger chamará os preconceitos, dos quais nomeia três.

10. O parágrafo 3 precisa os limites que, nesta Introdução, há de ter a discussão dos preconceitos a ser levada a cabo nos parágrafos seguintes, preconceitos que afundam suas raízes na própria ontologia antiga, podendo-se pensar então ser necessário dirigir-se a essa ontologia antiga.

11. O parágrafo 4 desenvolve a crítica ao primeiro preconceito, apoiado numa descoberta de Aristóteles, a saber, a descoberta da máxima universalidade do ser, universalidade superior à do gênero, graças à qual o ser seria de tal maneira compreensível em si mesmo que não necessitaria de nenhum esclarecimento maior, nem seria capaz dele, conclusão a que Aristóteles não chega, mas que a tradição posterior acreditou dever deduzir.

12. O parágrafo cinco aborda o segundo preconceito que impede retomar a pergunta pelo ser, partindo de algo verdadeiro, a indefinibilidade do ser, baseada em que toda definição é uma delimitação e o ser não tem limites, concluindo porém o preconceito, a partir disso que é verdadeiro, que, se o ser não é definível, tampouco é esclarecível.

13. O parágrafo 6 aborda o terceiro preconceito, apoiado, como os demais, em algo indiscutível, a saber, que em todo conhecimento, em todo enunciado, em todo comportamento a respeito de um ente, em todo comportar-se a respeito de si mesmo, faz-se uso do ser, resultando essa expressão compreensível sem mais, compreendendo qualquer um frases como o céu é azul, sou feliz, e outras semelhantes.

14. O parágrafo 7 prolonga a reflexão do parágrafo anterior e a comenta com uma citação de Kant, tomada das Reflexionen zur Anthropologie, sendo ideia recorrente que o apelo ao óbvio no âmbito dos conceitos filosóficos fundamentais, e sobretudo no que respeita ao conceito de ser, é um procedimento duvidoso, se é verdade que o óbvio, e só o óbvio, os secretos juízos da razão comum, segundo Kant, deve ser e continuar sendo o tema expresso da analítica, o ofício dos filósofos.

Passo ao tema do § 2 (parágrafo 8)

15. O último parágrafo introduz no tema do parágrafo 2, começando por resumir o resultado da discussão dos preconceitos ocorrida nos parágrafos 4 a 7, importando notar o modo como isso se expressa: não só falta a resposta à pergunta pelo ser, como a própria pergunta é obscura e carece de direção.