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A primeira “aplicação” da hermenêutica centrada no texto ocorre no uso das categorias estruturais da exegese bíblica, desenvolvendo, contudo, traços que já anunciam a inversão do rapport entre as duas hermenêuticas quando se passa das estruturas do texto ao mundo do texto.
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A confissão de fé expressa nos documentos bíblicos é inseparável das formas de discurso — a estrutura narrativa do Pentateuco e dos Evangelhos, a estrutura oracular das profecias, a parábola, o hino —, sendo teologicamente significativa a tensão entre essas formas, como a oposição entre narração e profecia, e podendo mesmo a clausura do cânon ser considerada um ato estrutural fundamental que delimita o espaço de jogo das formas de discurso.
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Três problemas se colocam sob o título das formas do discurso bíblico: a afinidade entre uma forma de discurso e uma modalidade de confissão de fé, a relação entre um par de estruturas e a tensão correspondente na mensagem teológica, e a relação entre a configuração de conjunto do corpus literário e o espaço de interpretação por ela aberto, dívida reconhecida sobretudo a Gerhard von Rad e confirmada nos trabalhos de A. N. Wilder e W. A. Beardslee sobre o Novo Testamento.
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O exemplo da narração é o mais marcante: algo específico é dito sobre Javé e suas relações com Israel precisamente porque é dito sob a forma de um relato dos eventos de libertação do passado, como exprime o conceito de teologia das tradições de von Rad, que organiza o grande relato a partir do Credo primitivo de Deuteronômio 26, ligando indissoluvelmente a dimensão narrativa e a dimensão querigmática, e distinguindo radicalmente o Deus de Israel, ligado ao drama histórico, do Deus da filosofia grega.
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A tensão entre narração e profecia é exemplar: a oposição entre a crônica e o oráculo se prolonga na percepção do tempo e no sentido do divino, de modo que, com a profecia, o Deus do Êxodo deve tornar-se o Deus do Exílio para permanecer o Deus do futuro e não apenas o Deus da memória, sendo possível supor que todas as formas de discurso bíblico constituam um sistema circular cujo conteúdo teológico recebe sentido da constelação total das formas, sem que se possa interpretar as significações sem o longo desvio de uma explicação estrutural das formas.
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A coisa do texto, ou o mundo do texto, é a categoria central tanto da hermenêutica filosófica quanto da bíblica, sobre a qual se articulam todas as demais — objetivação pela estrutura, distanciação pela escrita, compreensão de si —, sendo esse mundo aquele que o texto desdobra diante de si, tomando distância em relação à realidade cotidiana.
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Aplicar essas considerações à exegese bíblica, tratando a Bíblia como uma categoria de textos entre outras, é justamente o que possibilita a inversão que faz da hermenêutica geral o organon da hermenêutica bíblica, livrando-a da tentação de introduzir prematuramente categorias existenciais de compreensão, pois a etapa necessária entre a explicação estrutural e a compreensão de si é o desdobramento do mundo do texto, e não a decisão do leitor.
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Colocar acima de tudo a coisa do texto significa deixar de tratar a inspiração das Escrituras em termos psicologizantes de insuflação de sentido a um autor, devendo antes ser dita da coisa que a Bíblia diz — o ser novo que ela desdobra —, sendo a revelação um traço do mundo bíblico e não uma comunicação psicológica direta.
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O mundo bíblico não é portado imediatamente por intenções psicológicas, mas mediatamente pelas estruturas da obra, como mostram as relações já estabelecidas entre a forma narrativa e a significação de Javé como grande atuante da gesta, ou entre a forma da profecia e a significação do Senhor como ameaça e promessa.
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Por se tratar de um mundo, no sentido de um horizonte global, não há privilégio de princípio para uma instrução dirigida à pessoa individual nem para os aspectos personalistas da relação Eu-Tu com Deus, pois o mundo bíblico tem aspectos cósmicos, comunitários, histórico-culturais e pessoais.
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Assim como o mundo do texto literário é um mundo projetado que se distancia poeticamente da realidade cotidiana, o ser novo proposto pela Bíblia abre, na realidade quotidiana, a realidade do possível, retomando a observação de Heidegger sobre o Verstehen como decifração de nossos possíveis mais próprios a partir de uma situação em que já estamos lançados, o que em linguagem teológica significa que o reino de Deus vem e apela aos nossos possíveis mais próprios a partir de um sentido que não vem de nós.
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Essa via da aplicação de uma categoria hermenêutica geral à hermenêutica bíblica, tratada como hermenêutica regional, é a única capaz de reconhecer ao mesmo tempo a especificidade da coisa bíblica — como sustenta Ebeling —, sem recorrer a um conceito psicológico de inspiração, mas dirigindo-se à qualidade do ser novo tal como ele mesmo se anuncia.
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A centralidade do referente “Deus” no discurso bíblico decorre da concorrência e convergência dos discursos parciais da narração, da profecia, do hino e da sabedoria — o God-Talk, segundo a expressão de McQuarrie —, sendo o nome “Deus” ao mesmo tempo coordenador desses discursos e índice de sua incompletude, não funcionando como conceito filosófico mas remetendo ao contexto total do espaço de gravitação dos relatos, das profecias, das legislações e dos hinos; o nome “Cristo” acrescenta a essa dupla função o poder de encarnar todas as significações religiosas no símbolo de um amor sacrificial mais forte que a morte.
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A hermenêutica bíblica é, assim, ao mesmo tempo um caso particular da hermenêutica geral, pois o ser novo de que fala a Bíblia só é buscado no mundo desse texto entre outros, e um caso único, pois todos os discursos parciais remetem a um Nome que é ponto de intersecção e índice de incompletude, tornado solidário do evento-sentido pregado como Ressurreição.
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Interrogam-se as implicações teológicas da quarta categoria da hermenêutica centrada no texto, a categoria existencial por excelência da apropriação, da qual decorrem três consequências para a hermenêutica bíblica.
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A primeira consequência é que aquilo que a linguagem teológica chama fé é constituído pelo ser novo que é a coisa do texto, resistindo a toda redução psicologizante da fé, ainda que esta permaneça, em seu caráter pré-linguístico, o limite de toda hermenêutica e a origem não hermenêutica de toda interpretação, chamada ora “cuidado último”, ora “sentimento de dependência absoluta”, ora “confiança incondicional”; mesmo assim, a fé bíblica não pode ser separada do movimento de interpretação que a eleva à linguagem, pois é a interpretação sempre renovada de eventos-signos como o Êxodo e a Ressurreição que constitui propriamente a fé.
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A segunda consequência resulta da distanciação que a reflexão hermenêutica revela no cerne da compreensão de si como “compreender-se diante do texto”, incluindo aí uma crítica das ilusões do sujeito que articula a crítica da religião à maneira de
Marx,
Nietzsche e
Freud com a autocompreensão da fé, crítica que, embora constituída fora da hermenêutica, pode se tornar instrumento de crítica interna própria ao trabalho de distanciação exigido por toda compreensão de si diante do texto, prosseguindo assim a “hermenêutica da suspeita” e a desconstrução dos preconceitos que impedem deixar-ser o mundo do texto.
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A terceira consequência diz respeito ao aspecto positivo da distanciação a si mesmo implicada por toda compreensão de si diante do texto, sendo a desconstrução das ilusões do sujeito apenas o aspecto negativo da imaginação: retomando a expressão husserliana de variações imaginativas sobre o ego e a analogia gadameriana do jogo, sustenta-se que é na imaginação, e não na vontade, que primeiro se forma em mim o ser novo, de modo que uma poética da existência responde à poética do discurso — conclusão que privilegia, contra a tendência da hermenêutica existencial de acentuar o momento de decisão diante do texto, o fato de que é antes à imaginação que o texto fala, propondo-lhe os figurativos de sua libertação.