-
Este capítulo alcança o objetivo que regeu toda a investigação, a refiguração efetiva do tempo, tornado tempo humano, pelo entrecruzamento da história e da ficção, sucedendo à etapa da heterogeneidade das respostas e à etapa do paralelismo entre representância histórica e transferência do mundo do texto ao mundo do leitor, um estágio marcado pela convergência e envolvimento mútuo dos dois procedimentos de refiguração.
-
Essa passagem foi preparada de longa data pela comensurabilidade que a fenomenologia assegurou entre os dois modos narrativos, ambos às voltas com as mesmas aporias, e pelo espaço comum criado pela teoria da leitura, já que também se é leitor de história tanto quanto de romance, sendo por isso na leitura que se situa o entrecruzamento.
-
Por entrecruzamento entende-se a estrutura pela qual história e ficção só concretizam sua intencionalidade respectiva tomando emprestada a intencionalidade da outra, concretização que corresponde ao fenômeno do “ver-como” que caracteriza a referência metafórica, marcando o triunfo da noção de figura sob a forma do se figurar que…
-
O lugar vazio do imaginário já se marca no caráter não observável do ter-sido, crescendo a parte do imaginário à medida que a aproximação se torna mais estreita, como mostra o exemplo do gnômon, comentado por J. T. Fraser: interpretar a sombra projetada supõe uma atividade de tradução e interpretação que já é, em germe, a leitura de signos própria de todo conector do tempo.
-
O calendário repousa igualmente numa síntese imaginária, já que datar um evento consiste em alocar um presente potencial, um “como se” presente ao modo husserliano, a um instante qualquer; a sucessão das gerações é, do mesmo modo, uma prótese da relembrança que estende por imaginação o movimento regressivo da memória; e o traço, enquanto efeito-signo, culmina esse caráter imaginário ao exigir que se figure o contexto de vida, o mundo hoje ausente ao redor da relíquia.
-
O papel mediador do imaginário se intensifica na passagem da reinscrição cósmica à passeidade do passado: em Collingwood, imaginação histórica e reefetuação se unem intimamente; na passagem do Mesmo ao Outro, é ainda por transferência imaginária e analógica que o Outro estranho se torna próximo, segundo o emparelhamento husserliano e a compreensão diltheyana; e é esse mesmo transfere analogizante que legitima o recurso à tropologia de Hayden White, dando sentido não positivista à fórmula rankeana wie es eigentlich gewesen.
-
A escrita da história toma emprestado da literatura não apenas ao nível da composição, mas também da função representativa da imaginação histórica: aprendemos a ver como trágico ou como cômico tal encadeamento de eventos, sendo essa apropriação de tipos de mise en intrigue literários o que confere a certas grandes obras historiográficas, mesmo ultrapassadas documentalmente, sua perenidade como literatura.
-
Esse efeito de ficção multiplica-se pelas estratégias retóricas do pacto de leitura, que leva o leitor a conceder ao historiador o direito exorbitante de conhecer as almas, produzindo o que se pode chamar de ilusão controlada — como na pintura da Revolução Francesa por Michelet, comparável a Guerra e Paz de Tolstói, mas em sentido inverso, indo da ficção rumo à história.
-
Uma derradeira modalidade de ficcionalização concerne aos eventos “epoch-making” que fundam a identidade narrativa de uma comunidade, envoltos em intensidade ética — comemoração ou execração —, sendo o tremendum horrendum, ilustrado por Auschwitz, aquele que mais exige o socorro da ficção: a individuação pelo horror, que isola tornando incomparável e unicamente único, permanece cega como puro sentimento sem a quase-intuitividade que só a ficção pode conferir, dando ao narrador horrorizado “olhos para ver e para chorar”, fundindo-se assim história e ficção em sua origem comum na epopeia, agora a serviço do inesquecível.
-
Levanta-se reciprocamente a hipótese de que o récit de ficção imita de certa forma o récit histórico: narrar qualquer coisa é narrá-la como se tivesse acontecido, sendo um primeiro indício desse “como se passado” de ordem estritamente gramatical — a entrada em récit marcada pelo tempo passado —, indício que Harald Weinrich contesta ao dissociar Tempus de Zeit, reduzindo os tempos do récit a simples sinais de uma atitude de distensão comunicativa.
-
Contra essa dissociação radical, propõe-se que os eventos narrados numa ficção são fatos passados para a voz narrativa, identificada ao autor implícito, de modo que entrar na leitura é incluir no pacto entre leitor e autor a crença de que os eventos relatados pertencem ao passado dessa voz — hipótese que torna a ficção quase histórica tanto quanto a história é quase fictícia, sendo esse rapport circular: é enquanto quase histórica que a ficção confere ao passado a vivacidade evocativa que faz de um grande livro de história uma obra-prima literária.
-
Uma segunda razão para reter o “como se passado” como essencial à ficção narrativa é a regra aristotélica de que a intrigue deve ser verossímil ou necessária, sendo persuasivo o possível justamente porque tem relação de verossimilhança com o ter-sido, como mostra a preferência trágica por nomes de homens realmente atestados, de modo que a verossimilitude simula um mergulho na lenda que liga a memória e a história às camadas arcaicas do reino dos predecessores — nota “passadista” que ressoa em toda reivindicação de verossimilhança, mesmo fora de qualquer relação de reflexo com o passado histórico real.
-
Essa afinidade profunda entre o verossímil da pura ficção e as potencialidades não efetuadas do passado histórico explica por que a liberdade da ficção em relação às restrições documentais da história não é a última palavra sobre sua liberdade: livre da coação exterior da prova documental, a ficção permanece interiormente ligada ao serviço do quase-passado, outro nome da coação do verossímil, de modo que a dura lei da criação, que é “render” da maneira mais perfeita a visão de mundo animando a voz narrativa, simula até a indistinção a própria dívida da história para com os homens de outrora, para com os mortos.
-
O entrecruzamento entre história e ficção na refiguração do tempo repousa, em última análise, nesse empenho recíproco — o momento quase histórico da ficção trocando de lugar com o momento quase fictício da história —, do qual procede o que se convencionou chamar tempo humano, no qual se conjugam a representância do passado pela história e as variações imaginativas da ficção, sobre o pano de fundo das aporias da fenomenologia do tempo, restando ainda examinar a que espécie de totalização esse tempo assim refigurado se presta.