-
Partir da linguagem, e não da questão aristotélica do tode ti, permite discernir como a linguagem designa o individual sem cair na alternativa entre o conceitual e o inefável, evitando também, com Pariente, reduzir a individualização à determinação do último discernível em favor de jalonar o próprio processo, que se detém em níveis variáveis conforme as línguas.
-
Os lógicos distinguem três operadores de individualização — descrições definidas, nomes próprios e indicadores (pronomes, demonstrativos, advérbios) —, sem que, neste estágio, o indivíduo humano goze de qualquer privilégio sobre o indivíduo qualquer.
-
As descrições definidas constituem uma classe a um único indivíduo por cruzamento de classes lógicas, implicando já uma alteridade mínima por exclusão de todos os outros, com finalidade de designação ostensiva e não de classificação.
-
Os nomes próprios lógicos designam de modo fixo e permanente a mesma coisa em suas múltiplas ocorrências, cumprindo, segundo a análise de Strawson, a função de identificação que se distingue da caracterização por predicados.
-
Os indicadores, categoria mais relevante para a investigação, têm função intermitente e designam cada vez coisas diferentes, sem privilégio inicial do eu e do tu, podendo a série completa ser reconstruída a partir do isto, segundo Russell, ou do eu, segundo outra fase do mesmo Russell, ou ainda do isto como ocorrência singular, segundo Pariente.
-
Neste primeiro estágio, o indivíduo humano não se distingue do indivíduo em geral, mas já se evidencia que a linguagem dispõe de procedimentos específicos de designação, irredutíveis entre si, para visar um único indivíduo.
-
Com a pragmática, na distinção de Morris entre sintaxe, semântica e pragmática, o eu e o tu passam ao primeiro plano, reagrupando-se os indicadores com os atos ilocutórios estudados por Austin, herdeiros da teoria dos performativos.
-
Todo enunciado constativo comporta também uma força ilocutória própria, expressa em prefixos implícitos como “eu declaro que”, nos quais o eu figura ainda captivo do prefixo, sem que sua reflexividade seja plenamente exercida.
-
Um primeiro paradoxo evidencia a ambiguidade do eu, ora shifter substituível por qualquer falante, ora ancorado a uma perspectiva única e insubstituível, segundo o termo de Granger, retomando a observação de Benveniste sobre o eu como termo vago apropriado por quem o usa.
-
Um segundo paradoxo reside na reversibilidade dos papéis de eu e tu na situação dialógica, distinta do primeiro paradoxo que opõe substituível e insubstituível.
-
A distinção peirceana entre tipo e ocorrência, complicada pela escrita, que desancora o eu do escritor tornando-o novamente vago até ser reancorado pela leitura, prepara a verdadeira aporia wittgensteiniana de que o sujeito falante é limite do mundo e não um de seus conteúdos, atópico, sem lugar assinalado.
-
Essa aporia só se resolve admitindo uma correlação entre o eu, situado fora do mundo de que fala, e um evento do próprio mundo, correlação que se manifesta na datação do tempo vivido pelo calendário e na localização do corpo próprio pela cartografia, cabendo ao nome próprio, inscrito no registro civil, fixar essa ancoragem do sujeito no mundo.
-
O limiar ético do si-mesmo se atinge observando que, se todo actante se relaciona com objetos-valores, avaliar-se a si mesmo é inseparável de toda avaliação, apoiando-se a preferência, segundo a análise aristotélica no livro III da Ética a Nicômaco, numa operação hierarquizante que Louis Dumont situa na base da função ideológica das comunidades.
-
A estima de si, correlata originariamente à estima de outrem, encontra-se atestada em linguagem por um ato ilocutório específico, a promessa, cujo próprio dizer constrói o fazer prometido e implica relação essencial a outrem, testemunha e destinatário do compromisso.
-
A promessa testemunha uma ipseidade forte, definida pela manutenção de si apesar das mudanças de coração e de intenção, ipseidade que tem sempre outrem por destinatário.
-
A obrigação de manter a promessa não deriva da própria promessa, mas pressupõe, segundo a noção rawlsiana de esquema de cooperação em Uma teoria da justiça, um meio societal ao qual se consente contribuir equitativamente, tornando a promessa uma realidade triangular entre o eu, o tu e o terceiro da equidade.
-
O individualismo como ideologia nasce da pretensão de engendrar a dimensão cosmopolita e o espaço público a partir apenas da ipseidade ética, sem a dimensão societal originária, cabendo à antropologia e à sociologia das ideologias prosseguir essa discussão.