RICHIR, Marc. Phénoménologie et institution symbolique. Grenoble: Jérome Millon, 1988
Com a presente obra, concebida e escrita durante o ano de 1985, na sequência e como continuação de Fenômeno, tempo e seres — razão do seu subtítulo —, conclui-se, à maneira de um ciclo, a aventura que havíamos iniciado, é verdade que às cegas, em nossas Pesquisas fenomenológicas. Enquanto descobríamos, em Fenômenos, tempo e seres, o campo infinito da eidética transcendental sem conceito, restava abrir, nesse campo, horizontes ou caminhos que não fossem totalmente impraticáveis, ou seja, que encontrassem seu ancoramento na concretude de nossa experiência. Ora, como sabemos, e como foi amplamente demonstrado desde o desenvolvimento das “ciências” humanas com as quais propomos aqui uma necessária confrontação, nossa experiência está irredutivelmente ancorada no campo da instituição simbólica. Restava, portanto, considerar as relações possíveis entre este último e o apeiron do campo fenomenológico — sua indeterminação de princípio — e refletir sobre ambos um no outro, no seio da distância que, de maneira não menos irredutível, os mantém separados.
Essa distância não é daquelas que se podem medir ou fixar, pois é, na verdade, aquela que dá vida ao sentido. Nada o preserva de seu colapso, cujo efeito duplo é uma verdadeira perda simbólica de sentido — uma das características essenciais de nossa época —, tanto em um Gestell simbólico, em uma “máquina” que é o sinal de todas as patologias simbólicas, tanto individuais quanto coletivas, quanto na figura de um caos fenomenológico como puro e simples caos de sentido. Não podemos nos manter nem no sofrimento do Gestell, que nos manipula cegamente e deixa nosso ser em sofrimento, nem na liberdade infinita, mas também indefinida, dos fenômenos, que seria para nós a de um sonho divino. Este livro é apenas uma tentativa, entre outras, reais ou possíveis, de elaborar o encontro fenomenológico do campo fenomenológico selvagem e do campo da instituição simbólica. Encontro em abismo, inspirado no momento kantiano do sublime, que se abre para abismos, os da Parte III, introduzindo, pela poesia e pelo sonho, à eidética transcendental sem conceito. Entra aqui em jogo uma matriz de interrogações que só mais tarde encontrou uma de suas possíveis expressões explícitas e que fornece a razão dos movimentos em ziguezague que nos levam do Gestell simbólico à liberdade fenomenológica, até o abismo aberto de seu encontro, que é ao mesmo tempo o da liberdade e o da prática esboçada da eidética transcendental sem conceitos — lugar de recruzamento para sempre enigmático da instituição simbólica em formação e da fenomenalização dos fenômenos, onde propomos repensar o grande enigma de nossa finitude e de nossa encarnação.
Este livro é, portanto, inconclusivo ou, em termos mais eruditos, aporético. Pois ele apenas abre caminho para problemas, mesmo que estes já sejam, de certa forma, respostas. Mas respostas, ousamos esperar, filosóficas, a uma interrogação metafísica fundamental comum a todos os homens e a todas as culturas, ou seja, respostas na forma de perguntas que pretendem, pelo menos, fazer sentido, orientar-nos quanto ao sentido da interrogação, e não nos congelar nela. Como se verá, um dos nossos fios condutores, aquele que é verdadeiramente metafísico no sentido mais amplo do termo, é que estamos excedidos, sempre e para sempre, pela prodigalidade fenomenológica da linguagem ou do ogos, dos seus ritmos de temporalização/espacialização. O fato é que ela pôde assumir, na tradição grega ou na tradição judaico-cristã, as duas figuras do ser ou de Deus (do Outro radicalmente Outro), e que essas duas figuras puderam até se entrelaçar em uma cumplicidade muito enigmática. O fato é, em todo caso, segundo nós, que esse excesso nos retorne sob a forma do instituinte simbólico, instituinte ontológico, como em Heidegger em Sein und Zeit, ou instituinte de outra ordem no judaísmo e no cristianismo. Como filósofos agnósticos que somos, permanecemos na indecidibilidade, julgando filosoficamente impossível decidir a questão de saber se a fenomenalidade do sentido é a do ser como ser, a do Outro enquanto Outro ou além dos dois, uma vez que em ambos se trata, sem dúvida, embora por pontos de entrada diferentes ou mesmo opostos, da mesma questão última, que pode ser revertida de um dos pontos para o outro, sem que possamos saber exatamente como. A questão permanece, em todo caso, em aberto, uma vez que, desde nossas Recherches até Phénomènes, tempo e seres, o fenômeno e a essência selvagem não são mais compreendidos como tipos de ajustes de si a si mesmo — tipos de tautologias, portanto necessariamente simbólicas —, mas como desníveis ou diferenças originais geradoras de temporalizações/espacializações que constituem a vida das instituições simbólicas — sua reativação nos mitos, os sonhos, a busca intelectual ou espiritual — ao mesmo tempo em que escapam deles de forma radicalmente A dificuldade, sem dúvida inédita, é que agora precisamos nos resolver a pensar fora do regime da identidade e da identificação — tarefa à qual já fomos iniciados por Platão em Parmênides e Kant na terceira Crítica.
Talvez, nessa perspectiva, nosso trabalho esteja mais em continuidade do que parece, mas a um nível de profundidade que nós mesmos ignoramos, com a riqueza inesgotável de nossa tradição ocidental. Cabe ao leitor julgar. Pois, nesse sentido, estamos aqui apenas, nas palavras de Antonin Artaud, “mostrando nosso espírito”, em vez de “propor uma obra”. É assim, pelo menos, que entendemos, por nossa parte, o risco da filosofia, que é um caminho singular do sentido, mostrado aos outros e a si mesmo, antes de se transformar em corpo doutrinário, exposto a dissecações escolásticas, aliás mais ou menos estimáveis. É sem dúvida hora de considerar que, desde o desenvolvimento sem precedentes históricos das ciências positivas, a filosofia está liberada das tarefas do conhecimento e pode, a partir de então, tender menos cegamente para o que deve constituir a consistência de seu lugar.