Como em toda teoria científica, o conhecimento objetivo do corpo físico só pôde se desdobrar evacuando a questão do que é um organismo vivo, um órgão vivo, uma célula viva.
-
A chamada explicação científica é geralmente apenas a intricação de regularidades objetivas observadas (mas incompreensíveis em si) com teorias cuja operatividade só funciona distribuindo seus elementos em sequências também incompreensíveis.
-
Estamos no caso de circularidade encontrado anteriormente a propósito do pensamento: só há problemas a resolver, e estes não devem ser transbordados pelo excesso infinito de uma questão.
-
É verdade que o conhecimento objetivo só se coloca problemas que pode resolver.
-
A elaboração deste conhecimento e a organização daquilo que nele não vai de si (as doenças, no caso do corpo físico) posicionam desde o início o problema a resolver nos termos de um sistema autônomo que reage constantemente a sinais endógenos e exógenos.
-
Mesmo o cérebro, nas neurociências e ciências “cognitivas”, é concebido como um sistema complexo interconectado.
-
Há uma ilusão perigosa em acreditar que trocas de sinais, por mais complexas, possam dar origem ao conhecimento (“cognição”) e, sobretudo, ao pensamento.
-
Neste caso, seríamos nosso corpo como dispositivo, e teríamos conhecimento e pensamento de maneira cega, mecânica, ao acaso do acaso nas trocas de sinais.
-
As próprias neurociências e ciências cognitivas não seriam possíveis, exceto numa caricatura dogmática.
-
Não haveria mais aquele excesso do viver encarnado sobre o corpo de que falávamos, nem a possibilidade do excesso da questão sobre o problema.
-
Pensar este excesso requer pensar o corpo “por dentro”.
-
A consideração do corpo físico e de seu conhecimento objetivo mostrou que sua exteriorização como sistema objetivo equivale a instituir o corpo como uma “totalidade” sem interior – ou com um “interior” que é apenas o interior empírico de um saco que se pode abrir cirurgicamente.
-
Este interior pode sempre ser convertido em exterior; é um falso interior.
-
Este corpo físico, não podemos ser, pela razão indicada, mas também não podemos tê-lo, a menos que suponhamos uma alma desencarnada que o habite como um piloto seu navio.
-
Este é o peso do dualismo de origem cartesiana (que separa a alma imaterial do corpo material) sobre a concepção da ciência objetiva.
-
Na medida em que este corpo é instituído como o único real do corpo, esta instituição é simbólica.
-
Tudo o que não entra nela é declarado insignificante, não pertinente.
-
Esta situação não pode senão gerar, nos seres humanos vivos e encarnados que somos, um profundo mal-estar.