5.4 Metafísica

POLT, Richard. Heidegger: an introduction. 2ed. Ithaca: Cornell University Press, 2025.

Introdução à Metafísica: A História da Restrição do Ser

1. Introdução à Metafísica (Einführung in die Metaphysik, 1935) é um dos cursos mais ricos e engenhosamente construídos de Heidegger, que, ao publicá-lo com algumas revisões em 1953, o recomendou no prefácio a uma nova edição de Ser e Tempo como elucidação da questão do ser.

2. Esse curso pode ser visto como continuação de “Que é metafísica?”, começando inclusive pela pergunta que encerrava o ensaio anterior: “Por que há simplesmente o ente e não antes o nada?”

3. Segundo Heidegger, o ser foi restringido por meio de quatro oposições, ilustradas conjuntamente num texto grego como a República de Platão (507b–511e), e o que se segue não é um resumo do curso, mas observações que oferecem uma orientação inicial às suas preocupações.

4. A primeira oposição é entre ser e devir, talvez a mais batida de todas, pela qual se associa o ser à permanência e o transitório parece menos real.

5. A segunda oposição é entre ser e aparência, pois distingue-se naturalmente entre o modo como as coisas são e o modo como parecem ser, distinção que tem alguma utilidade, já que as aparências podem sempre ser mal interpretadas.

6. A terceira oposição é entre ser e pensar, talvez a menos óbvia, mas a que Heidegger examina mais longamente, desenvolvendo o anúncio da “dissolução” da lógica em “Que é metafísica?”, pois essa oposição institui o pensar, no sentido de fazer asserções, como tribunal do ser.

7. A quarta oposição é entre ser e dever-ser, pois, como disse Hume, não se pode derivar um “deve” de um “é”, e o fato de a maioria das pessoas ser heterossexual não significa que a homossexualidade seja má, nem boa.

8. Essas oposições, segundo Heidegger, fazem literalmente toda a diferença do mundo, e em Introdução à Metafísica encontram-se algumas das formulações mais fortes de uma convicção que atravessa toda a sua obra tardia: a história humana é guiada pela história do ser (Seinsgeschichte).

9. Resta perguntar como o ser foi restringido desses modos e qual foi a experiência originária do ser que precedeu tais distinções.

10. Segundo Heidegger, os gregos experimentaram originariamente o ser como physis, palavra da qual deriva “física”, geralmente traduzida por “natureza” e proveniente de um verbo usualmente traduzido por “crescer”, mas que primordialmente significa, segundo ele, o surgir e o permanecer.

11. Essa é apenas uma das histórias que Heidegger conta, pois ele acabará concedendo que alétheia já significa correção desde Homero e revisa constante e obsessivamente sua “história do ser”, encontrando iluminação e obscuridade em quase todos os filósofos.

12. A exposição heideggeriana do suposto sentido primitivo de physis é tão poderosa e, em certos aspectos, tão coerente com suas afirmações em outras obras que muitos leitores a tomam por sua própria resposta à questão do sentido do ser, mas é mais seguro vê-la como tentativa de recuperar a experiência originária do ser como “presentar” que, a seu ver, fundou a história ocidental.

13. A leitura heideggeriana da história da filosofia é poderosa, mas frequentemente vista como arbitrária, cabendo perguntar se sua atração pelos pré-socráticos não se deve em parte ao fato de sobreviverem apenas em fragmentos cuja interpretação pode ser facilmente distorcida em direção heideggeriana, e nas mãos de alguns heideggerianos, e do próprio Heidegger em seus momentos menores, a “história do ser” torna-se um exercício formulaico de repetição de um mito usado depois para justificar um programa político.

14. Ao menos em seu período intermediário, Heidegger insiste em traduzir a linguagem fenomenológica em narrativa, não se contentando em examinar a experiência e concluir que o desvelamento é mais fundamental que a correção, mas construindo uma saga em que uma experiência grega originária de desvelamento degenerou num foco na correção, com consequências funestas para todos.

15. Introdução à Metafísica ilustra também a dependência de Heidegger de explicações idiossincráticas de palavras gregas importantes, embora o jovem Heidegger tivesse distinguido rigorosamente etimologia e filosofia, posição à qual muitos críticos desejariam que ele tivesse permanecido fiel.