O mundo como o autêntico próprio para o qual o pensamento de Heidegger é liberado
O pensamento heideggeriano, ao tentar penetrar naquilo que é, libera-se para o mundo como aquilo que é autenticamente próprio
Este mundo não é uma totalidade de objetos, mas a estrutura originária dentro da qual o desvelamento do ser ocorre
A definição do mundo como quadripartição (Geviert)
O mundo é pensado como a unidade dos quatro (das Vier): a terra, o céu, os divinos e os mortais
Estes quatro não existem isoladamente, mas somente em sua mútua pertença e jogo recíproco
Caracterização dos quatro momentos do Geviert
A terra é aquilo que suporta e edifica, que frutifica e nutre, que cuida das águas, rochas, plantas e animais
O céu é o curso do sol e da lua, o brilho das estrelas, as estações do ano, a luz e o crepúsculo, a escuridão e a claridade da noite, os benefícios e rigores da atmosfera, a fuga das nuvens e a profundidade azulada do éter
Os divinos são os mensageiros da divindade que dirigem sinais; o deus emerge do poder oculto da divindade e aparece em sua essência, que o subtrai a qualquer comparação com o presente
Os mortais são os homens; chamam-se mortais porque podem morrer; morrer significa ser capaz da morte como morte
A morte como abrigo do ser e relação essencial dos mortais
A morte, como arco do nada, encerra o que faz a essência do ser e é assim o abrigo do ser
Os mortais são verdadeiramente mortais quando têm seu ser no abrigo do ser e são a relação essencial com o ser enquanto ser
A unidade do Geviert como jogo e dança
Céu e terra, divinos e mortais nunca existem sozinhos, mas somente em comum uns com os outros
Eles existem na simplicidade, na dança e na roda dos quatro, no jogo do mundo
A retomada de ideias antigas e a ponte com a experiência mítica
Pensar o mundo como quadripartição é retomar, através do pensamento, ideias muito antigas
O homem na experiência mítica do mundo experimentava-o como o casamento da terra e do céu, e a si mesmo como mortal sob a reivindicação do deus
Platão, em sua maneira, ainda está próximo da ideia do mundo como ordem, assembléia do céu e da terra, dos deuses e dos homens
Heidegger estabelece uma ponte de sua concepção do mundo para a experiência mítica de Hölderlin
A poesia de Hölderlin foi a incitação decisiva para pensar o mundo como quadripartição
O desafio de reinserir a sabedoria do mito no pensamento
Talvez tenha chegado o momento de reintegrar no pensamento a sabedoria mais antiga do mito
Para isso, o pensamento, partindo de um início autônomo, deve desenvolver a questão sobre o que o mito nomeia
O pensamento não pode simplesmente tomar respostas do mito para si, sem renunciar a si mesmo como pensamento
A dificuldade em apreender conceitualmente os quatro
Quando questionamos sobre o mundo, o saber sobre o que é o céu e a terra escapa-nos das mãos
As indicações de Heidegger, por vezes escassas, podem mais mascarar do que desenvolver o que deve ser pensado
A definição do homem como mortal pressupõe um saber sobre quem é o homem, algo que o próprio Heidegger afirma não possuirmos mais
Sobre o divino, Heidegger sugere que é preferível guardar silêncio na zona do pensamento
A necessidade de um caminho meditativo para alcançar o Geviert
Nenhuma indicação pode dizer imediatamente como pensar o mundo como quadripartição
É necessário seguir o caminho pelo qual o próprio Heidegger chegou a esse conhecimento
O ponto de partida: a questão do ser como abertura
A via começa com a questão do ser; o ser é a abertura do ente
Um ente chega ao seu ser quando é tomado nele mesmo pelo que é
Ao ser tomado como ente, produz-se nele uma ruptura; sua imanência fechada é aberta à força, o ente é distinguido de si mesmo
A diferença ontológica e o intervalo
A ruptura abre abruptamente a diferença entre ser e ente; ela gera o intervalo pelo qual o ente advém à abertura do ser
Para esta abertura é necessária a pensamento, que concebe o ente como ente
É apenas o intervalo que faz do ser o ser do ente; ele é o que desdobra sua essência no ser como seu fundamento e sua verdade
A verdade do ser como simultaneidade de descobrimento e encobrimento
A questão é como se desdobra realmente este entre-dois, a verdade do ser
Ela é conhecida como a simultaneidade do descobrir e do encobrir, como o acontecimento do desvelamento
A multiplicidade de nomes para o desvelamento
O desvelamento é pensado de muitas maneiras: como liberdade do esclarecimento, como proximidade (Nahnis), como dimensão de todas as dimensões, como região
Ele é o movimento mais originário, o caminho mesmo (Tao), o movimento que abre todos os caminhos do pensamento, da ação e do discurso
O movimento vem do repouso, concebido não como imobilidade rígida, mas como imanência que reúne em si todos os movimentos
O mundo como nome decisivo para a estrutura do desvelamento
Entre os nomes para o que vigora como desvelamento, um é decisivo: mundo
Este nome designa a estrutura na qual se situa o desvelamento
O que reina no mundo é o encobrimento descobridor do desvelamento, um proveniente
O estatuto não-ente do ser e do mundo
Ser e mundo não existem como um ente, pois não são um ente entre outros
Por isso Heidegger diz que eles desdobram sua essência (wesen) ou vigorecem (walten)
O desdobramento deve ser concebido como este advir que se abriga na presença
O destino como proveniente de descobrimento e encobrimento indissociáveis
Como no advir do descobrimento, o encobrimento pertence permanentemente ao descobrimento, este advir não deve ser concebido como um processo teleológico
Um proveniente onde descobrir e encobrir se unem indissoluvelmente é chamado por Heidegger de destino
A essência do tempo como temporalidade eqüi-original
No destino vigora a essência do tempo; este tempo não é o tempo intramundano, mas a temporalidade, o horizonte transcendental do sentido do ser
É a maneira como tem lugar o desvelamento
Heidegger busca quebrar a dominação do presente na tradição metafísica
O tempo como engrenagem das três dimensões
O tempo é pensado como eqüi-temporalidade do passado, presente e futuro, ou ser-passado, ser-presente, vir-ao-encontro (Gegen-Wart)
A eqüi-temporalidade é a engrenagem das três dimensões temporais, algo como uma quarta dimensão que seria a primeira e inicial
As três dimensões são de igual importância; não toleram a predominância do presente
A negação da eternidade como presente extra-temporal
O presente não é o constante, a partir do qual passado e futuro seriam concebidos como sua negação
O presente (como instante) só é produzido quando há a engrenagem do passado e do futuro
Heidegger não supera o tempo rumo a um presente extra-temporal e eterno; ele corta definitivamente essa rota
A eternidade conhecida a partir da eqüi-temporalidade reside na unicidade do instante
A concepção originária do espaço e sua união com o tempo
O tempo como eqüi-temporalidade vigorece em conjunto com o espaço, pensado em seu sentido originário
Espaço originário não é o conjunto de lugares, mas o que abre a separação dos emplacamentos, lhe dá espaço
O espaço-de-jogo-temporal (Zeit-Spiel-Raum) como domínio do desvelamento
O tempo como eqüi-temporalidade e o espaço nesse sentido formam o espaço-de-jogo-temporal, o domínio movente do desvelamento
Este se abre como destino ao retirar-se em seu encobrimento
A derivação do tempo e espaço mensuráveis
O tempo como sequência mensurável de instantes e o espaço como separação mensurável resultam de abstrair o jogo originário do espaço-de-jogo-temporal
Nessa abstração, o encobrimento é recoberto em favor do presente mensurável
Os limites do saber objetivo sobre espaço e tempo
O espaço submetido ao cálculo não esgota o espaço-de-jogo-temporal; não pode dar conta, por exemplo, da proximidade ou do afastamento do deus
Se espaço e tempo são postos apenas em vista do mensurável, o mundo como espaço-de-jogo-temporal é destruído
Interpretar espaço e tempo a partir do espaço-de-jogo-temporal não torna falso o saber científico, mas o insere no domínio restrito de sua exatidão, mostrando que são inesgotáveis em sua essência
A ordenação do desvelamento na estrutura do Geviert
O desvelamento se ordena, como dispensação do espaço-de-jogo-temporal, na estrutura do mundo, erigindo-se em quadripartição
O encobrimento, enquanto traço fundamental do desvelamento, se manifesta sob o aspecto da terra, que só se abre fechando-se
O descobrimento, outro traço fundamental, é especialmente proporcionado sob a forma do céu, que se estende, indisponível, sobre a terra
O mundo como conflito íntimo e união
O mundo é o conflito da terra e do céu, conflito entendido como união íntima onde um não pode ser sem o outro
O mundo nunca é um mundo em si, mas o advento da abertura do ente no homem
O homem como necessário para o advento do desvelamento
O homem é, com sua essência, utilizado para o advento do desvelamento
É necessário como aquele mortal ao qual a vigência da verdade e do mundo só se dá ao recolher-se no apelo do totalmente outro, do divino
A ausência de fundamento exterior ao mundo
O mundo como quadripartição não precisa ser explicado a partir de um fundamento exterior a ele
Também não se pode isolar um de seus momentos estruturais para fundamentar o todo
O descobrimento encobridor que vigora no mundo permanece um fundamento sem fundo
O mundo como jogo de espelhos e unidade dinâmica
O mundo é o quadriparti como jogo de espelhos, onde cada um reflete a essência dos outros e assim se reflete em sua própria essência
A reflexão não é pensada platonicamente, mas como velamento esclarecedor que, como advento, traz àquilo que é próprio
A unidade que mantém juntos os quatro, como simplicidade da quadratura, não é identidade rígida, mas roda e dança animadas
A infinidade do mundo como relação infinita
A unidade dos quatro é a intimidade de uma relação infinita
Infinito não é o que não tem fim, mas o movimento do mundo que remete para fora de si tudo que é finito e o traz de volta a si
Esta infinidade não é o ser em si de um ente supremo, mas o fundamento sem fundo, descobrimento que encobre e assim acontecimento
O mundo como concessão do próprio e da pátria
Como relação infinita, o mundo faz entrar o que é naquilo que lhe é próprio
Na experiência do mundo ocorre esta entrada no ser próprio, onde o próprio existe como próprio, como o historicamente único
O mundo concede a possibilidade de estar em casa no que é próprio, com base no que permanece estrangeiro e indisponível; concede o próprio como pátria
A mútua pertença do mundo e das coisas
O mundo apropria o ente àquilo que lhe é próprio, liberando-o para ser ele mesmo
Esta guarda não ocorre como se, de um lado, houvesse um ente e, de outro, um desvelamento, e ambos fossem reunidos
Verdade e mundo se abrigam no ente quando o ente se abriga neles: o mundo concede coisas, enquanto as coisas fazem morar e reúnem o mundo
A via de acesso ao mundo a partir do ente
Em um tempo onde verdade e mundo se recusam, Heidegger busca conduzir primeiro à essência da verdade e do mundo
Ele questiona sobre as vias pelas quais verdade e mundo se abrigam no ente, para seguir o estreito caminho que conduz ao seu conhecimento
Se o mundo só vigora ao abrigar-se no ente, o caminho inverso também deve ser possível: mostrar, a partir do ente, como ele está, em sua diversidade, abrigado no mundo
A retomada modificada da teoria das categorias
Nesse caminho, o objetivo da teoria universal das categorias e da ordem ontológica do ente é retomado sob uma forma modificada
Trata-se da questão dos níveis segundo os quais o ente é abrigado na verdade e em sua estrutura, o mundo
A separação das vias de pensamento
No entanto, questionar assim é fazê-lo no sentido contrário ao que determina as questões de Heidegger
Os Beiträge sugerem que aqueles que assumem a ressonância do evento como recusa e aqueles que fundam a liberdade do ente em si podem permanecer separados
Uma maneira de re-executar o pensamento de Heidegger, partindo de outros pontos de partida, talvez possa despertar melhor a questão sobre o que deve ser pensado
A ausência de um telos para uma gradação do ente
Se questionamos sobre os níveis de abrigo do ente, renovamos aparentemente a questão platônico-neoplatônico-idealista sobre a gradação do ente
No entanto, se o mundo é o acontecimento onde todo fundamento se abisma, falta o ponto de mira para tal gradação
O encontro histo-rial como ordem não supratemporal
Se verdade e mundo são destino indisponível, a abertura na qual o ente se coloca é sempre um encontro histo-rial do destino, e não uma ordem supratemporal
A questão é como Heidegger desenvolve este encontro e como o ente se decompõe na variedade de seus domínios para seu conhecimento do mundo
A crítica à concepção objetificante da natureza
Sein und Zeit não interroga especialmente sobre a natureza, mas afasta a opinião de que a natureza seria identificável à coisidade natural dada e disponível
Distingue a natureza que nos envolve (no sentido romântico) da natureza como objeto das ciências naturais
A natureza a partir da disposição (Befindlichkeit) do ser-aí
A natureza é originariamente manifesta no ser-aí pelo fato de este existir como disposto e situado no meio do ente
Como a disposição pertence à essência do ser-aí, a analítica do ser-aí forneceria a base para o desdobramento do problema da natureza
A terra como chave para a questão da natureza
Se a disposição do ser-aí é concebida como o momento estrutural terra no Lá do ser do mundo, a questão da natureza deve ser posta a partir da terra
Os Beiträge refletem sobre como a natureza foi primeiro physis, morada dos deuses, depois antítese da graça, e hoje é apenas objeto para a técnica
A terra como mais originária que a natureza
A natureza só se torna terra em virtude de seu conflito com o céu, conflito que o homem deve sustentar
Se sua abertura é concebida como o conflito da terra que se fecha e do céu que a eleva para o aberto, então a natureza se torna terra
A terra é, em certos aspectos, mais originária que a natureza, pois tem uma relação com a história
A física como um modo específico de manifestação da natureza
A física provoca a natureza como objeto e fundo (Bestand)
O que é provocado é a natureza mesma, mas apenas como domínio de objetos cuja objetidade é determinada pela elaboração da física
A física abstrai de uma multiplicidade de traços da natureza; o que ela apreende é apenas uma maneira que a natureza tem de se manifestar
Os limites da explicação física
A objetividade da física nunca pode abraçar toda a plenitude de ser da natureza
A física não pode decidir, com seus próprios meios, daquilo de que abstrai
A questão de saber se a natureza não se retrai em sua plenitude oculta é assunto de uma reflexão que busca explicitar os modos de descobrimento
A superação da aparência de um em si último
Se recordamos que a natureza se encobre ao mostrar à pesquisa física um certo modo de desvelamento, não pode mais surgir a aparência de que o descoberto pela física é um em si último e certo
Valores estéticos, por exemplo, não podem ser superpostos como algo adicional a esse em si
A relação recíproca entre homem e natureza
Se a natureza se descobre ao mesmo tempo que se encobre, ela não pode ser apenas produto elaborado por um sujeito, nem simples objeto e fundo da tecnologia
O desvelamento, tal como eclode no homem, é condição para que a natureza seja conhecida em seu eclodir e em seu fechar
Por outro lado, o homem deve, como condição para ser ele mesmo, reconhecer a natureza que se encobre em sua estranheza
A inquietação da parentesco corporal com o vivente
O fato de seu ser-aí ser portado por algo que não é no modo do ser-aí, que é do gênero da natureza, inquieta o homem
Essa inquietação se dá sobretudo na parentesco que ele tem, por sua corporalidade, com aquilo que é apenas vivente
A ontologia do ser-aí como pré-ordenada à ontologia da vida
Sein und Zeit afirma que a ontologia do ser-aí é pré-ordenada à ontologia da vida
Na realidade, a natureza precede o homem, mas em verdade ela não existe (ex-siste) sem ele, pois existir só há onde há um dizer-que-uma-coisa-existe
A prioridade da ontologia do ser-aí diz respeito à ordem da verdade e do saber: o homem que sabe precede o saber sobre a natureza
A interpretação privativa da vida
A biologia é fundada na ontologia do ser-aí, ainda que não de modo exclusivo
A ontologia da vida se realiza por via de interpretação privativa; ela determina o que é necessário para que algo como simplesmente viver possa ser
A vida não é privação do ser-aí no sentido da decadência; a autonomia imanente do modo de ser vida se perderia em tal via
A interpetação privativa como esclarecimento prévio dos conceitos
A interpretação é privativa na medida em que pressupõe absolutamente um esclarecimento do que significam ser, ser-aí, realidade, etc.
Não se deve tomar a vida como uma privação do ser-aí, pois o homem não deve ser posto como telos da natureza
As sugestões dos Beiträge para uma interpretação da vida
A vida é compreendida como o começo da abertura do ente em vista do ente, onde o si mesmo ainda é guardado
O vivente se encontra num entorpecimento, dentro do qual se realiza toda excitação e irritabilidade
Mostra diversos graus de um obscurecimento, a guarda do si e a prioridade da espécie, que não reconhece nenhum indivíduo como ipsidade
A distinção radical entre homem e animal na Carta sobre o Humanismo
Os seres vivos não precisam do ser, não suportam a verdade do ser, não têm a guarda da essência de seu ser, não têm mundo (apenas um meio), e lhes falta a linguagem, a capacidade de dizer é
Esta interpretação privativa não deve fazer ver o animal a partir do ser-aí, mas conduzir-nos diante do abismo que nos separa do animal, a cuja essência somos no entanto aparentados por nosso corpo
A exclusão do antropomorfismo pelo ponto de partida no ser-aí
Tomar o ser-aí como ponto de partida não deve dar garantias a uma interpretação antropomórfica, mas excluir o antropomorfismo
Isso ocorre ao tomarmos consciência de que somos sempre nós que compreendemos, e que nossa autocompreensão ainda está em jogo diante do incompreensível
A insuficiência da explicação mecanicista
A explicação mecanicista da vida não é uma saída do antropomorfismo, pois permanece inadequada à vida, ainda que possa esclarecer alguns traços de sua essência
Nela, o vivente é pensado a partir das obras que o homem realiza; o vivente é distinguido por ser definido como aquilo que se faz a si mesmo
A estranheza fundamental do animal
O animal, que parece tão próximo, nos resta profundamente estranho, porque o ente já se abre para ele, sem que ele mesmo assuma o desvelamento
Desvelar-se e velar-se estão unidos no animal de uma maneira tal que nossa interpretação humana mal encontra uma saída, evitando tanto a explicação mecanicista quanto a antropomórfica
A diferença essencial: compreensão do ser
O homem não é apenas um ente como os outros; ele é o lugar onde ser, verdade e mundo se produzem
A diferença entre homem e o resto do ente deve ser estabelecida como a diferença entre o que se distingue pela compreensão do ser e o que não tem tal compreensão
O homem como tema a partir de sua função no desvelamento
O homem constitui um tema pelo fato de que sua essência é necessária para que o ente possa entrar em seu ser, para que o ser possa se produzir e se ordenar como desvelamento na estrutura do mundo
Em Heidegger, há poucas indicações sobre o homem como unidade de corpo, alma e espírito, ou sobre a ordem da comunidade
A reorientação das questões antropológicas para a questão do ser
Heidegger acolhe essas problemáticas, mas elas se transformam na questão de saber como é experimentado o desvelamento do ser quando o homem é assim definido
O que é dito sobre o um (das Man) em Sein und Zeit não fornece uma contribuição para a filosofia social, mas indica como, para um homem cujo pensamento é rebaixado às evidências do Um, a questão da verdade do ser não pode surgir
A tarefa de encontrar o terreno para as questões antropológicas
Quando Heidegger pensa o homem como o lugar, o Lá, do ser, e toma a peito transformar o homem nesta essência que é sua, as questões da unidade corpo-alma-espírito e da ordem da sociedade não são excluídas
É preciso precisamente encontrar o terreno sobre o qual estas questões devem ser postas
A morte como medida da possibilidade mais extrema
O homem toma a medida da mais extrema possibilidade do ser-aí quando assume a morte como morte
A morte confia o ser-aí à sua profundidade abissal irredutível e o faz assim o lugar momentâneo para o desvelamento
A deformação da essência da morte
A essência da morte também pode ser mascarada: um morrer experimentado como simples extinção deforma a morte, assim como uma interpretação metafísica que a toma por passagem para uma vida eterna assegurada
A morte essencial como encontro com o que permanece
Na morte experimentada segundo sua essência, aquilo pelo qual o homem é sustentado em seu ser vem a ele: a realidade originária que recolhe em si tudo o que é e que é assim o que permanece, o advento do desvelamento e do mundo
A morte atribui o homem ao acontecimento da verdade e do mundo, e o transforma assim em sua essência de pertencer, como mortal, ao quadriparti
O homem como mortal diante dos deuses
É como mortal que o homem se coloca diante dos deuses
O mundo ao qual ele pertence é o entre-dois entre os deuses e ele, o acontecimento que consagra uns aos outros os divinos e os mortais
A verdade e o mundo como reivindicação suprema
Verdade e mundo não se dão ao homem diretamente, mas sempre reunidos numa reivindicação suprema, que cria um compromisso
Se esta reivindicação torna familiar ou faz experimentar o desenraizamento como tal, ela é a reivindicação daquilo que concede ou recusa a salvação, do sagrado que chega ou se desvia
A manifestação do divino
O divino se esconde no sagrado como aquilo que concede ou recusa a salvação
Este divino se manifesta, de uma vez a outra, como reivindicação, como o deus ou os deuses
A presença da questão de Deus desde o início
A questão de Deus paira desde a origem sobre o caminho do pensamento de Heidegger
Este caminho começa por um ponto de partida metafísico que encontra seu acabamento ao retornar a Deus como seu fundamento último, numa teologia especulativa
O ataque à teologia metafísica
Heidegger dirige seus ataques contra essa teologia metafísica: o Deus que a metafísica busca apreender e compreender, e do qual busca fazer a base do pensamento, não é o Deus vivo da fé
Sein und Zeit e a expulsão dos resíduos teológicos
Sein und Zeit não se funda mais numa teologia especulativa, mas quer expulsar radicalmente da filosofia os remanescentes da teologia cristã
Com isso, a relação do homem com Deus não é negada, mas trata-se de criar um lugar para uma teologia renovada, inspirada em Lutero
A historicidade da revelação
A Fenomenologia e Teologia refuta toda tentativa de reduzir a cristandade da fé cristã a um princípio geral de filosofia religiosa
Deus se atesta para a crença no Cristo crucificado em sua historicidade; uma revelação que é história não pode ser tornada universalmente inteligível
A abertura para uma pensamento preparatório
A possibilidade de um pensamento preparatório para a essência de Deus está aberta em Sein und Zeit
A parte não publicada deveria traçar uma delimitação da diferença ontológica em relação à diferença teológica
A experiência nietzschéana da morte de Deus como decisiva
Nos anos posteriores a Sein und Zeit, a experiência nietzschéana da morte de Deus tornou-se decisiva
Para Heidegger, não é Deus mesmo que morre, mas o Deus tal como foi conhecido na história ocidental determinada pela metafísica
A refutação apenas do Deus moral
A palavra de Nietzsche significa para o pensamento meditativo: o Deus pensado como valor, mesmo que seja o maior, não é um Deus
Portanto, Deus não está morto, pois sua divindade vive; está mesmo mais próxima do pensamento que da fé, se a divindade recebe sua origem da verdade do ser
O Deus moral como equívoco da humanidade
O Deus moral é o equívoco da humanidade que se nega a si mesma e nega a vida
Quando esta humanidade é superada, o equívoco, o Deus moral, é refutado
A crítica ao Deus metafísico
Heidegger concebe o Deus moral como o Deus metafísico, limitando a palavra de Nietzsche sobre Deus à experiência metafísica
A crítica ao Deus ético-metafísico é conduzida a novas profundezas: Deus entra na metafísica quando a essência originária do desvelamento é esquecida e o ser é assegurado como presença constante
A liberação para o Deus divino
Deus é exigido pelo pensamento metafísico como fundamento último e valor supremo, mas assim não é conhecido em sua verdadeira essência
O pensamento só pode encontrar o caminho do ser verdadeiro de Deus se, superando a metafísica, alcançar a essência originária da verdade
É só quando o pensamento abandona o Deus metafísico que se liberta para o Deus divino
Hölderlin como garantia de uma nova possibilidade
Hölderlin, que retoma transformada a experiência pré-metafísica de Deus da tragédia grega, pode ser o garantidor da possibilidade de uma theologia que, mesmo num tempo de retirada de Deus, se sabe sob a invocação do divino
A questão de Deus como encerramento necessário dos Beiträge
Os Beiträge terminam com a questão de Deus, necessariamente
Neles, o ser é pensado como ele mesmo, portanto como o advento do desvelamento
O desvelamento se concentra em que uma reivindicação divina, que determina e transforma tudo, se exprime nele e pode tocar o homem
O homem à disposição dos deuses
O homem transformado no ser-aí e que assim se sabe utilizado para o advento do desvelamento, está à disposição dos deuses
Isso significa manter-se longe e fora da banalidade do ente e de suas interpretações; pertencer ao mais distante
O ser como tremor do tornar-se-deus
O ser como acontecimento do desvelamento confia o deus ao homem ao atribuir o homem ao deus
Assim, ele é o tremor do tornar-se-deus, a antecipação da decisão divina sobre seu deus
A indeterminação na fala sobre o divino
Como nunca é o homem que pode decidir se e como Deus o interpela, o pensamento prévio deve deixar essa decisão indecisa
Por isso, Heidegger fala de maneira indefinida tanto do deus quanto dos deuses
A recusa do ser aos deuses
Ele recusa o ser aos deuses, embora o deus possa ser pensado tão pouco como não sendo quanto como sendo
Recusar o ser a Deus significa que o ser não está acima dos deuses, nem estes estão acima do ser
Os deuses precisam do ser para pertencerem a si mesmos graças a este ser, que não lhes pertence; o ser é aquilo de que os deuses precisam
O último deus como começo da história futura
Se o divino é conhecido a partir do acontecimento do desvelamento, a essência do divino é elevada ao que tem de último e supremo
O deus aqui chamado último não representa um fim no sentido daquilo que cessa; conhecê-lo como último é antes o começo da história futura
O último deus não é simplesmente um outro deus diante dos deuses passados; ele os reúne na essência última e suprema do divino
A essência do último deus no signo (Wink)
O deus conhecido pelo acontecimento como o último só passa: não se pode forçá-lo a parar e assegurá-lo como o fundamento que tudo funda
Ele tem sua essência no signo, assalto e falta da chegada, bem como na fuga dos deuses que foram e sua transformação secreta
Nesta essência do signo, o ser mesmo amadurece; a maturidade é disposição para tornar-se fruto e doação
A relação entre o acontecimento e o deus
Contudo, o ser e sua essência, o acontecimento do desvelamento, não é ele mesmo o deus, mesmo que seja o elemento de que o deus precisa para aparecer
O acontecimento é a rede onde o deus se toma a si mesmo, para rasgá-la e deixá-la se consumar no que tem de único, divino e estranho
A histo-rialidade como pertencente à essência do divino
O divino conhecido pelo acontecimento do desvelamento não pode mais ser posto como o fundamento que tudo funda
Ele se encobre na profundidade sem fundo; só se mostra de vez em quando na dispensação e permanece o outro em relação ao humano
A historicidade pertence a sua essência, na medida em que é pensada a partir do advento que, ao descobrir, encobre
A mortalidade dos deuses
Se o divino é assim experimentado, não se pode afastar a ideia de que uma reivindicação do divino também tem seu tempo
Os deuses também podem morrer; morrer aqui não significa acabar no vazio de um nada, mas retirar-se no único e no irremplaçável
A morte é concebida como o testemunho supremo a favor do ser e do advento da verdade
A superioridade do homem em relação aos deuses
Como o homem é capaz de assumir a morte especificamente como morte e de ser assim atribuído ao acontecimento, ele supera os deuses
Esta superação significa que os deuses estão inteiramente reunidos nos limites de uma reivindicação histo-rial
O deus como interrogado
Se tempo e história são reconhecidos a partir do advento do desvelamento, o deus não deve mais ser pensado como aquele que é sem tempo nem história
Ele só pode ser objeto de interrogação a partir do movimento trágico da história, do instante
Talvez ele só esteja aí, diz Heidegger, como o interrogado, ou seja, o chamado
As questões abertas sobre a unidade e eternidade do divino
Se o divino só se mostra numa reivindicação cada vez histo-rial, como pode ainda ser pensado em sua unidade?
Pode-se representar a eternidade de Deus como temporalidade infinita?
A plenitude do divino pode ser resumida na noção do último deus, ou esta omite a experiência histo-rial do divino?
A revogação da expressão passagem do último deus
Antes que estas questões possam ter resposta, seria preciso perguntar mais exatamente como pensar que o deus seja último e que ele passe
Em seus trabalhos posteriores, Heidegger revoga a expressão passagem do último deus, apresentada nos Beiträge
Ele fala agora com mais reserva dos divinos, dos mensageiros da divindade que fazem sinais
Os divinos como anjos
Heidegger (com Hölderlin) chama também os divinos de anjos
Os anjos são os mensageiros que colocam os homens sob a reivindicação do sagrado e do divino e assim apaziguam o advento sem fundo do desvelamento num ser-salvo
Sendo tais mensageiros, os divinos pertencem ao mundo, à estrutura do desvelamento
A necessidade da questão de Deus para o pensamento
A questão de Deus se coloca quando se pergunta como uma reivindicação que obriga pode reunir nela o advento da verdade e do mundo
Ela é indispensável para um pensamento que questiona sobre a estrutura da verdade e do mundo
A tarefa do pensamento e seus limites
O pensamento reconhece como sua tarefa reservar o domínio de uma reivindicação divina que traz a salvação; tenta mesmo reabrir este domínio
Contudo, ele não tem o poder de decidir por si mesmo se e como tal reivindicação toma a palavra e encontra o homem
O pensamento, ao qual a questão de Deus pertence com necessidade, não é ele mesmo teológico ou mitológico, resposta a uma reivindicação efetiva
A presença constante da questão de Deus
Desde o início de seu itinerário, o pensamento de Heidegger traz consigo a questão de Deus
Este pensamento realiza, refazendo-o, o traçado da experiência ocidental de Deus e deve assim passar pela experiência nietzschéana da morte de Deus
Os desvios e armadilhas do caminho
Para finalmente voltar ao seu próprio caminho, ele deve percorrer os desvios mais consideráveis
A realidade contemporânea, que tem o aspecto de um novo começo e é na realidade a destruição do advento originário do desvelamento, jaz como uma armadilha no caminho
A exigência trágica do pensamento
É preciso manter o questionamento sobre Deus num tempo de extremo desvio; por isso, sobre o caminho deste questionamento, está colocada a palavra consternada do coro do Rei Édipo
O pensamento deve trabalhar para extirpar de si o que atrapalha a preparação da disponibilidade para os deuses
Como Édipo, deve trazer à luz, com uma paixão de saber única, a culpa oculta que se encontra na via própria, a via ocidental
A ruína como entrada no advento
Assim, o pensamento é chamado a uma via trágica, para esta ruína que não é o vazio do aniquilamento, mas entrada no advento do desvelamento
Esta entrada se consuma ao determinar e produzir na sua pertença recíproca o deus e o homem, a terra e o céu, e se põe assim como a estrutura do mundo
A superação das categorias humanas de julgamento
Se o pensamento se liberta para este advento, ele não pode mais creditar a um tempo bom ou mau, ou a uma sorte ou azar humanos, a via ou o desvio, a proximidade ou o afastamento do divino
Ele também é agora dominado pela palavra final do último poema do último poeta do helenismo originário, o Édipo em Colono de Sófocles