Daniel Alvaro

NANCY, Jean-Luc. Corpus. Edition revue et complétée. Paris: Métailié, 2006.

Um corpo, corpos… (resumo)

Desde os primeiros escritos de Jean-Luc Nancy sobre o corpo, a tradição ocidental, ao menos desde Platão e o surgimento do cristianismo, aparece dominada pela figura do «corpo significante», isto é, pelo corpo submetido à ordem do sentido, cuja invenção e construção histórica resultam de uma multiplicidade de discursos teológicos, filosóficos, políticos, semiológicos, psicanalíticos e literários que, apesar de suas diferenças, compartilham uma impotência fundamental: não conseguem pensar o corpo sem simultaneamente significá-lo e, portanto, sem deixar de fazer justiça à evidência imediata do aqui e agora dos corpos.

Para falar do corpo seria necessário um discurso inteiramente diferente, capaz de falar a partir do corpo e não simplesmente sobre ele, afetando-o em toda a sua extensão e existência antes de lhe produzir ou atribuir sentido; por isso, a questão decisiva de Corpus consiste em saber como tocar o corpo em vez de significá-lo, fazendo da escrita levada até seu próprio limite não a procura de um novo significado ou interpretação, mas a tentativa de pensar o corpo como interrupção do sentido.

O corpo constitui precisamente o limite do sentido, o extremo além do qual já não se consegue articular um discurso dotado de sentido, razão pela qual escrever a partir do corpo exige abandonar o próprio sentido ao seu excesso e substituir a pretensão sistemática do logos por um corpus, isto é, por uma nomenclatura dispersa, uma enumeração ou catálogo de corpos que não reconduza sua multiplicidade a uma significação totalizante.

Esgotar o discurso na e pela escrita constitui o recurso paradoxal mediante o qual o pensamento procura tocar o corpo não para mostrá-lo ou demonstrá-lo, já que ele é evidente, mas para expô-lo e inscrevê-lo fora do discurso, conduzindo a escrita até a excrição, pela qual o corpo se torna estranho a toda significação, inscrição ou marca; não há interrupção do sentido sem excrição nem excrição sem escrita, de maneira que tocar o corpo exige persistir justamente naquele ato de escrita que simultaneamente o afasta indefinidamente dos corpos, paradoxo constitutivo do «tocar» enquanto toque da escrita e enquanto contato pelo qual um corpo toca outro e é por ele tocado.

Tocar significa sempre tocar um limite, pois nunca se alcança a «coisa mesma», mas sua borda, a linha simultaneamente divisória e indivisível entre dentro e fora, fazendo do limite aquilo que é propriamente impresentável na apresentação e, por isso, simultaneamente tocável e intocável; o que é tocado deve permanecer estranho, retirado, afastado e espaçado no próprio contato, pois sua inacessibilidade não constitui obstáculo exterior ao tocar, mas sua condição.

O intocável exige discrição, reserva, pudor e sobretudo tato, entendido como a capacidade de «tocar sem tocar», nem excessivamente nem insuficientemente, segundo uma medida sem medida determinável pela qual o toque se oferece ao mesmo tempo que se retira daquilo que toca, afirmando inseparavelmente contato e não contato, proximidade e separação; «tocar o intocável» assume assim o caráter de uma responsabilidade e mesmo de um imperativo ético destinado a resistir à apropriação do outro e do limite de seu corpo.

Nenhum existente parece mais exposto à possibilidade de tocar e ser tocado do que um corpo, cuja singularidade consiste justamente em estar aberto ao con-tato com outros corpos; antes de qualquer afirmação sobre o corpo, inclusive sobre o chamado «corpo próprio», impõe-se reconhecer essa ex-posição recíproca sem a qual nenhum corpo seria aquilo que é, pois cada corpo é diferença, força e singularidade somente na coexistência com outros corpos heterogêneos, tornando-se insubstituível precisamente porque finito.

Os corpos compartilham um mundo, um ter-lugar comum e um espaço de existência justamente porque, ao se exporem uns aos outros, experimentam sua finitude constitutiva; um corpo isolado e incomunicável, sem exterioridade nem relação com outros corpos, deixaria de corresponder ao que se entende por corpo e reconduziria às figuras filosóficas e teológicas do absolutamente intocável — o indivíduo-sujeito fechado em si ou Deus concebido sem lugar, exterioridade, forma e matéria —, enquanto o corpo propriamente dito somente tem lugar na exposição que o abre ao mundo dos corpos.

O corpo é o aberto e o exposto, mas exposição não significa tornar visível algo previamente oculto ou encerrado, pois ela constitui o próprio ser ou existir: se o sujeito parecia caracterizar-se pela autoposição, essa própria autoposição revela-se estruturalmente exposição, de modo que auto, ex e corpo passam a coincidir e o corpo pode ser pensado como o ser-exposto do ser.

Ao autoexpor-se, todo corpo se entrega necessariamente ao risco representado pela presença estranha do outro corpo, diferente, estrangeiro ou intruso, fazendo da ameaça de contágio, contaminação, vulneração do próprio e mesmo morte violenta uma possibilidade inseparável da existência corporal; eliminar essa exposição suprimiria simultaneamente a ameaça e toda verdadeira possibilidade de relação, pois existir corporalmente significa ser numerosos, espaçados, confrontados, afrontados, gozosos e sofredores, impróprios, penetrados pela intrusão e políticos de uma extremidade à outra.

A ambivalência constitutiva da relação com o outro impõe repensar também a comunidade ou o estar-em-comum a partir da lógica da exposição corporal e de sua dimensão propriamente afetiva, pois o comum não pode ser separado do risco, da vulnerabilidade e da afecção envolvidos no contato entre corpos.

A existência de cada corpo encontra-se inseparavelmente ligada à existência de outros corpos, porque todo corpo está sempre exposto a uma multidão ou comunidade de corpos, de modo que somente se é com outros e, se há um «nós», ele existe conjuntamente, uns com os outros e expostos uns aos outros; «com» e «entre» não designam simples mediações nem uma massa indiferenciada, mas o próprio limite pelo qual cada corpo afeta e é afetado por outro.

O limite pelo qual um corpo simultaneamente se oferece e se retira ao toque é a pele, superfície exposta mediante a qual ele entra em contato consigo e com os demais corpos; a pele constitui assim a verdade da exposição corporal, voltada integralmente ao fora e simultaneamente envoltório do dentro, podendo tocar e deixar-se tocar.

A reflexão sobre o corpo percorre diversos momentos da tradição filosófica, com referências a Platão, Tomás de Aquino, Espinosa, Kant, Husserl, Merleau-Ponty e Heidegger, mas concentra-se especialmente em Aristóteles e Descartes, em razão do papel decisivo que suas obras desempenham na formulação histórica da questão da relação entre corpo e alma.

A questão do corpo nasce historicamente marcada pela dualidade platônico-cristã entre corpo e alma, ainda tão determinante que permanece difícil pensar espontaneamente o corpo sem opô-lo à alma ou ao espírito; essa oposição precisa ser desconstruída, embora a própria tradição contenha, em Aristóteles, Tomás de Aquino, Espinosa e Descartes, possibilidades de compreender a diferença entre corpo e alma de modo distinto de uma simples oposição, reconhecendo na alma não algo separado do corpo, mas o próprio corpo fora de si, isto é, aquilo que o corpo é para si mesmo e em si mesmo enquanto exterioridade estrutural.

«Alma», despojada de sua conotação especificamente cristã, designa o corpo fora de si, o corpo que sente e se sente fora de si mesmo, partindo-se da premissa de que, uma vez corpo e alma concebidos articuladamente ou em relação, o corpo já não é essencialmente distinto da alma e a alma tampouco constitui outro corpo, nem sequer um corpo «espiritual», separado do corpo.

Quando um corpo sente ou sente a si mesmo, inclusive ao tocar-se, isso ocorre necessariamente em relação ao exterior, pois o corpo sente-se desde fora e não a partir de uma interioridade pura, já que ele próprio é para si mesmo um fora; «sentir-se sentiente» designa precisamente a relação consigo de um ser fora de si, permitindo compreender corpo e alma, ego e alteridade, interioridade e exterioridade como articulações do mesmo movimento de exteriorização.

A leitura de Descartes torna especialmente explícita essa unidade singular, nem dualista nem monista, de um ser fora de si, tomando como ponto de partida a «união substancial» da coisa extensa e da coisa pensante: a união entre corpo e alma possui evidência tão forte quanto a das substâncias consideradas separadamente, mas sua evidência não se pensa nem se imagina, podendo somente ser experimentada mediante o sentir.

Na experiência da união substancial, aquilo que se experimenta em si é a relação ou articulação entre duas res que, propriamente falando, não se penetram porque permanecem impenetráveis, mas que ainda assim se afetam reciprocamente: a alma se estende, o corpo se emociona e entre ambos há um toque, um «contato entre dois intactos», no qual corporal e incorporal passam um ao outro sem se completarem nem preencherem mutuamente, comunicando-se no próprio contato que constitui a experiência de sentir-se.

A unidade de um ser oferecido ao exterior, simultaneamente voltado para o mundo e para si mesmo, concentra-se na experiência de sentir-se como corpo exposto ao fora, isto é, exposto a si e aos outros corpos com os quais compartilha a existência; conceber a existência de um corpo exige assim pensar o que significa «sentir-se uma existência», mas o limite inevitável de todo discurso sobre o corpo aparece justamente porque pensar não basta: é necessário experimentar, e essa experiência permanece precisamente aquilo a que o próprio texto não consegue dar lugar.