Coda

Jean-Luc Nancy, Demande: Philosophie, littérature, Paris: Éditions Galilée, 2015

I

1. Filosofia e literatura constituem uma expectativa recíproca de desejo, solicitação e insistência desesperada, esperando cada uma a verdade e também a verdade da outra, interrogando-se mutuamente sobre sua verdade e retendo-se mutuamente essa verdade, esperando-a como serviço, ajuda, exemplo, ilustração ou explicação, revelação, sabendo cada uma que nada pode esperar da outra mas persistindo nessa expectativa, pois sabe também que sua própria verdade está fora de si.

2. Cada uma sabe ainda que esse fora não se chama ciência nem religião, chamando-se antes pelo nome da outra, pairando entre elas o nome arte, verdade manifesta porém silenciosa, sendo esse fora silencioso aquilo que nenhuma das duas renuncia a dizer.

II

3. A verdade é a coisa mesma, o ser ou o outro, o existente, a aparência, o sentido, esperando cada uma delas tudo isso de uma só vez, expectativa de que tudo se apresente como tal, entendendo contudo cada uma diferentemente esse como tal.

4. A filosofia quer que a coisa como coisa seja indicada, designada, caracterizada em si mesma e, ao mesmo tempo, retire seu ser-coisa por trás ou além de qualquer significação, não sendo aqui a coisa como tal nenhuma coisa: coisa da coisidade de todas as coisas, nada, sendo do mesmo modo o sentido como tal o sentido que se dá a conhecer como sentido, não como impressão luminosa, mas impressão tal que se ilumina a si mesma como impressão luminosa, escurecendo-se com isso, já não se tratando de ver mas de ver a visão.

5. O sentido em geral será sentido verdadeiro quando puder mostrar que é sentido e assim já não remeter mais ao outro, ou a outros, o que é seu próprio ser de sentido, sendo aqui a verdade uma interrupção do sentido.

III

6. A literatura vê esse como tal como comparação, figura, imagem, forma de apresentação, tendo-se por exemplo um homem como Leopold Bloom, muito parecido a ele, composto de seus traços, primeiramente seu nome, depois sua história, pois não há nome sem história, revelando assim Leopold Bloom o homem como tal, isto é, como Leopold Bloom, o que é dizer como o homem que tem um nome e uma história, sua própria história.

7. Nesse sentido, a operação não pode parar: a verdade do homem está em Bloom, cuja verdade está no homem cuja verdade está no nome e na história de Bloom, sendo aqui a verdade a impossibilidade de interromper o sentido, ocorrendo, onde termina a história de Bloom, ou qualquer outra história, a de Dom Quixote ou a da Sra. Dalloway, apenas uma suspensão momentânea que abre e liga a outras histórias ou outras versões da mesma.

8. Continuamos assim a ver a interrupção repudiada exatamente onde é produzida da maneira mais marcante: não podendo a filosofia desistir de perseguir, continuar, retomar, tirar consequências, jamais podendo parar, mesmo e sobretudo quando se trata do fim da filosofia, cortando a literatura a narrativa em algum ponto, sempre arbitrariamente, tanto no começo quanto no fim, expondo simultaneamente a finitude da narrativa cortada e a infinitude do fluxo do qual é cortada.

IV

9. A filosofia espera incessantemente que a verdade se realize, sistema, arquitetônica, certeza, enquanto a literatura espera que ela seja perseguida, recitativo, recitação, recital, esperando contudo cada uma a outra sob a suposição de que a realização da primeira seria a narrativa completa da segunda, enquanto a perseguição infinita da segunda seria a realização da primeira.

10. Caso isso ocorresse, não haveria mais expectativa alguma, não falando mais então de literatura ou filosofia, mas de sabedoria e mito, sendo esse outro mundo, mundo que é o reverso do mundo da expectativa da verdade, não esperando mais, mas convocando ou ordenando.

11. A sabedoria realiza-se dizendo, por exemplo dizendo faça isto, não faça aquilo, afirmando e ordenando ao fazê-lo, nada pedindo, nem mesmo ser reconhecida como sábia, pois diz também que não se deve crer que a Sabedoria seja sábia: cabe a cada um ser sábio, não podendo ninguém transmitir ou explicar a sabedoria.

12. O mito fornece toda a narrativa, desde o início até mim, o Sr. Bloom, por exemplo, não havendo nada a acrescentar, nem antes nem depois, mas sendo ao mesmo tempo interminável a narrativa por continuar sendo narrada de cor, também aqui não havendo nada a esperar.

13. Filosofia e Literatura são Sabedoria e Mito que se tornaram parte da expectativa, tendo assim cada uma perdido a si mesma, ou mesmo ambas perdidas uma na outra, sendo isso uma perda, ou antes um desdobramento, ambas, ou uma pela outra e uma na outra?

V

14. A sabedoria desdobra sua verdade na medida em que pode, pois não há sabedoria nem caminho, inaugurando o caminho que não leva a lugar nenhum mas, como caminho, sempre se espera de novo a si mesmo: tanto método quanto texto narrativo.

15. O mito desdobra, tanto quanto pode, o interminável de sua narrativa e de sua verdade pela qual, longe de terminar-se na recitação interminável, se interminina no término de cada narrativa, sendo, uma vez contada a história de Ulisses, reaberta de novo por seu final, havendo outras errâncias.

16. Errância e método, método de errância, errância metódica, caminho que não é traçado mas é ele próprio o traço de um passo avançando, passo prestes a passar, prestes a despertar para si a possibilidade de uma direção, uma destinação, um desejo, apenas fazendo conhecido seu desejo, que se inventa a cada passo, embora sendo apenas o desejo do próprio passo, o que é, no fim das contas, apenas a essência do desejar, apenas desejo.

17. Um pedido de passagem: gostaria de ir até ali, em direção a tudo o que está do outro lado do lado onde estou, gostaria de partir daqui para que ali se tornasse aqui para mim, e dali partiria de novo, gostaria de atravessar o rio, a montanha, o mar, gostaria eu mesmo de passar, gostaria de olhar-me por cima, de dispensar-me.

18. Peço educadamente, sem violência, mas não nos enganemos: gostaria significa quero, sendo a própria vontade, a vontade da vontade: expectativa de eternidade, eterno retorno do mesmo passo cujo traço fugidio atesta que alguém está passando ali.

19. Isso é tudo o que pedimos, esquecendo-se filosofia, literatura, mito, sabedoria, esquecendo-se conhecimento e crença, havendo apenas uma expectativa: quero passar, não quero ser nem saber, quero passar e sentir-me passando, ou você, dá no mesmo.

20. Talvez a expectativa deva dividir-se antes de poder ser ouvida, da filosofia à literatura e da literatura à filosofia, devendo sem dúvida expor-se assim porque não tem resposta, esgotando a resposta a expectativa, mas esperando sempre de novo a si mesma, reesperando-se, compondo sua repetição, seu duplo, mantido entre o curso do dizer, discurso, e sua erupção ou suspensão, o anúncio, o chamado, aquela manhã…, uma oração, uma súplica que parece esperar o sentido mas já sabe, irresistivelmente, que forma todo pedaço de sentido proferido no mundo.

21. Nem sequer uma oração, mas simplesmente a chegada interminável do sentido que se confunde com sua própria expectativa.

22. A obra aqui reunida está dispersa, como as circunstâncias determinaram, ao longo de trinta e cinco anos, tendo cada texto sua própria idade, tendo sido incluídos aqueles relacionados à literatura, com exceção dos estudos dedicados à análise, sobredeterminada nesse contexto, de certas obras individuais, especificamente as de Jean-Christophe Bailly, Philippe Beck, Michel Deguy, Gérard Haller, Philippe Lacoue-Labarthe, Roger Laporte, Pascale Quignard, William Shakespeare e Catherine Weinzaepflen.

23. Expressa-se profunda gratidão a Ginette Michaud, que gentilmente tomou a iniciativa desta coletânea e foi responsável pela preparação da maior parte dos textos aqui reunidos, tendo o volume final sido organizado e arranjado, com igual amizade e atenção, por Cécile Bourguignon, agradecendo-se especialmente a Elisabeth Rigal, que autorizou a republicação de O Cálculo do Poeta, publicado inicialmente em 1997 em Des lieux divins.