Jean-Luc Nancy, Demande: Philosophie, littérature, Paris: Éditions Galilée, 2015
Sobre a Obra e as Obras
I
1. Vista de um ponto de vista sem dúvida questionável, mas que devemos ocupar por ora, pode-se dizer que a ideia de obra incomoda, irrita e excita toda a história de nossa cultura, assumindo lugar de destaque num modo inquieto de pensar a realidade, isto é, um modo de pensamento no qual o real já não é garantido nem por sua certeza sensível nem por seu impulso rumo a um intelecto que, no fim das contas, não seria mais que essa própria certeza.
2. Ao contrário, é através da disjunção entre presença sensível e um fôlego retido atrás dela que somos mais ou menos forçados a representar o movimento constituinte de nossa tradição, deparando-nos daí com a questão da consistência do real e sua proveniência, ou a questão de sua efetividade e, portanto, de sua efetuação, sendo o real, como efeito e como efetivo, o pano de fundo da obra e, com ela, as questões envolvidas na possibilidade de trabalhá-lo em forma, de implementá-lo, isto é, na realização do real: questões tanto sobre a criação do mundo quanto sobre a produção humana.
3. Em grego, o ergon é o trabalho produtivo e o produto do trabalho que culmina em energeia, o real posto em ato no qual uma potência inerente, uma dynamis, se atualiza, traduzindo o latim ergon por opus, de onde derivamos oeuvre, sendo a obra um ato no sentido em que actus, cumprimento, é o particípio passado do latim ago e, portanto, designa uma ação realizada ou concluída, que chegou a seu fim, sua finalidade, o que Aristóteles traduz como entelecheia, acrescentando à energeia a ideia de telos, um fim completado.
4. A obra traz consigo o motivo da produção, que carrega uma tripla implicação: a da ação produtiva, a do agente produtor e a do ato produzido, tendo o curso de nossa cultura, cultura contemporânea, isto é, subsequente ao crescimento simultâneo da tecnologia, da democracia e do capitalismo industrial, passado a ver a existência humana e, tendencialmente, a do próprio mundo, como resultado da produção humana dessa existência.
5. Agente, ação e ato se conjugam na autoprodução de um real cuja essência é sua própria existência, à qual se atribui assim um valor absoluto, o próprio valor, removido de qualquer avaliação de uso e troca, consistindo em nada além da capacidade, ou mais apropriadamente da dignidade, essa palavra imponente encontrada em Kant e nos direitos do homem, de uma energia autoprodutiva ou numa operatividade geral, tanto ontológica quanto axiológica.
6. A essa autoprodução, que também pode ser entendida como autoprodução na obra e como obra de seu sujeito, autor, ator, agente, responde o que poderíamos chamar autofinalidade: a obra se realiza como seu próprio fim, sendo a efetividade do produto também a efetividade da produção e do produtor, sendo esse o sentido total ao qual se aplica a essência do provérbio Finis coronat opus, o fim coroa a obra.
II
7. É assim que, hoje, a noção mais comumente aceita de obra passou a ser identificada, tendo surgido, dentro do campo semântico muito amplo do termo, que vai de léxicos específicos, como os associados à alquimia, à justiça ou à arquitetura, a todos os registros possíveis de operação, realização ou execução, a partir do século dezenove, um sentido que poderíamos considerar privilegiado e que se encontra na expressão obra de arte.
8. Essa expressão passou a ressoar como tautológica, podendo obra referir-se, absolutamente, a um produto ou a todos os produtos da atividade de um artista, sendo o romance de Zola, L'oeuvre, dedicado, num certo sentido, a esse uso, enquanto Balzac, em 1831, usava a expressão chef-d'oeuvre como termo derivado do mundo do artesanato, não sendo os dois termos equivalentes, permanecendo o segundo mesmo depois de o primeiro ter assumido um valor que passou a assemelhar-se ao dele.
9. Hoje, o valor enfático e absoluto de obra subsiste no uso corrente, seja na crítica literária ou de arte, seja num uso acadêmico que supõe estarmos demonstrando de bom grado nossa estima por um jovem pesquisador ao dizer que é um corpo sólido de obra, destacando-se com isso diferença significativa em relação ao que representa o termo trabalhos, por mais rico que seja.
10. E, contudo, um tanto paradoxalmente, o uso da palavra quase desapareceu inteiramente da linguagem empregada nos meios artísticos, onde preferimos hoje falar do trabalho de um artista sempre que não temos um termo específico à mão, como livro em literatura ou filme em cinema, embora, sempre que precisamos caracterizar a unidade e completude de todo um corpo de trabalho, falemos do corpo de obra de Ozu ou de Ford.
11. Há assim uma tensão silenciosa que trabalha o uso e o sentido de oeuvre, sabendo-se claramente o que está envolvido: de um lado, a palavra reuniu em si toda a força da realização efetiva desse tipo de produção para o qual reservamos, quase ao mesmo tempo que a história, a concentração muito particular da palavra arte tomada em seu sentido absoluto, isto é, destacada dos valores distintos dos vários tipos de saber-fazer que constituíam as artes mecânicas e liberais, os ofícios especializados e as belas-artes.
12. A obra se enche desse tipo de cumprimento, que transborda qualquer forma de artesanato ou técnica que uma arte dissociada de qualquer propósito de transmissão, representação ou celebração de um conteúdo de pensamento histórico, religioso, político ou moral pretendia realizar, contornando a obra a efetuação de uma realidade que, de um modo ou outro, supera qualquer outro real da natureza ou da produção, produzindo-se muito mais que a humanidade; antes, é na obra e como obra que a humanidade se produz além do humano, demasiado humano, acrescentando a obra uma efetividade ou energia excessiva ao mundo.
13. De outro lado, essa mesma carga hiperbólica na obra a impulsionou além de si mesma, ao menos como representação de uma efetuação cumprida e da entelequia assegurada de seu fim final, podendo-se datar esse excesso, que desta vez é o excesso da obra em relação a si mesma, do momento, 1923, em que Joyce adotou a expressão work in progress para caracterizar, até para intitular, Finnegans Wake, caracterizando a expressão o livro não apenas como texto sempre em progresso mas também como obra cuja leitura pode indefinidamente retornar ao início a partir do fim, não terminando de um modo ou outro a obra, e desmentindo essa incompletude a garantia de cumprimento e um fim alcançado.
III
14. Desde Joyce, sabemos quantas formas a afirmação do não cumprimento da obra pôde assumir, até a afirmação da essência da obra em seu não cumprimento, em sua abertura ou em seu desobramento, ainda que a obra tenha sido confrontada com essa outra modalidade de incompletude ou desestabilização representada por sua reprodutibilidade técnica, desestabilizando-se ao mesmo tempo o autor como figura do agente ou produtor da obra, tendo além disso seu poder operativo como gênio, bem como sua expressão, senão sua hierofania, nas várias formas da obra, perdido seu brilho e sua magia.
15. De todas essas maneiras, a obra é danificada em ambos os sentidos do termo: é degradada em sua insistência monumental sobre a realização e renunciou à edificação de um real arquitetônico no lugar de, ou acima de, o real ordinário imperceptível, sendo antes este último que tomou seu lugar numa mimese e methexis da existência trivial inconsistente, inconstante e inconsciente das coisas e figuras de um mundo tendendo à insignificância.
16. A obra foi substituída pela manobra de um autoengendramento de impressões, combinações formais, maneiras de dizer que não há nada a dizer, ou ao menos nada que pudesse ser enunciado como a fórmula de uma verdade cumprida, não tendo, nesse sentido, a obra e todas as lógicas e simbólicas da produção, autoprodução ou engendramento de um mundo ocupado por muito tempo o lugar que de fato haviam sido encorajadas a ocupar mas que não era outro senão o lugar de Deus, que ele mesmo, desde o tempo de suas elaborações metafísicas, havia sido representado como a imagem da energia produtiva.
17. A morte de Deus é a morte da produção, e é por pura falta de inventividade que ainda não iluminamos com luz diferente a sombra que cresce diante de seu túmulo; ao contrário, chapinhamos numa produtividade que só pode reproduzir ainda mais sua falta de fins.
18. Não obstante, não lamentamos a obra, supondo que fosse apenas um substituto de Deus, sem dúvida ainda mais decepcionante que o próprio Deus, tendo aprendido algo mais, outra realidade da obra: não seu cumprimento mas sua operação, não seu fim mas sua infinitude, não sua entelequia mas sua energia como ato de uma dinâmica que não pode ser absorvida num produto, mesmo que fosse a humanidade, mas que atualiza sua tensão, sua vibração e, por que não dizê-lo, sua vida.
IV
19. A vida da obra pode ser algo além de um clichê, consistindo a vida, se consiste na tarefa de não cessar de ser, como escreveu Juan-Manuel Garrido, e se, para cumprir isso, encena continuamente a diferença entre vida e morte, diferença na qual se manifesta para que seja, para que viva, vivendo a obra na medida em que continua a expor a diferença dentro dela mesma de sua perseguição e cessação de ser.
20. A obra completada, opus operatum, por definição conclui sua operação, continuando esta, contudo, no opus operans, já não sendo a obra no sentido de sua execução completada e manifestação plenária, embora isso não exclua de modo algum essa plenitude.
21. É sem dúvida necessário que uma obra seja completada para que possa manifestar em seu cumprimento aquilo que a excede, ou melhor ainda, para que manifeste seu cumprimento como sua própria superação, superando uma vida, no momento da morte, a si mesma, às vezes em outras vidas, que podem ser as vidas dos vivos ou até as vidas de obras, ou mesmo, já que, como diz Proust, por mais longe que brilhem as obras dos homens nas gerações futuras, ainda assim é preciso que haja homens, nem ser vivo nem obra mas a simples afirmação de que essa vida viveu, foi vivida, lutou para ser e para dar origem ao evento dessa diferença.
22. Do mesmo modo a obra, mesmo em seu cumprimento, pode abrir-se a outras obras e outros autores de obras, mas pode também, excedendo a duração das gerações humanas ou até esgotando-as, superar seu próprio feito na afirmação da existência dessa tensão para ser e para dar origem ao evento encenador.
23. Num certo sentido, não há mais nada a dizer sobre essa história sem historicidade, que nos trouxe trinta mil anos de obras encenadas desde as pinturas nas cavernas paleolíticas até hoje, tendo em mente que não temos documentos, possivelmente mais antigos, sobre dança, música e, por que não, até poesia, sendo a vida dos homens indistinguível da das obras, e vivendo estas na medida em que buscamos não apenas fazer de nossa vida uma obra de arte mas também permitir que a vida crie através de nós, até fora de nós, suas obras de vida e morte.
24. Essa sucessão de obras revela sua falta de um fim, de cumprimento, através do fim renovado de cada uma delas, de cada um dos modos e meios pelos quais renovam a mesma e sempre diferente energia que, uma vez alcançado seu cumprimento, obra-prima ou grande obra, duplo modelo artesanal e alquímico de toda operação, se separa para revelar que aquilo que realiza, aquilo que atualiza, é sempre de novo sua dynamis, seu poder, que como toda força só se exerce no jogo de uma diferença de forças, sendo a obra assim sempre a implementação de uma diferença entre si e si mesma pela qual sempre se moverá além de si mesma.
V
25. A obra avança tantas vezes quanto vem de trás: não projeta sua realização como se projetaria uma planta, uma antecipação determinada de seu cumprimento, assim como esta não será a verdade da obra, tampouco sua produção, supondo a palavra aqui não ser problemática, ou realização, ou sua operação, será associada à predição, nem sequer estritamente falando, do projeto.
26. Há sempre um transbordamento que excede a expectativa, assim como há sempre um tatear que escapa a qualquer cálculo, transbordando assim a obra para trás através da manobra que se aproxima hesitantemente da obra e que ela ignora, e para frente através do desobramento que retira a obra do cumprimento, onde ela é contudo completada mas também arruinada.
27. Não obstante, isso não impede que a manipulação desse comentário irônico sobre as boas obras não seja simples em todos os aspectos, pois a expressão nos leva ao mesmo tempo a uma longa série semântica que a religiosidade exagerada de todo tipo de obras pias reduziu à figura de um opus dei, devendo contudo ter em mente que obras, os erga da koiné posteriormente transcritos como opera, referiam-se à ação efetiva em oposição à chamada disposição espiritual da fé.
28. São Paulo enfatizou que obras sem fé permaneciam sem valor; Tiago contrapôs a isso firmemente a primazia das obras e, muito especificamente, das chamadas obras de amor, não precisando entrar nesse debate aqui, exceto para apontar que na operação da obra a fé, isto é, a confiança naquilo que deve exceder toda expectativa, é inseparável da ação que trabalha, manipula e desfaz sem trégua.
29. Além disso, de Agostinho a Lutero sempre soubemos que as obras são elas mesmas amor e fé, e além disso não são nossas mas os efeitos da graça, sendo aquilo a que chamamos boas obras o resíduo lastimável de uma longa genealogia na qual a efetividade do agir prevaleceu, desde o início e por muito tempo, antes de perder-se na confusão de gestos prescritos, boas obras e afetação.
30. Misturada a isso encontramos a significação da implementação prática, especialmente arquitetônica: toda catedral estava ligada a um escritório no local, uma maison de l'oeuvre, que assumia responsabilidade por um conjunto de problemas sociais e financeiros associados ao canteiro de obras, resultando isso na obra ou nos bens, tal como entendidos pelo conselho administrativo de um edifício religioso.
31. Ao mesmo tempo, a obra torna-se o nome de uma entidade para formas específicas de apoio e assistência, como as várias formas de obra missionária, bem como, muito mais tarde e agora secularizadas, vários tipos de obra socialista como a obra de construção de banhos públicos baratos em Paris, ou a obra de distribuição gratuita de livros, tendo sido nomeado um importante jornal, iniciado em 1904, L'Oeuvre, numa condensação absoluta do valor de serviço a uma causa.
32. A obra assim entendida representa a energia devotada a uma causa que convoca mas, ao mesmo tempo, supera todas as realizações possíveis.
VI
33. É nesse sentido que na operação da obra não há distinção entre fé e obras, nenhuma diferença entre uma disposição assegurada e suas realizações, sendo, como na tradição espiritual mais forte, as obras de fé ou as de amor, sendo as mesmas, nada além do exercício e efetividade da fé e do amor, seguindo as obras daquilo que chamamos arte ao menos a mesma lógica formal, mesmo que não abriguem conteúdo verdadeiro.
34. Na verdade, é precisamente uma confiança que se realiza; uma fidelidade que se confirma na ação, não como apoteose de um cumprimento, que já não teria de ser fiel a nada, mas como a tensão jamais resolvida, jamais satisfeita, de uma confiança cujo objeto não pode ser garantido.
35. O que é esse objeto? Algo como um sentido incomum, imprevisto, possivelmente inaudível, cujas premissas e expectativas vêm de bem dentro da obra, de seu autor e de todas as suas circunstâncias, pois se trata de nada menos que a totalidade de um mundo ou até, o que dá no mesmo, de uma língua inteira que busca fazer ouvir uma voz incomum, a da novidade do mundo, sendo Hamlet, a Grande Fuga, ou a Senhora Cézanne na Estufa, cada um deles uma nova expressão e uma expressão de novidade, da mesma energia sempre renovada, relançada, reaberta.
36. O que novidade significa não é algo nunca visto antes que a obra subitamente traz à luz, é a possibilidade de ver, de compreender, ou, no sentido mais amplo, de dizer, sendo essa possibilidade nova naquilo que apenas ela contém, a linguagem que a torna decifrável como fala, sendo essas palavras tomadas daquelas usadas por Foucault para caracterizar a obra como aquilo para o qual a loucura fornece a forma vazia e a ausência na medida em que ambas partilham o caráter de fala que se enrola sobre si mesma.
37. Na loucura, esse envolvimento é fechado e excluído da significação; na obra, desloca as significações recebidas por meio de significâncias desconhecidas, não sendo contudo o desconhecido, assim exposto, um conhecido por vir que seria o fim da obra, mais que a significância seja significação potencial, sendo exatamente aqui que a atualidade entra em jogo, a encenação e o pôr-em-energeia de uma dynamis que permanece dynamis.
38. A operação da obra consiste na revelação a si mesma, bem como a seu autor e a seus receptores ou amadores, de sua própria abertura e de sua própria superação, reinvestigamos Hamlet ou a Grande Fuga, continuamos a interpretá-los de novo; olhando para a Senhora Cézanne, continuamos a nos perguntar sobre a luz que mancha de branco e quase rasga seu vestido azul-escuro em meio a flores cujo rosa-acastanhado se reflete em suas bochechas.
39. A própria vida vive sobre essas bochechas, vive por causa dessas bochechas, por causa do movimento do arco sobre as cordas, não podendo viver de outra forma.