NANCY, Jean-Luc. Le plaisir au dessin. Paris: Galilée, 2009.
Prefácio à edição em língua inglesa
Desenho: essa palavra, em inglês, sugere extrair, estender e retirar. Pode-se traçar uma linha e tirar uma lição. Em francês, pode-se tirar [tirer] uma linha ou uma lição, mas é impossível desenhar [dessiner] uma lição. Ou, antes, desenhar uma lição em francês significa algo inteiramente diferente de «drawing» it. Seria dar-lhe uma ilustração, uma representação visual de seu conteúdo, como quando Platão pede ao leitor que trace mentalmente uma linha que será então dividida em segmentos proporcionais, a fim de compreender melhor a relação entre o sensível e o inteligível.
Em francês, desenhar uma lição é fazê-la ver, mostrá-la e apresentá-la a uma apreensão intuitiva. Tirar uma lição é recolher os ensinamentos extraídos de um acontecimento específico que não é, ele próprio, uma lição: por exemplo — e novamente a partir de Platão —, concluir, das qualidades morais de Sócrates, que a feiura física pode abrigar uma riqueza de ideias.
Mostrar, concluir, ostensão, inferência: gestos que, com efeito, convergem por intermédio de uma ou outra ponta fina, seja ela a ponta de um estilete, de um dedo ou de um espírito.
Isso, contudo, não significa que esses termos e sua tradução em diferentes línguas acabem por se sobrepor uns aos outros. Ao contrário — sabe-se bem que nunca há homotetia entre as línguas, e é precisamente essa ausência que confere à tarefa da tradução seu caráter ao mesmo tempo prazeroso e perturbador. Quando se lê drawing em inglês, sabendo que se deveria pensar em dessin, sente-se levado para muito longe, sobre um mar de complexidade, ao mesmo tempo que se sabe que haverá algo a descobrir, uma ilha de sentido ou mesmo apenas uma corrente ou uma zona turbulenta.
É também por isso que se experimenta tamanha gratidão por quem segura o leme dessa perigosa navegação — neste caso, pelas firmes mãos de Filipe Armstrong. À margem do oceano, Helena Tartar dispõe balizas e marcos para o desembarque.
Entre extrair e mostrar — um contato assintótico — há algo a descobrir. Mostrar, fazer ver algo, designar — designare — é também aquilo que acompanha a demonstração por meio da qual se tira uma conclusão ou uma lição. Traça-se — delineia-se ou extrai-se — para mostrar. Mostra-se estendendo ou desdobrando diante de si. Melhor: para mostrar bem alguma coisa, para torná-la plenamente manifesta, é preciso não cessar de traçar, ainda que apenas para chamar a atenção; e, para extrair — traçar ou puxar —, é preciso não perder de vista a extremidade invisível do traço, o ponto pelo qual a linha avança e se perde para além de si mesma em seu próprio desejo.
O gesto de mostrar estendendo — estender para mostrar ou trazer à luz, extrair da sombra ou de uma massa compacta o lineamento e a incisão de uma forma, de um contorno, de um sentido ou de uma ideia — é o gesto de existir.
Um esboço (Entwurf), diz Heidegger, termo do qual se retém sobretudo o sentido de lançamento (werfen — «lançar, arremessar»), de projeção em direção àquilo que continua por vir, deixando-se na sombra o valor do traço, do delineamento, da forma no processo de formar-se.
Existir é esboçar-se. Gostar-se-ia de escrever s’exquisser — abrir-se para uma forma que se mostra no movimento de sua emergência. Ninguém consentiria em viver se não experimentasse esse desejo — abrir-se ao desejo de deixar-se desenhar para fora.
J.-L. N.
Agosto de 2012