NANCY, Jean-Luc. Corpus. Edition revue et complétée. Paris: Métailié, 2006.
Prefácio à edição em espanhol
1. Res extensa e res cogitans — coisa extensa e coisa pensante — não constituem duas coisas simplesmente justapostas, estranhas, exclusivas ou opostas, pois a distinção cartesiana entre a substância composta de partes exteriores umas às outras e a substância sem partes, reunida em relação a si no sentir, conceber, julgar, querer, imaginar e amar, visa precisamente estabelecer a independência de suas respectivas realidades para tornar pensável sua união substancial, que não constitui uma terceira coisa, mas a união das duas únicas res, posteriormente retomadas por Espinosa como atributos da substância única.
2. A união substancial torna-se concebível quando se reconhece que a coisa pensante, por não possuir extensão nem exterioridade em relação a si mesma, pode misturar-se à coisa extensa em todos os seus pontos, de modo que o cogito, embora pontual e estranho à exterioridade, opera em cada ponto do corpo e adquire assim uma extensão ou materialidade singular, correspondente à propriedade paradoxal de estar «em parte alguma» ou de ser uma parte nula presente em todas as partes.
3. A coisa extensa, reciprocamente, não permanece exterior nem estranha à coisa pensante, mas constitui o próprio lugar e exercício de sua relação consigo, pois, para relacionar-se consigo mesma em suas operações, a coisa pensante precisa abandonar sua pura pontualidade, estender-se e desviar-se de si sem verdadeiramente dividir-se, retornando então a si mediante um fora, de modo que somente pela exterioridade pode constituir-se uma interioridade e uma egoidade, sendo o «dentro» desde o início formado pelo desvio para fora e aberto propriamente a partir do exterior.
4. Sentir significa ressentir em si ou para si o efeito sensível de algo proveniente do fora, o que somente se torna possível mediante um movimento no qual se vai ao contato desse exterior e se está fora de si para poder estar em si; mesmo na dúvida mais radical, é ainda um último vestígio da representação do fora, ainda que fantasmático ou onírico e submetido à mais severa dúvida quanto à sua realitas, que possibilita a relação consigo na evidência do ego sum.
5. Desde sua própria enunciação, o ego já se separa minimamente de si, assim como um corpo separa os lábios para pronunciar «eu sou», e essa mínima separação significa que, ainda que nada mais houvesse no mundo, permanece uma coisa real capaz de distinguir-se de si para pôr-se, constituindo-se em sua própria distinção pontual mediante o mínimo desvio necessário para relacionar-se consigo mesma.
6. O corpo encontra-se assim implicado no cogito de maneira paradoxal como seu próprio desdobramento, isto é, como sua exterioridade ou exposição, sem a qual sua simples posição não seria possível, de modo que o corpo somente é estrangeiro ao espírito na medida em que essa estrangeiridade e essa estranheza se inscrevem no próprio coração da intimidade egoica e possibilitam simultaneamente a relação consigo e a relação com o mundo, duas relações que permanecem inseparáveis.
7. A substância extensa constitui a extensão e a exterioridade da substância pensante, que não poderia constituir-se como interioridade sem esse fora, razão pela qual deve ser abandonado o esquema de oposição entre interior e exterior em favor de um único existente considerado ora segundo sua pontualidade, ora segundo a exposição dessa pontualidade, na qual o ponto de coincidência consigo se repete indefinidamente através das dimensões em que exerce sua propriedade de sentido — sentir, assentir e ressentir —, fazendo do ego o ponto de sentido simultaneamente incalculavelmente multiplicado e sempre idêntico em sua retirada inextensa dentro da configuração linear, volumosa, motriz e plástica chamada corpo; mais precisamente, o ego é o «um» de «um corpo», enquanto o corpo constitui o sentido desse «um», sem o qual ele se aboliria na nulidade de sua própria inextensão.