7 Alteridade

NANCY, Jean-Luc. Corpus. Edition revue et complétée. Paris: Métailié, 2006.

Alter

55. Ego forma também o obstáculo absoluto ao corpo, à vinda de um corpo: o ponto de ego de um corpo que (se) enuncia, isto é, que (se) estende, forma também, identicamente, mas com contrariedade, um ponto de concentração extrema onde o que se estende e se enuncia ofusca também a extensão, o corpo que é, retrincheirando-se ego enunciado no instante de ego enunciante — identidade retrincheirada, idêntica ao seu próprio retrincheiramento.

56. O corpo é sempre “objeto”, corpo ob-jetado precisamente à pretensão de ser corpo-sujeito, sendo Descartes verídico também nesse sentido: objeto-me meu corpo, coisa estrangeira, estranha, exterioridade à minha enunciação (“ego”) dessa própria enunciação, ou ainda, Hegel: “o espírito é um osso”, diz ele a respeito da conformação do crânio humano, isto é, o osso escapa ao espírito, resiste-lhe, contraria-o com uma objeção impenetrável.

57. Hoc est enim corpus meum é uma apropriação impossível, a própria impossibilidade da apropriação em geral: do “eu” não há nenhum estendido, pois desde que eu é estendido, é também entregue aos outros, sendo um corpo sempre objetado do exterior, a “mim” ou a outrem, sendo os corpos primeiro e sempre outros — assim como os outros são primeiro e sempre corpo.

58. Ignorarei sempre meu corpo, ignorar-me-ei sempre como corpo lá onde “corpus ego” é uma certeza sem reservas; os outros, ao contrário, saberei sempre como corpo, sendo um outro um corpo porque só um corpo é um outro — tem este nariz, esta tez, este grão, este tamanho, este vinco, pesa este peso, tem este cheiro, sendo por que é assim e não outro porque é outro, consistindo a alteridade no ser-tal, no sem-fim do ser tal e tal deste corpo, exposto até suas extremidades.

59. A objeção toca: este corpo, este traço, esta zona deste corpo me toca (toca “meu” corpo) — agrada-me ou desagrada-me, mas terá sempre vindo de mais longe que qualquer outra coisa do outro, vindo na própria vinda do outro, sendo outrem vindo primeiro, do mais longe, num corpus de traços que acaba por se identificar a “ele” e que, no entanto, permanece nele mesmo inidentificável, pois esses traços são todos estranhos uns aos outros, fazendo todos corpo e sendo, no entanto, deslocados juntos.

60. Até o ponto em que se torna claro que “outro”, “outrem” não são sequer as palavras justas, mas apenas “corpo”: o mundo ao qual nasço, morro, existo, não é o mundo “dos outros”, já que é igualmente o “meu”, sendo o mundo dos corpos, o mundo do fora, o mundo dos foras, o mundo sem dentro-fora, sem cima-baixo, o mundo da contrariedade, o mundo do encontro — encontro imenso, interminável, sendo cada corpo, cada massa retirada de um corpo, imenso, isto é, sem medida, infinito a percorrer, a tocar, a sopesar, a olhar.

61. [Retomando a linha do texto sobre a visão] Por que há isto, a visão, e não algo que misture o ver e o ouvir, perguntando-se por que essa visão que não vê os infravermelhos, essa audição que não ouve os ultrassons, por que há a cada sentido limiares e entre todos os sentidos muros, não sendo os sentidos universos separados, ou a deslocação de todo universo possível?

62. Hoc est enim: este mundo aqui, aqui-jazente, com sua clorofila, sua galáxia solar, suas rochas metamórficas, seus prótons, sua dupla hélice desoxirribonucleica, seu número de Avogadro, sua deriva dos continentes, seus dinossauros, sua camada de ozônio, as listras de sua zebra, sua besta humana, o nariz de Cleópatra, o número de pétalas da margarida, o espectro do arco-íris, a maneira de Rubens, a pele da serpente píton, a figura que faz André nesta foto de 16 de janeiro — perguntando-se por que não também sentidos que não se nomeiam, um sentido da duração, do tempo que passa, do próprio espaçamento dos sentidos, da ex-tensão pura ou da ex-istência.