2 Seja escrever o corpo

NANCY, Jean-Luc. Corpus. Edition revue et complétée. Paris: Métailié, 2006.

13. Escrever não do corpo, mas o corpo mesmo — não a corporeidade, nem os signos, imagens ou algarismos do corpo, mas ainda o corpo — foi, e sem dúvida já não é, um programa da modernidade, restando hoje apenas a necessidade urgente diante de um mundo em que poucos corpos circulam livremente numa parte e onde no resto só há corpos, sempre mais numerosos, frequentemente famintos, abatidos, feridos, e às vezes risonhos e dançarinos.

14. O corpo nos vem assim do mais longe, sendo o horizonte sua multidão que chega, e escrever é tocar a extremidade: não é possível responder à pergunta “como tocar o corpo” como a uma demanda técnica, pois escrever não é significar, mas tocar o corpo acontece o tempo todo na escrita, na borda, no limite, na ponta da escrita, tratando-se de tocar o corpo com o incorpóreo do “sentido”, tornando assim o incorpóreo tocante.

15. Não se trata de traficar com os limites nem de evocar traçados que viriam se inscrever sobre os corpos: a escrita toca os corpos segundo o limite absoluto que separa o sentido, de um lado, e a pele e os nervos, de outro — nada passa, e é aí que toca.

16. Os “corpos escritos” — incisados, gravados, tatuados, cicatrizados — são corpos preciosos, preservados como os códigos de que são engramas gloriosos, mas isso não é o corpo moderno que nos vem nu, de antemão excrito de toda escritura, sendo essa excrição de nosso corpo — sua inscrição-para-fora, sua colocação fora-do-texto como o movimento mais próprio de seu próprio texto — o que é preciso primeiramente atravessar, não sendo mais uma “queda”, já não tendo alto nem baixo, mas estando o corpo todo em limite, em borda externa, sem que nada o feche novamente.

17. Ignoramos que “escrituras” ou “excrições” se preparam a vir desses lugares, quais diagramas, retículos, enxertos topológicos, geografias das multidões, vindo o tempo de escrever e pensar esse corpo no distanciamento infinito que o faz nosso, que o faz vir de mais longe que todos os nossos pensamentos: o corpo exposto da população do mundo.