Desconstrução do monoteísmo

NANCY, Jean-Luc. La déclosion. Paris: Galilée, 2005.

A mundialização torna impossível que o Ocidente continue a compreender-se como uma região particular dotada de uma visão própria do mundo, pois a tecnociência, a democracia, o direito, as formas de argumentação e representação e, sobretudo, a economia capitalista disseminaram mundialmente estruturas provenientes de sua história, ao mesmo tempo que o humanismo que deveria acompanhá-las desemboca na inumanidade de um mundo governado pela acumulação, pela circulação do capital, pelo aprofundamento das desigualdades e por uma expansão técnica incapaz de conferir a si mesma outra finalidade que sua própria continuidade.

1. O primeiro caráter autodesconstrutor do cristianismo encontra-se no próprio princípio do monoteísmo: o monoteísmo é, em sua verdade, ateísmo, porque a unicidade de Deus não significa simplesmente redução numérica de muitos deuses a um, mas retirada do divino para fora da presença e da potência mundanas, culminando no cristianismo na figura de um Deus cuja própria divindade se realiza no esvaziamento, na ausência e no abandono da potência.

2. O segundo caráter autodesconstrutor é a desmitologização, pela qual o monoteísmo e particularmente o cristianismo desenvolvem uma história de auto-interpretação que progressivamente traduz narrativas, personagens e acontecimentos religiosos em determinações da própria condição humana, de modo que a religião tende a apagar seus signos distintivos e sua sacralidade em favor da razão, da liberdade, da dignidade, da relação com o outro e, finalmente, de uma ética universal dos direitos humanos.

3. O terceiro caráter autodesconstrutor consiste no fato de o cristianismo constituir-se explicitamente como composição histórica e teórica, surgindo simultaneamente de uma proveniência e de um afastamento do judaísmo, de uma apropriação da filosofia grega e greco-romana e de uma relação complexa com o islamismo, ao passo que seu núcleo dogmático da encarnação obriga o monoteísmo a explicitar internamente a relação entre transcendência divina e existência humana.

4. O quarto caráter autodesconstrutor consiste em que o cristianismo é menos uma doutrina estabilizada do que um sujeito em relação consigo mesmo, continuamente entregue à procura, à inquietação e à expectativa de sua própria identidade, enquanto a estrutura cristã do sujeito faz do relacionamento consigo uma relação infinita que temporaliza a presença, introduz a história e impede que o si coincida definitivamente consigo mesmo.

5. O quinto caráter autodesconstrutor consiste no processo incessante de autorretificação e autossuperação pelo qual o cristianismo, desde seus primeiros conflitos internos até as sucessivas Reformas e inclusive até sua crítica nietzschiana, procura continuamente uma origem mais pura ao mesmo tempo que oscila entre uma poderosa lógica de domínio teológico, econômico e político e uma exigência inversa de despojamento, abandono de si e possível autoesvanecimento.

Pós-escrito (fevereiro de 2002)

Os acontecimentos de 11 de setembro de 2001 tornam ainda mais manifesta a necessidade de desconstruir a estrutura do Um que atravessa as formas religiosas, políticas e econômicas contemporâneas, pois o conflito mundial não pode ser explicado por uma simples instrumentalização externa das religiões nem como “choque de civilizações”, mas deve ser compreendido a partir da contradição entre uma universalidade abstrata do capital tecnocientífico e uma mobilização igualmente unitária do monoteísmo, ambas reivindicando de maneiras opostas a Unidade, a Unicidade e a Universalidade.