Ateísmo e monoteísmo

NANCY, Jean-Luc. La déclosion. Paris: Galilée, 2005.

Ateísmo e monoteísmo

1. O ateísmo não constitui simplesmente uma negação moderna da religião, mas uma invenção especificamente ocidental por meio da qual o próprio Ocidente se constitui, desde a Grécia, quando o mundo deixa de ser determinado pela presença dos deuses e passa a ser pensado segundo princípios cuja racionalidade exige que o dado forneça sua razão, de modo que a invenção do ateísmo é contemporânea e correlativa à invenção do teísmo e ambas pertencem ao mesmo paradigma do princípio.

2. A oposição aparentemente simples entre teísmo e ateísmo oculta sua pertença ao mesmo regime principial, pois o ateísmo, ao negar o princípio divino concebido como causa primeira e fim último do mundo, conserva a própria estrutura do princípio, seja transferindo causa e finalidade para uma ordem imanente, seja tentando eliminá-las, sem ter ainda alcançado positivamente uma forma de pensamento anaitiológica e ateléológica capaz de pensar uma finitude sem fim.

3. A época contemporânea gravita em torno do “sol negro” do ateísmo porque ao desmoronamento do princípio — consumado entre sua deposição kantiana e seus funerais nietzschianos — ainda não correspondeu uma apreensão inteiramente nova do vazio produzido, de modo que o ateísmo continua funcionando como horizonte negativo e, portanto, como limite, quando seria necessário pensar uma finitude que, em vez de limitar a infinitude, lhe dê expansão e verdade.

4. O monoteísmo não oferece remédio nem salvação para o niilismo, pois enquanto reduz o divino a princípio e subordina o mundo à dependência desse princípio ele constitui antes a confirmação teológica do próprio ateísmo, embora sua história — particularmente na conjunção entre ateísmo grego e monoteísmo judaico que forma o cristianismo — revele uma duplicidade interna pela qual o deus único tanto consolida quanto desestabiliza a lógica da principialidade.

5. A duplicação entre monoteísmo e ateísmo deve ser compreendida a partir da heterogênese que atravessa a própria lógica do princípio, pois o encontro entre ateísmo grego e monoteísmo judaico produziu simultaneamente uma assimilação do Deus único à unidade principial — conduzindo cristianismo, humanismo, ateísmo e niilismo uns aos outros — e uma resistência da unicidade divina à própria ordem do princípio, abrindo no interior dessa história a possibilidade de uma configuração anárquica fundada na criação sem razão, na santidade como alteridade e na fé como fidelidade racional àquilo que excede a razão.

Coda

6. A afirmação heideggeriana segundo a qual “somente um deus ainda pode nos salvar” deve ser interrogada filosoficamente não como retorno à crença religiosa nem como promessa de cura, mas como indicação de que o “salvar” acontece no próprio abismo e de que o “último deus”, enquanto fazer-sinal sem significado a partir do acontecimento apropriador (Ereignis), assinala uma ultrapassagem da identidade humana na qual a razão se mantém fiel àquilo que a excede sem convertê-lo em princípio, saber ou crença.