4 Mãos

NANCY, Jean-Luc. Noli me tangere. Paris: Bayard, 2003

1. Ao privilegiar o tocar, as traduções latinas e modernas conduzem necessariamente às mãos das personagens, pois é com a mão que se toca e é também a mão que primeiro se oferece ao toque, constituindo, em numerosas culturas e particularmente na tradição pictórica ocidental moderna, o grau mínimo de contato corporal, desprovido de intimidade, mas portador de uma disposição pacífica, conciliadora ou benfazeja.

2. Nas representações pictóricas de Noli me tangere, as mãos constituem um complexo jogo de aproximação e indicação do outro, prece e bênção, desejo de contato e advertência contra ele, formando simultaneamente promessa de união e movimento de retenção, de tal maneira que, frequentemente situadas no centro da composição, passam a desempenhar a própria função compositiva da pintura, organizando a cena como signos de segundo grau e condensando a intriga inteira da chegada de Maria e da partida de Jesus: mãos prestes a unir-se e já separadas, próximas e distantes como luz e sombra, trocando saudações misturadas ao desejo, mostrando os corpos e ao mesmo tempo apontando para o céu.

3. As mãos de Maria Madalena avançam em direção a Jesus como gesto de demanda, geralmente abertas e com as palmas erguidas, procurando agarrá-lo ou ao menos acolher algo de sua presença nas extremidades do corpo ou das vestes, enquanto as mãos de Jesus, por vezes assinaladas pelos estigmas, dirigem-se a ela em uma indecidibilidade fundamental entre bênção e afastamento, pois não se destinam a retê-la nem a tomar suas mãos, mas a fazê-la partir como primeira enviada e primeira mensageira da notícia, de modo que as próprias mãos de Cristo se dividem frequentemente entre duas direções, uma orientada ao céu e outra detendo Maria para devolvê-la à sua missão.

4. A possibilidade de que as mãos efetivamente se toquem permanece pictoricamente indecidível em diversas representações, pois a superposição dos planos pode tornar impossível determinar se há contato ou simples proximidade espacial, como ocorre exemplarmente em Ticiano e também em Pontormo, Alonso Cano e Giotto, permitindo compreender essa ambiguidade como deliberada e cada superposição dos planos como dotada do valor de um contato, em torno da própria ambiguidade narrativa e semântica da interdição de tocar, que pode tanto suceder a um primeiro gesto furtivo de Maria quanto antecipar e impedir o gesto que está prestes a realizar.

5. A força própria de certas pinturas corresponde justamente à audácia com que nelas se trata o tocar, fazendo com que as personagens se toquem ou se rocem mutuamente, com que Maria toque Jesus ou, em casos mais excepcionais, com que o próprio Jesus toque Maria de modo particularmente incisivo, como no dedo indicador de Cristo que, em Pontormo, roça o seio de Maria, ou nas representações de Dürer, Cano e da igreja de São Maximino, nas quais Cristo chega a colocar a mão sobre a cabeça da mulher.

6. Para interromper ou repelir suavemente o gesto de Maria, Jesus pode acabar tendo de tocá-la, embora o simples recolhimento das mãos parecesse suficiente, e essa inversão desloca então o sentido da interdição, fazendo do toque de Cristo uma combinação singular de afastamento e ternura, bênção e carícia, na qual o contato não suprime a distância, mas precisamente a produz e a mantém.

7. O amor e a verdade tocam afastando, pois aquilo que alcançam é simultaneamente compelido a retirar-se diante de algo cuja própria manifestação no contato revela sua inacessibilidade, de maneira que é precisamente como inalcançáveis que amor e verdade tocam e mesmo apreendem, aproximando não sua posse, mas sua distância e fazendo senti-la como seu próprio sentido; por isso, Noli me tangere não significa apenas a proibição material de tocar, mas, mais literalmente, a interdição do próprio querer tocar, pois o latino noli, negativo de volo, desloca a formulação grega para o plano do desejo e exige não somente que não se retenha aquele que parte, mas que se reconheça imediatamente a impossibilidade de possuir ou conservar aquilo que se ama e conhece.