3 Jardineiro

NANCY, Jean-Luc. Noli me tangere. Paris: Bayard, 2003

1. Outro aspecto da intriga da visão envolve o engano inicial de Maria Madalena ao crer ver o jardineiro, engano cuja possibilidade exige que Jesus não seja reconhecível, ou ao menos não imediatamente, sendo improvável que ela, que o conhece há tempo suficiente, não pudesse reconhecê-lo, devendo permanecer indecisas as razões desse engano: ou, em sua certeza de não mais vê-lo vivo, ela não dispõe sequer dessa “pré-visão” ou desse esquema anterior à imagem que permitiria ou imporia a identificação, ou o próprio Jesus não é de início reconhecível, embora seja de fato ele mesmo.

2. As dificuldades envolvidas no reconhecimento de Cristo possuem duplo significado.

3. Por um lado, é como se sua semelhança consigo mesmo fosse um momento suspenso e flutuante, sendo ele o mesmo sem ser o mesmo, alterado em si mesmo, o que talvez corresponda precisamente ao modo como os mortos aparecem: essa alteração, ao mesmo tempo imperceptível e impressionante - o aparecer daquilo ou daquele que já não pode propriamente aparecer, o aparecer de um aparecido e desaparecido -, é o que mais propriamente e mais violentamente carrega a marca da morte, não sendo mais o mesmo o mesmo, dissociando-se o aspecto da aparência, ausentando-se o rosto bem no meio do rosto, afundando-se o corpo no corpo, escorregando sob ele.

4. Por outro lado, o reconhecimento difícil e incerto carrega consigo as apostas da fé, não consistindo em reconhecer o conhecido, mas em confiar-se ao desconhecido - certamente não em tomá-lo como substituto do conhecido, pois isso seria crença e não fé -, sendo instrutiva, a esse respeito, a sequência de episódios em João.

5. Primeiramente há o discípulo - o próprio João - que “vê e crê” diante do túmulo vazio com as ataduras e o sudário abandonados, compreendendo sem ver, sem que nada se diga sobre o conteúdo de sua fé, como se essa fé consistisse em confiar no próprio vazio enquanto tal, sem buscar o que foi feito do morto.

6. Além do noli, haverá também o episódio de Tomé, a quem Jesus diz que é bem-aventurado por ter crido, mas não tão bem-aventurado quanto os que creram sem ver - “ver” e “tocar” sendo postos como equivalentes nessa cena, constituindo o toque uma confirmação ou realização da visão -, sendo a fé de Tomé enunciada em termos formais.

7. Entre os dois extremos, o ver sem clarividência de Maria Madalena é revirado - para usar palavra de que o texto se serve sutilmente - pela voz de Jesus, não o tendo ela reconhecido enquanto o interpelava como jardineiro, perguntando-lhe se sabe onde está o corpo do Mestre, mas quando, em vez de lhe responder, ele diz seu nome (“Maria”), ela o reconhece e o chama - em hebraico, como especifica João - pelo nome “Raboni”, o que marca ao mesmo tempo seu respeito e sua familiaridade com ele.

8. Os pintores mais frequentemente interpretaram o que está em jogo com o “jardineiro” atribuindo a Jesus os apetrechos desse ofício: uma pá, uma enxada, um chapéu de palha, podendo a intenção de deixar seu rosto na sombra, como em Dürer, sugerir a dificuldade de discernir seus traços, ou podendo, alternativamente, a pá e o chapéu pertencer apenas ao pensamento da mulher, que crê tratar-se do jardineiro, sendo esses apetrechos a representação, pela imagem, da crença ou da ilusão.

9. Em raras ocasiões os apetrechos do jardineiro estão ausentes, como em Giotto, Duccio ou Schongauer, aparecendo Jesus nessas obras exclusivamente como Cristo, Messias e Salvador, sendo reveladora a justaposição entre as obras que representam Cristo com os sinais de uma realeza messiânica e as obras, mais numerosas, que o retratam como jardineiro.

10. Nada se alterou em sua aparência, não havendo, portanto, nada a mudar no ver de Maria Madalena, e esse ver não constitui engano algum, aparecendo de fato, tal como Dürer o desenha, a pá que cava a terra próxima ao sol nascente, vendo Maria de fato o jardineiro, homem comum que vem depois daquele outro homem comum e falecido, cujo túmulo escancarado expõe uma ausência insondável.

11. A fé de Maria consiste em sua confiança de que aquele que a chama não chama ninguém além dela e de que há fidelidade nessa nomeação, ressoando “Maria” aqui tal como “Abraão” havia ressoado muito antes, significando “Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça” sobretudo: que ouça aquele (aquela) que ouve que lhe é dirigido, isto é, a ninguém mais.

12. Assim como Abraão, Maria não demonstra sua fé por meio de enunciados, hipóteses ou cálculos; ela parte, sendo a resposta à verdade que está de partida partir com ela.