2 Não me toques

NANCY, Jean-Luc. Noli me tangere. Paris: Bayard, 2003

1. A leitura integral do episódio evangélico da aparição do ressuscitado a Maria Madalena junto ao túmulo vazio é agora apresentada, constituindo o texto que servirá de base para a análise da cena organizada em torno da visão, na qual Maria primeiramente vê que a pedra do túmulo foi removida e toda a cena se desenrola a partir daí, em relação ao túmulo vazio, ao desejo e ao medo de ir olhar.

2. A cena organiza-se em torno da visão, pois Maria viu primeiro que a pedra do túmulo fora removida e toda a cena se desenrola a partir daí, em relação ao túmulo vazio, ao desejo e ao medo de ir olhar, de modo que Maria verá Jesus e ele se deixará ver por ela porque ela soube olhar para dentro do túmulo, estando em jogo ver o que não deve ser visto, ver o que só se dá a ver a um olhar capaz, com olhos que já souberam ver na noite do invisível, tendo como motivo central o Noli me tangere.

3. Se os pintores se sentiram atraídos por esse episódio, cuja importância teológica é pequena em comparação com os grandes símbolos da fé (anunciação, nascimento, paixão, ressurreição “propriamente dita”, ascensão), é porque ele põe em jogo um exercício particularmente delicado e complexo da visão, pois, por um lado, tudo se passa diante do túmulo vazio, em uma reversão do olhar a partir do túmulo, e, por outro lado, a visão que é dada é complexa: primeiro indecisa, depois suplementada pela fala, e finalmente mantida à distância, capaz de ver apenas o tempo de saber que essa visão deve poder partir.

4. Quando os pintores representam a ressurreição “em si”, eles depictam um episódio que em nenhum lugar é dado a ver, nem mesmo é sugerido nos Evangelhos, de modo que suas pinturas são uma tentativa de confrontar o invisível de frente, por assim dizer, e de levar o gesto de ver e de fazer ver até o ponto de deslumbrar o olhar e tornar a tela incandescente (como exemplifica Grünewald), sendo que, ao mesmo tempo, esse espetáculo é frequentemente acompanhado pela confusão e surpresa dos guardas colocados diante do túmulo.

5. As cenas do texto em que o ressuscitado aparece são, no entanto, de outra ordem; são mais discretas e menos flamejantes, organizando-se precisamente em torno do caráter “natural” e não “sobrenatural” da vinda do ressuscitado, em torno do familiar e não do espetacular.

6. Entre as cenas — fora do texto — da ressurreição e as cenas de encontro com o ressuscitado reside toda a diferença que separa uma imaginação de uma narrativa, pois a primeira mistura traços simbólicos, alegóricos e místicos para solicitar a representação, enquanto a segunda convida a compreender o que nenhuma representação pode sustentar, isto é, compreender que nenhuma presença apresenta o distanciamento pelo qual a verdade da própria presença se ausenta.

7. Nesse aspecto, o Noli me tangere constitui a cena mais sutil e reservada, e é por isso que os pintores puderam discernir nela não a visão extática de um milagre, mas uma delicada intriga que toma forma entre o visível e o invisível, cada um dos dois chamando e repelindo o outro, cada um tocando o outro e distanciando-o de si mesmo.

8. De fato, como já foi apontado, Rembrandt não intitulou sua obra Noli me tangere, e situa a cena intitulada Cristo e Santa Maria Madalena no Túmulo um instante antes de essas palavras serem pronunciadas, embora não sem indicar sutilmente o motivo do tocar entre os dois personagens (como se verá), mas nesse primeiro momento da cena é o contato impossível do dia e da noite que ocupa o pintor: sua tangência sem contato, sua comunidade sem mistura, sua proximidade sem intimidade.

9. A gravura de Dürer (muitos detalhes da qual tornam provável que Rembrandt a conhecesse) dá uma versão do mistério talvez ainda mais sutil (se o mistério é o que se ilumina por si mesmo, ou o que brilha da profundidade da sombra, ou o que da sombra brilha).