ANALÍTICA EXISTENCIAL

NANCY, Jean-Luc. Être singulier pluriel. Paris: Galilée, 1996 / Being Singular Plural. Translated by Robert D. Richardson and Anne E. O’Byrne. Stanford: Stanford University Press, 2000:24

1. A analítica existencial de Ser e tempo é a empresa da qual todo pensamento ulterior permanece tributário, seja o do próprio Heidegger seja os nossos pensamentos, qualquer que seja o vínculo de conflito ou ultrapassagem que se queira estabelecer com ele, não sendo essa afirmação uma profissão de heideggerianismo, nem significando que essa analítica seja definitiva, mas que ela registrou o abalo sísmico de uma fratura decisiva na constituição do sentido, permanecendo por isso mesmo inacabada e propagando ainda hoje suas ondas de sobressalto.

2. A analítica permaneceu contudo em estado de simples esboço e em posição subordinada, embora o traço do Mitsein seja dado como co-essencial ao Dasein, testemunhando esse conjunto um fechamento de sua própria abertura, sendo preciso reabri-lo justamente onde a obstrução acabou por determinar o preenchimento do ser-com e seu recolhimento sobre o povo e seu destino, sem que isso signifique completar uma análise apenas esboçada nem simplesmente atribuir ao Mitsein o lugar principal que lhe cabe, pois o ser-com escapa por princípio tanto ao acabamento quanto à posição principal.

3. Não há sentido senão em razão de um si, na medida em que este tem lugar por e graças a um si, mas não há si senão em razão de um com que o estrutura, devendo esse ser o axioma de uma analítica doravante co-existencial.

4. O si não é uma relação entre um mim e um si mesmo, sendo mais originário que mim e que ti, não sendo, no início, senão o enquanto tal do ser em geral, não sendo o ser nada além de seu próprio enquanto ser, não sobrevindo o enquanto ao ser nem se acrescentando a ele ou redobrando-o, mas constituindo-o, sendo assim o ser desde logo, imediatamente, mediado por si, sendo em si mesmo mediação, mediação sem instrumentos e portanto mediação não dialética, dialética sem dialética, negatividade sem emprego, nada do com e nada enquanto com, sendo o com enquanto com nada além da exposição do ser-enquanto-tal, sempre singularmente tal e portanto sempre pluralmente tais.

5. Anterior a mim e a ti, o si é como um nós que já não é sujeito coletivo nem intersubjetividade, mas a mediação imediata do ser em si, a dobra plural da origem.

6. O si define o elemento no qual mim, ti, nós, vós e eles podem ter lugar, determinando o enquanto do ser, sendo anterior a toda egoidade e a toda propriedade apresentável, sendo o enquanto de tudo o que é, não uma propriedade apresentável mas a própria apresentação, não sendo a apresentação uma propriedade ou um estado, mas o evento, o vir de alguma coisa, seu vir ao mundo, sendo o próprio mundo o geometral ou o expoente de todo vir.

7. No seu vir, o existente se apropria, não sendo apropriado por um si que lhe preexistiria retirando e neutralizando em si o vir, tendo aquilo que nasce ao próprio si diante de si isso aqui, no sentido em que Heidegger fala de Dasein, aqui, isto é, cá embaixo, à distância de espaço-tempo, sendo isso o corpo, o mundo dos corpos, o corpo-mundo, sendo sua apropriação transporte e transpropriação nesse desvio do aqui, do aí, sendo isso o evento-apropriante, o Ereignis.

8. Na medida em que si, a ipseidade, quer dizer a si, relação a si, retorno a si, presença a si como ao mesmo, à mesmidade do enquanto, a ipseidade acontece, isto é, se vem, como vir, vinda e pré-veniência, o que não significa preexistência nem providência mas ao contrário sobrevinda, surpresa e entrega ao vir como tal, ao porvir.

9. Desde logo, mesmo considerada na forma de um si único e solitário, a estrutura do Si é estrutura do com, sendo o solipsismo, se se quiser usar essa categoria, singular plural, estando cada um junto-de-si enquanto e porque está junto-dos-outros, sendo nós, portanto, inicialmente uns com os outros, não como pontos reunidos nem como um conjunto repartido, mas como um ser-uns-com-os-outros.

10. O ser-com é justamente isto: o ser, ou antes ser, não se reúne como resultante comum dos entes nem se reparte como sua substância comum, não sendo o ser nada de comum, mas nada enquanto desvio no qual se dispõe e se mede o em-comum, isto é, o com, o junto-de-si do ser como tal, sendo o ser de ponta a ponta trânsito de sua própria transitividade, sendo ente todos os entes não como seu si individual e/ou comum, mas como a proximidade que os afasta.

11. Os entes se tocam, estão em contato uns com os outros, dispondo-se e distinguindo-se assim, sendo o ente, se o imaginássemos indistinto e não disposto, absoluta vacância de ser, sendo por isso necessária a instância ou o registro ontológico, não sendo ser o nome da consistência, mas o verbo da disposição, não consistindo nada, nem matéria nem sujeito, sendo matéria e sujeito apenas dois nomes correlativos que atribuem consistência ao espaçamento originário da disposição ontológica geral.

12. Ser-o-aí, Dasein, significa portanto ser segundo o valor verbal transitivo da disposição, significa dispor o próprio ser como desvio-proximidade, significa fazer ou deixar ser a vinda de tudo com tudo como tal, expondo assim o Dasein, o homem como expoente do ser, o ser enquanto ser.

13. Alguém entra numa sala e, antes de ser sujeito de uma eventual representação dessa sala, dispõe-se a si mesmo nela e a ela, expondo, conforme a atravesse, a habite ou a visite, sua disposição, a correlação, a combinação, o contato, a distância, a relação de tudo o que há na sala e da própria sala, expondo a simultaneidade de que ele mesmo participa no instante e na qual se expõe na mesma medida em que a expõe e a ela está exposto, expondo-se ele mesmo, sendo assim que é si, isto é, que o é, ou o torna-se, tantas vezes e cada vez que entra na disposição.

14. Esse cada vez não é a renovação de experiências de um mesmo sujeito, pois, na medida em que eu sou o mesmo, é sempre preciso uma outra vez em que eu possa dispor-me nessa mesmidade, implicando isso que uma outra vez em geral, isto é, outras vezes indefinidamente, sejam não apenas possíveis mas reais, implicando o cada de cada vez, o ter-lugar do aí e enquanto aí, a si mesmo, não como sucessão do idêntico, mas como simultaneidade do diferente.

15. A sala é ao mesmo tempo a sala em que estou, ainda que sozinho, junto a, ao lado de, ao longo de todas as suas outras disposições, não se estando na disposição sem estar com a disposição-outra, que é a própria essência da disposição, sendo as vezes descontínuas, mas nessa descontinuidade elas são seu ser-umas-com-as-outras, sendo cada vez a estrutura singular-plural da disposição.

16. O mundo, porém, não é uma sala na qual se possa entrar, e não se pode sequer começar com a ficção de um único qualquer que se encontrasse no mundo, destruindo-se em ambos os casos o próprio conceito de mundo, sendo esse o conceito do ser-com enquanto originário, isto é, enquanto sentido, se o sentido do ser é a disposição como tal, a estrutura do com que é a do aí.

17. O ser-com não se acrescenta ao ser-aí, mas ser-aí significa ser-com, e ser-com significa fazer sentido, sem excedente, sem subsunção desse sentido a outra verdade que já não seja a do com, tendo já sempre começado, no ser-com e como ser-com, a compreender o sentido, sendo essa compreensão já sempre acabada, plena, inteira e infinita, compreendendo-nos infinitamente, nós e o mundo, e nada mais.

18. O com não é mediato nem imediato, não sendo o sentido que compreendemos, tal como o compreendemos, produto de uma negação do ser destinada a nos representá-lo de novo como sentido, nem tampouco a pura e simples afirmação estática de sua presença, não indo o com do mesmo ao outro, nem do mesmo ao mesmo, nem do outro ao outro, não indo o com, de certo modo, não fazendo processo, mas sendo o aproximar-se, o roçar-se ou o cruzar-se, o quase da proximidade distante.

19. É um aproximar-se atônito e desnorteado enquanto tentamos avaliá-lo, como se num mercado, numa estação ou num cemitério nos perguntássemos qual é o sentido e o valor daquelas centenas de pessoas, de sua agitação e de sua inércia, podendo o sentido do com, ou o com do sentido, ser avaliado apenas mediante e no próprio com, numa experiência que nada pode desviar de si mesma, de sua singularidade plural.

20. Compreendemos, compreendendo-nos, que não há nada a compreender, o que quer dizer precisamente que não há apropriação do sentido, pois o sentido é a partilha do ser, não havendo apropriação, portanto não havendo sentido, sendo isso mesmo nossa compreensão, não sendo uma operação dialética nem uma mise en abyme nem uma reflexividade, mas tudo isso junto rejogado de outro modo, enquanto ethos e enquanto práxis.

21. Em termos kantianos, se a razão pura é por si mesma prática, e não por referência a alguma norma transcendente, é porque ela é, por essência, razão comum, o que significa com como razão, como fundamento, não havendo diferença entre o ético e o ontológico, expondo a ética o que a ontologia dispõe.

22. Nossa compreensão do sentido do ser é um compreender que e porque, de um só golpe, nós a repartimos entre nós, entre todos nós, simultaneamente, mortos e vivos, todos, e cada ente.