Abandono

NANCY, Jean-Luc. The Birth to Presence. Tr. Brian Holmes et alii. Stanford: Stanford University Press, 1993

1. Todo o Ocidente está em abandono — Bossuet, História.

2. Unum, verum, bonum — tudo isso está abandonado.

3. O discurso do ser, ou o discurso sobre o ser, não é apensado ao próprio ser.

4. Que o ser abandonado, para nós — e por nós, talvez —, deva corresponder ao esgotamento dos transcendentais significa portanto uma cessação ou suspensão dos discursos, categorizações, interpelações e invocações cuja proliferação constituía o ser do ser.

5. Mas isso também significa que o ser abandonado se encontra finalmente devolvido, deixado, ao pollakos que ele era, e do qual não é possível dizer “o próprio pollakos”, pois o pollakos não tem outra identidade senão seu défice de identidade, sua falta de ser, onde residia o ser, sendo o pollakos legomenon.

6. No fim da dialética, nesse fim que a dialética nunca abandona e que, consequentemente, ela carrega desde seu começo — no É de Parmênides —, o ser não se diz mais de múltiplos modos.

7. Em um momento da história, isso foi enunciado como Eu sou.

8. Ele não requer nada que o ser não tenha já, sempre, disposto em seu ser silencioso.

9. É com efeito ser. É com efeito ser. É com efeito ser.

10. Mas ninguém toma a palavra ali, ninguém declara nada, ninguém se dirige a ninguém.

11. O ser abandonado está abandonado ao pollakos.

12. O esquecimento do ser deve ser entendido de dois modos.

13. Por outro lado, o esquecimento pode também compreender, em seu próprio esquecimento e, em suma, como esquecimento, que o que é esquecido não é o ser mas seu abandono, e que o abandono não constitui o ser do ser mas sua condição — não no sentido de uma “condição de possibilidade” mas no sentido de uma “miserável condição”, cuja própria miséria provoca o esquecimento.

14. Do fato de que o ser foi abandonado, de que está abandonado e se abandona, não há memória.

15. Mas não sabemos há muito tempo que era assim?

16. Não nascemos no abandono, grego e trágico (o de Édipo), judeu e exilado (o de Moisés), ambos definidos ou fadados pelo abandono, a ponto de não sabermos onde começa ou termina cada figura, ou em que medida uma é judia e a outra grega?

17. Eli, Eli, lama sabachani! Thee mou, Thee mou, ina ti me enkatelipes; Deus meus, Deus meus, ut quid dereliquisti me?

18. Dereliquisti me: tu me entregaste à derrelição, onde nada me resta de ti, tu que me deixaste ser deixado.

19. O que “o Deus de amor” significa é que só o amor abandona.

20. No entanto, não há uma natureza do amor, e ninguém conseguiu pervertê-lo para nós.

21. Há isto, ao menos, que Nietzsche escreveu, mesmo se não o compreendeu: Ecce Homo.

22. O tempo do abandono é o tempo não do homem mas de uma voz que declara: Ecce homo.

23. O tempo do abandono é o tempo, a vacilação, do instante instantaneamente abandonado; o tempo se abandona, e essa é sua definição.

24. Tal ausência de permanência, a impossibilidade de fixar o abandono e instalar-se nele, é o que o renova e o revive.

25. Mas essas não são as figuras de uma essência.

26. Se se diz que o teatro saiu do reino do ritual, o que se quer dizer é que ele se tornou teatro quando deixou esse reino.

27. O ser veio a ocorrer por meio de um abandono: não podemos dizer mais.

28. Todas as nossas Ideias, ao contrário, repousam sobre uma crença na virtude da questão “Por que há algo, e não nada?”

29. Assim o pensador diz, em nosso tempo, que o ser abandonado, o ser-lançado-ao-mundo na derrelição, constitui uma possibilidade positiva do ser-no-mundo.

30. Mas essa positividade nada põe e não é ela mesma posta.

31. Deixemo-nos abandonar a quê, senão ao que o abandono abandona?

32. Sempre se abandona a uma lei.

33. O ser abandonado encontra-se deserto na medida em que se encontra remetido, confiado ou lançado a essa lei que constitui a lei, esse outro e mesmo, a esse outro lado de toda lei que borda e sustenta um universo legal: uma ordem absoluta, solene, que nada prescreve além do abandono.

34. O abandono respeita a lei; não pode fazer de outro modo.

35. Gostaríamos de pensar que se trata de um dom (a palavra alemã é die Hingebung: o dom a…).

36. Abandona-se a uma lei, o que quer dizer, sempre a uma voz.

37. A ontologia é assim uma fonologia.

38. Eis (ou “veja aqui”, voici) é um imperativo.

39. O ser está assim abandonado ao ser-lá do homem, como a uma ordem.

40. Aqui: mais estritamente, lá, onde está escrito, diante de você.

41. O homem é o ser do ser abandonado e como tal é constituído ou antes instituído apenas pela recepção da ordem de ver o homem aqui, lá onde ele está abandonado.

42. Um lugar dá-se a ver, configura-se.

43. A ontologia será, doravante, uma antropologia que não tem outro “objeto” senão a derrelição do ser — e assim, mais uma vez, seu pollakos, pois há abandonos cruéis e abandonos graciosos, alguns doces, alguns impiedosos, alguns voluptuosos, frenéticos, felizes ou desastrosos, alguns serenos.