NANCY, Jean-Luc. The Birth to Presence. Tr. Brian Holmes et alii. Stanford: Stanford University Press, 1993
1. Todo o Ocidente está em abandono — Bossuet, História.
-
Não o sabemos, não podemos realmente sabê-lo, mas o ser abandonado já começou a constituir uma condição inevitável para nosso pensamento, talvez sua única condição.
-
Doravante, a ontologia que nos convoca será uma ontologia na qual o abandono permanece o único predicamento do ser, na qual ele permanece mesmo — no sentido escolástico da palavra — o transcendental.
-
Se o ser não cessou de dizer-se de múltiplos modos — pollakos legetai —, o abandono nada acrescenta à proliferação desse pollakos.
-
Ele resume a proliferação, reúne-a, mas esgotando-a, levando-a à extrema pobreza do abandono.
-
O ser diz-se como abandonado por todas as categorias, todos os transcendentais.
2. Unum, verum, bonum — tudo isso está abandonado.
-
O que equivale a dizer, dizendo-nos, que o ser cessou de dizer-se de múltiplos modos, embora essa cessação não constitua um fim nem decida um destino.
-
A cessação persegue um destino.
3. O discurso do ser, ou o discurso sobre o ser, não é apensado ao próprio ser.
-
O ser não é, nunca foi — se alguma vez foi — nada além do pollakos legomenon, o dito-de-múltiplos-modos (o dito, ou, na leitura heideggeriana do grego, no grego da filosofia ou do pensamento, o recolhido, e o que é deixado jazer, o aberto).
-
Se doravante o ser não é, se começou a ser apenas seu próprio abandono, é porque esse dizer-se de múltiplos modos está abandonado, está em abandono, e é abandono (o que também quer dizer abertura).
-
Acontece que “abandono” pode evocar “abundância”.
-
Há sempre um pollakos, uma abundância, no abandono: ele se abre sobre uma profusão de possibilidades, assim como alguém se abandona em excesso, pois não há outra modalidade de abandono.
4. Que o ser abandonado, para nós — e por nós, talvez —, deva corresponder ao esgotamento dos transcendentais significa portanto uma cessação ou suspensão dos discursos, categorizações, interpelações e invocações cuja proliferação constituía o ser do ser.
-
O ser abandonado imobiliza a dialética cujo nome significa “aquela que nada abandona, nunca, aquela que infinitamente une, retoma, recupera”.
-
Ele obstrui ou abandona a própria posição, a posição inicial, do ser, essa posição vazia cuja verdade de nadidade, imediatamente voltada sobre e contra o ser, medeia o devir, o advento inesgotável do ser, sua ressurreição e a parusia de sua unidade, verdade e bondade absolutas, suscitando e derramando de volta nele a espuma de sua própria infinidade.
5. Mas isso também significa que o ser abandonado se encontra finalmente devolvido, deixado, ao pollakos que ele era, e do qual não é possível dizer “o próprio pollakos”, pois o pollakos não tem outra identidade senão seu défice de identidade, sua falta de ser, onde residia o ser, sendo o pollakos legomenon.
6. No fim da dialética, nesse fim que a dialética nunca abandona e que, consequentemente, ela carrega desde seu começo — no É de Parmênides —, o ser não se diz mais de múltiplos modos.
-
Ele se diz do modo uno, verdadeiro e bom do absoluto que o reúne ou que ele reúne.
-
O ser se diz, absolutamente, como do absoluto e absolutamente diz a si mesmo o absoluto: é.
-
Esse é não é neutro, embora não seja nem masculino nem feminino.
-
É a autocategorização do ser que transcende os transcendentais, abolindo, sublate ou confundindo o pollakos na conquista da autoposição e autodeterminação do ser.
7. Em um momento da história, isso foi enunciado como Eu sou.
-
Mas o isso do ser, o isso que o ser é quando é (e não se diz de modo algum) é o verdadeiro Eu.
-
Sem dúvida o Eu lhe dá estrutura e substância.
-
Mas o Eu ainda se diz, nada mais faz e de nada mais é feito.
-
O Eu requer uma boca que se abra, requer que eu me tenha arrastado, arremessado, para fora de mim antes, que me tenha abandonado.
-
A voz já é um abandono.
8. Ele não requer nada que o ser não tenha já, sempre, disposto em seu ser silencioso.
9. É com efeito ser. É com efeito ser. É com efeito ser.
10. Mas ninguém toma a palavra ali, ninguém declara nada, ninguém se dirige a ninguém.
-
Não há ninguém, nenhum diálogo — e não é sequer um monólogo.
-
É tem a tremenda adesão a si mesmo, muda e imóvel, de uma esfinge de pedra no deserto, em nosso deserto.
-
A esfinge se chama Deus, Natureza, História, Sujeito, Ilusão, Existência, Fenômeno, Poesis, Praxis — mas é sempre uma única massa de pedras, versões fugidias do único é que ninguém enuncia.
-
Pois ninguém pode enunciá-lo:
Platão já sabia disso.
11. O ser abandonado está abandonado ao pollakos.
-
Ao mesmo tempo, pollakos legetai é completado, reabsorvido, compreendido no Logos e como o Logos que ele é, e o mesmo pollakos legetai, que como tal está abandonado, recolhe o ser.
-
Pois o ser é exatamente o que a dialética abandonou e condenou à nadidade com seu primeiro passo negador.
-
Ou antes, a dialética abandonou o ser na transição para a nadidade.
-
O abandono não é nadidade.
-
O ser é o que permanece antes da nadidade e antes do poder do negativo.
-
O ser é o que permanece na inception da dialética, o que toda a força da dialética não é capaz de extrair, pôr em movimento, alienar em sua identidade propulsiva.
-
O ser permanece abandonado.
-
A partir desse ponto, o pollakos também permanece em abandono.
-
Seu modo múltiplo não conforma mais à unidade, quer infinita quer assintótica, de um Logos.
-
Até esse ponto, pollakos legetai permanecia sob a vigilância de um monos legetai: que o ser se diga de múltiplos modos é algo determinado e valorizado com base no que um logos único e unívoco oferece.
-
O ser plurívoco deixava-se reger, ou fazia-se reger, por essa univocidade.
-
Assim não está abandonado à simples plurivocidade, que por sua vez está abandonada.
-
O que resta é uma dispersão irremediável, uma disseminação de partículas ontológicas.
-
Consequentemente, essa dispersão ela mesma não resta — ao menos não como o resto de uma subtração, ou como os restos de uma fragmentação, que deixam algo a que se agarrar.
-
Não resta como uma probabilidade ontológica, na qual se preservaria a possibilidade característica de um cálculo.
-
Estar abandonado é estar sem nada a que se agarrar e sem cálculo.
-
O ser não conhece mais guarda, nem mesmo em uma dissolução ou um dilaceramento, nem mesmo em um eclipse ou um esquecimento.
12. O esquecimento do ser deve ser entendido de dois modos.
-
Se é o esquecimento do ser, o pensamento invencivelmente conserva a forma e a natureza de uma imensa reminiscência.
-
O ser do ser vem à luz, resplandecente, do esquecimento e mais uma vez dita, silenciosamente, seu próprio é.
-
O esquecimento do ser, então, é esquecido do abandono do ser.
13. Por outro lado, o esquecimento pode também compreender, em seu próprio esquecimento e, em suma, como esquecimento, que o que é esquecido não é o ser mas seu abandono, e que o abandono não constitui o ser do ser mas sua condição — não no sentido de uma “condição de possibilidade” mas no sentido de uma “miserável condição”, cuja própria miséria provoca o esquecimento.
-
O esquecimento então se compreende como inscrito, prescrito, prometido no abandono.
-
Com efeito, o abandono empenha ao esquecimento, e esse esquecimento não guarda nenhuma reserva de memória recuperável, curável.
-
A tensão dessa dupla compreensão, que de modo algum é um conflito de interpretações em torno de um “pensamento” que seria “o pensamento do esquecimento do ser”, compõe todo o nosso pensamento, determina toda a ontologia que nos convoca e que também convoca, quaisquer que sejam as opiniões que sustentem, aqueles que meramente sorriem para a “ontologia”, isto é, para a “filosofia”.
14. Do fato de que o ser foi abandonado, de que está abandonado e se abandona, não há memória.
-
Não há história desse abandono, nenhum conhecimento ou narrativa de como, onde, quando e por quem foi abandonado.
-
Isso não é impossível de saber: muito simplesmente, não é.
-
Não teve lugar.
-
O ser não é seu abandono, e ele se abandona apenas por não ser autor nem sujeito do abandono.
-
Mas há ser abandonado, e há não significa é.
-
Nem há significa
es gibt: nem um pode ser traduzido, nem pelo outro nem de outro modo.
-
Nas línguas, também, como entre as línguas, o próprio ser do abandono está abandonado.
15. Mas não sabemos há muito tempo que era assim?
16. Não nascemos no abandono, grego e trágico (o de Édipo), judeu e exilado (o de Moisés), ambos definidos ou fadados pelo abandono, a ponto de não sabermos onde começa ou termina cada figura, ou em que medida uma é judia e a outra grega?
-
Eles são abandonados ao nascer: isto é, desde o início, em seus começos, e condenados indefinidamente a nascer.
-
Nascer significa precisamente nunca cessar de nascer, nunca ter terminado de nunca atingir plenamente o ser, seu estatuto, sua postura ou sua posição, e sua autonomia.
-
O nascimento abandona Édipo e Moisés até a hora de sua morte.
-
A terceira figura, Cristo, interminável por sua vez, medeia-os novamente no momento de sua morte (como se houvesse uma dialética do abandono, tão inevitável quanto insuportável).
-
Ele clama — a recitação de um salmo:
17. Eli, Eli, lama sabachani! Thee mou, Thee mou, ina ti me enkatelipes; Deus meus, Deus meus, ut quid dereliquisti me?
18. Dereliquisti me: tu me entregaste à derrelição, onde nada me resta de ti, tu que me deixaste ser deixado.
19. O que “o Deus de amor” significa é que só o amor abandona.
-
O que não é amor pode rejeitar, desertar, esquecer, dispensar, descarregar, mas só o amor pode abandonar, e é pela possibilidade do abandono que se conhece a possibilidade, invertida ou perdida, do amor.
-
E é também desse modo que se conhece a justiça além da justiça do amor, que as imagens e palavras do “amor cristão” falsificaram para nós (desde os Evangelhos, sem dúvida, até o Romantismo que é o cristianismo de nosso tempo).
20. No entanto, não há uma natureza do amor, e ninguém conseguiu pervertê-lo para nós.
-
O cristianismo não é mais uma perversão do que a metafísica é um lapso de memória.
-
O ser abandonado não pode ser nem salvaguardado nem traído.
-
Devemos ter terminado com nossas avaliações da história, com nossa história avaliadora, autoavaliadora.
-
Hegel compreendeu que a história é necessidade.
-
Mas nós,
Hegel e nós mesmos, não compreendemos o que é a necessidade.
-
-
Mas não compreendemos, nem talvez
Nietzsche tenha compreendido, o que é o amor.
21. Há isto, ao menos, que Nietzsche escreveu, mesmo se não o compreendeu: Ecce Homo.
-
Eis o homem, aquele que clama: ut quid dereliquisti me?
-
Eis o homem abandonado, o abandono do homem.
-
Eis o homem, o ser abandonado.
-
O destino do amor está ligado a esse abandono.
22. O tempo do abandono é o tempo não do homem mas de uma voz que declara: Ecce homo.
-
De quem é a voz, designando quem?
-
Essa questão, essas duas questões que são a mesma questão, está em abandono.
-
Talvez deva ser abandonada.
-
O tempo do abandono não é um tempo cheio de questões, esse tempo que se ergue, distendido de expectativa, arregimentando o futuro sob a direção da questão, prometendo e finalmente projetando nesse futuro a retidão da resposta.
-
Não é o tempo artificial da antecipação, mas é tempo, o único tempo — o tempo que nunca suspende seu voo.
23. O tempo do abandono é o tempo, a vacilação, do instante instantaneamente abandonado; o tempo se abandona, e essa é sua definição.
-
E no tempo estamos abandonados ao tempo, assim como o tempo nos abandona.
-
Assim nosso tempo — nossa época — é mais do que nunca o tempo do tempo, o tempo da ontologia temporal do abandono, e do fim da História no sentido de a História se agarrar desesperadamente ao tempo, resistindo-lhe e sublate-o.
-
Essa História está abandonada pela história.
-
O que está abandonado, o que se abandona, só está na transição, na inclinação, no oscilar — “entre o inapreensível e o apreensível” — e no salto de um batimento, de um batimento cardíaco; e mesmo a transição, a defecção, o desmaio, não é.
-
Não se pode sequer dizer a transição, o fluxo, o fluxo, a duração, muito menos o batimento cardíaco ou o salto de um batimento.
-
A duração do tempo, que constitui o tempo, não tem outra fixidez que seu incessante desaparecer.
-
O tempo não voa, mas um voo constitui o tempo.
-
O sistema do tempo não é o batimento saltado; antes, o tempo salta, e salta a si mesmo: suspensão, pulsação, continuidade interrompida e reiniciada em sua própria disjunção, assim o mesmo (o mesmo tempo) e nunca o mesmo (nunca o mesmo tempo).
-
O que não significa: abandono sempre, pois não há permanência do ser abandonado.
24. Tal ausência de permanência, a impossibilidade de fixar o abandono e instalar-se nele, é o que o renova e o revive.
-
Suas figuras brotam por toda parte, um redemoinho nauseante, Édipo, Moisés, Jesus, mas também Roland, Robinson, Olympio, Fedra, Tristram, Jean-Jacques, la Traviata, Josef K., e Hyperion, e o proletariado, e o soberano.
25. Mas essas não são as figuras de uma essência.
-
Este é o pollakos no qual um abandono interminável da essência do ser interminavelmente se esgota.
-
A estrutura de toda a nossa mitologia é o mito do abandono, enquanto a origem de toda a nossa ciência do mito é que o mito nos abandonou.
-
Assim, além disso, essa própria ciência, por definição, não sabe do que está falando.
-
Não temos ideia, nem memória, nem pressentimento de um mundo que não nos abandona, um mundo que acolhe o homem em seu seio.
-
Uma afirmação de Brecht tem a importância de um paradigma para toda a nossa história, para todo o Ocidente:
26. Se se diz que o teatro saiu do reino do ritual, o que se quer dizer é que ele se tornou teatro quando deixou esse reino.
27. O ser veio a ocorrer por meio de um abandono: não podemos dizer mais.
-
Não há retorno; o ser não veicula nada mais antigo que seu abandono.
-
De um mito ou um rito anterior ao ser, não há nada a saber e nada a reconquistar.
-
Essas são palavras para qualificar, ou antes para camuflar — muito mal — o abandono pelo qual o ser nos alcança, e pelo qual alcançamos o ser.
28. Todas as nossas Ideias, ao contrário, repousam sobre uma crença na virtude da questão “Por que há algo, e não nada?”
-
Uma antecedência do ser poderia ser a resposta.
-
Mas agora sabemos que essa questão já se responde em segredo: “Uma vez que há algo, e não tudo, é porque essa coisa está em abandono, é porque tudo está abandonado.”
-
E não nos é permitido perguntar por quem.
29. Assim o pensador diz, em nosso tempo, que o ser abandonado, o ser-lançado-ao-mundo na derrelição, constitui uma possibilidade positiva do ser-no-mundo.
30. Mas essa positividade nada põe e não é ela mesma posta.
-
Tentar pensar sobre isso significaria renunciar ao pensamento, e poderia significar que essa renúncia talvez seja nada, que talvez não faça nenhuma reivindicação de abdicar da positividade do conceito ou da poesia (o pensamento posicionante, em geral), para entregar-se, por exemplo, a uma práxis inchada pela própria imanência dessa renúncia.
-
Seria necessário renunciar sem renunciar, não determinar a derrelição de modo algum, nem investi-la de qualquer desejo ou fornecer-lhe qualquer modelo.
-
Tal autoprivação magnetiza a vontade mística de Inácio de Loyola, e assombra a vontade filosófica de Heidegger.
-
Mas ainda não é isso que nos convoca agora: todos os nossos exercícios espirituais devem ser libertados da vontade, devem desengajar-se do “exercício” e do “espírito”.
-
Teríamos finalmente de nos deixar abandonar.
-
No fim das palavras, é isso que “pensar” significaria.
31. Deixemo-nos abandonar a quê, senão ao que o abandono abandona?
-
A origem de “abandono” é um pôr a bandon.
-
Bandon (bandum, band, bannen) é uma ordem, uma prescrição, um decreto, uma permissão, e o poder que mantém estas livremente à sua disposição.
-
Abandonar é remeter, confiar ou entregar a tal poder soberano, e remeter, confiar ou entregar ao seu ban, isto é, ao seu proclamar, ao seu convocar e ao seu sentenciar.
32. Sempre se abandona a uma lei.
-
A destituição do ser abandonado é medida pela severidade ilimitada da lei à qual ele se encontra exposto.
-
O abandono não constitui uma intimação a apresentar-se diante deste ou daquele tribunal da lei.
-
É uma compulsão a aparecer absolutamente sob a lei, sob a lei como tal e em sua totalidade.
-
Do mesmo modo — é a mesma coisa —, ser banido não equivale a cair sob uma provisão da lei, mas antes a cair sob a totalidade da lei.
-
Entregue ao absoluto da lei, o banido é por isso abandonado completamente fora de sua jurisdição.
-
A lei do abandono exige que a lei seja aplicada através de sua retirada.
-
A lei do abandono é o outro da lei, que constitui a lei.
33. O ser abandonado encontra-se deserto na medida em que se encontra remetido, confiado ou lançado a essa lei que constitui a lei, esse outro e mesmo, a esse outro lado de toda lei que borda e sustenta um universo legal: uma ordem absoluta, solene, que nada prescreve além do abandono.
-
O ser não é confiado a uma causa, a um motor, a um princípio; não é deixado à sua própria substância, nem mesmo à sua própria subsistência.
-
Ele é — em abandono.
34. O abandono respeita a lei; não pode fazer de outro modo.
-
Isso não significa que haja qualquer questão de um respeito forçado, consequentemente privado do valor característico do respeito.
-
Esse “não pode fazer de outro modo” significa que não pode ser de outro modo, não é de outro modo.
-
O abandono é abandono ao respeito da lei, ao respeito da inteireza do outro lado da lei.
-
Antes de todas as outras determinações, e como a origem de todas as outras determinações (temor e tremor, submissão, veneração, imitação, conformidade), o respeito é um olhar, um regard (respectus).
-
Não é um olhar ótico, e menos ainda um olhar especulativo, que fitaria a lei.
-
É um olhar que não levanta os olhos, e talvez nem os abra.
-
É também, e em primeiro lugar, um olhar para trás (re-spicere): voltado para o antes do abandono, onde não há nada a ver, que não é para ser visto.
-
Não é um olhar para o invisível, não é um olhar ideal ou ideacional.
-
É a consideração do abandono.
-
Respeitando a lei, o abandono respeita a si mesmo, por assim dizer (e a lei o respeita).
-
Ele se volta — não para perceber-se, mas para receber-se.
35. Gostaríamos de pensar que se trata de um dom (a palavra alemã é die Hingebung: o dom a…).
-
Mas mettre à [pôr a] bandon não é donner à [dar a] ban, e o último sintagma, que certos estudiosos procuraram, não foi verificado.
-
O ser não é dado com o abandono, se o dom supõe uma reserva e a provisão de riquezas, uma acumulação inicial bem como a generosidade de um doador.
-
A lei nada dá; ela ordena.
-
O ser não é dado — ou um dom não lhe é dado — a menos que um dom, bem aquém do que imaginamos e do que praticamos em seu nome, seja ou deva ser sempre abandonado.
-
Pensa-se ouvir, gostaríamos de ouvir, donner [dar] em abandonner, mas o contrário é verdadeiro.
-
“Não dê com uma mão e retenha com a outra”, diz a lei; mas é o próprio dar como tal que não deve ser retido.
36. Abandona-se a uma lei, o que quer dizer, sempre a uma voz.
-
Bannan, bannen, no alto alemão antigo e médio (ordenar ou proibir, sob ameaça de pena), enxertam-se em uma “raiz” (*bha) de fala, de declaração.
-
Fari e phanai fazem parte da “família”, e assim, consequentemente, também phone.
-
O ser abandonado é devolvido ou deixado à phone, e ao fatum, que por sua vez deriva de phone.
-
Amor fati dirige-se à lei e à sua voz.
37. A ontologia é assim uma fonologia.
-
Mas aqui a voz não é mais um meio acústico ou a articulação de um discurso.
-
A voz constitui a lei, na medida em que ordena; e, nessa medida, a lei é a voz.
-
O que essa voz enuncia, no entanto, talvez não possa mais ser descrito como o comando de uma ação a ser realizada ou como a injunção de uma provisão a ser observada.
-
Talvez essa ordem diga, de algum modo estranho, ecce homo.
-
Não é uma prescritiva, mas uma constativa, como diria um linguista.
-
No entanto, aqui o constativo seria ouvido como prescrição.
38. Eis (ou “veja aqui”, voici) é um imperativo.
-
Se é verdade que ordena (mas até que ponto é verdade? até a fronteira, tão frágil, da elipse ou suspensão de um tu; o que é necessário para essa elipse, o tom de voz que ela engaja, sua fragilidade — tudo isso resta a pensar), então o que ordena não pode ser descrito, pois o aqui de “veja aqui” não é mostrado.
-
A lei do abandono é que esse aqui não seja de modo algum designado, não aqui, não lá, não em lugar nenhum.
-
Ecce homo ordena o que outrora chamamos a ecceidade do homem: sua presença, para si, neste ou naquele “aqui”, independente de seus atributos, de sua própria essência.
-
A ecceidade é o ser despojado de tudo o que não é seu ser-aqui — ou seu ser-lá.
39. O ser está assim abandonado ao ser-lá do homem, como a uma ordem.
-
Este é um imperativo categórico, não apenas na medida em que não sofre restrição e não se submete a nenhuma condição, não apenas na medida em que constitui a lei absoluta do ser, mas também na medida em que o imperativo categórico, conforme a categoria do categórico estabelecida pela tábua dos juízos, não pode conter nada além da inerência de um predicado em um sujeito (por contraste com o hipotético e com o disjuntivo).
-
O juízo categórico diz que isto é aquilo.
-
O imperativo categórico diz que o homem está aqui.
-
Mas ele dá a ordem de vê-lo aqui, pois a inerência do predicado no sujeito, neste caso, é apenas a inerência da ecceidade, do ser-lá, da presença.
-
Nada é com isso julgado, afirmado ou negado sobre o sujeito do homem, nada é predicado sobre seu ser, que antes é abandonado.
-
Essa é a razão pela qual o imperativo suplementa um juízo categórico impossível: o homem (cujo ser, em seu abandono, permanece não qualificado) — eis aqui ele.
-
Mas aqui, repitamos, não é mostrado.
-
Nada é mostrado senão o mostrar-se em sua singular generalidade: idou ho anthrōpos, eis aqui o homem.
-
Assim que essa frase, com a qual Pilatos abandona Jesus, deixa de pertencer a Pilatos — e de fato já não pertence —, torna-se uma ordem, e seu “aqui” não é mais designado.
-
O homem é apenas ordenado como ser-lá, ou a ser lá — isto é, aqui.
40. Aqui: mais estritamente, lá, onde está escrito, diante de você.
41. O homem é o ser do ser abandonado e como tal é constituído ou antes instituído apenas pela recepção da ordem de ver o homem aqui, lá onde ele está abandonado.
-
A ordem de ver é ainda uma ordem eidética, ou teórica.
-
Mas o que ela dá a ordem de ver, o lá do homem, não oferece nenhuma Ideia, nada dá a ver.
42. Um lugar dá-se a ver, configura-se.
-
Mas aqui ou lá (é o mesmo, e o outro), embora reparta lugares, embora abra espaço e esboce seus esquemas, ele mesmo permanece invisível.
-
Aqui abre um espaçamento, clareia uma área sobre a qual o ser é lançado, abandonado.
-
A ecceidade abre uma arealidade.
-
Mas a arealidade da área (do ser) não é seu desenho, não é sua configuração.
-
É seu traçado, começando daqui.
-
O aqui não tem lugar: a cada momento está aqui e lá, aqui e agora, pois aqui é agora.
-
Hic est nunc.
-
Aqui não é feito do espaço que abre ou corta, aqui é o tempo dessa incisão.
-
Ecce homo significa: eis o tempo do homem, eis seu abandono.
43. A ontologia será, doravante, uma antropologia que não tem outro “objeto” senão a derrelição do ser — e assim, mais uma vez, seu pollakos, pois há abandonos cruéis e abandonos graciosos, alguns doces, alguns impiedosos, alguns voluptuosos, frenéticos, felizes ou desastrosos, alguns serenos.