Jean-Luc Nancy, Philippe Lacoue-Labarthe. O título da letra : uma leitura de Lacan. Tr. Sergio Joaquim de Almeida. São Paulo : Escuta, 1991.
APRESENTAÇÃO
POSICIONAMENTO
UM GIRO DE LEITURA
PRIMEIRA PARTE A LÓGICA DO SIGNIFICANTE
SEGUNDA PARTE A ESTRATÉGIA DO SIGNIFICANTE
Apresentação de Durval Checchinato
1. O título da letra constitui uma obra importante sob múltiplos aspectos, tanto por versar com precisão sobre a teoria do significante em Lacan quanto por sua publicação chegar em momento superoportuno para o movimento psicanalítico no Brasil, cuja situação, guardadas as proporções, corresponde à vivida na França quando do lançamento do livro, oferecendo uma ordenação teórica considerável sobre a função científica do significante na teoria e na clínica psicanalítica.
2. O livro estabelece precisões importantes que dirimem dúvidas quanto à barra e à resistência, propondo a leitura correta do algoritmo psicanalítico, sancionada pelo próprio Lacan, segundo a qual a resistência não provém do significado nem da significação, mas da própria barra, cuja importância reside em ser ela que institui o significante, sendo por isso mais relevante que a autonomização do significante descoberta por Lacan na clínica.
3. A apresentação deste livro coloca o apresentador em posição curiosa, visto que se trata de uma obra sobre o significante em Lacan elogiada pelo próprio Lacan em termos contundentemente positivos, apesar de seus autores não pertencerem ao círculo de intérpretes fiéis que participavam de seus seminários, sendo por isso apreciável o critério da longa interrupção elogiosa feita por Lacan no Seminário Encore.
4. Na página 93 do mesmo seminário, Lacan resume a mensagem do livro afirmando tratar-se de uma subordinação do signo em relação ao significante em tudo o que fora avançado.
5. É lamentável que Lacan tenha atribuído aos autores as piores intenções por terem escrito as últimas trinta páginas que ele leu em diagonal, uma vez que, tendo reconhecido a dependência de sua formação médica em relação a Clérambault e guardado o maior respeito pela pessoa de Freud, seu verdadeiro mestre em psicanálise, Lacan teve pouca humildade para reconhecer sua constante dependência de Martin Heidegger, sendo justamente essa dependência que os autores souberam evidenciar ao excluí-lo de um simplório heideggerismo e situá-lo no plano da verdade como desvelamento (aletheia).
6. Há momentos em que não se sabe se a leitura se encontra em Heidegger ou em Lacan, podendo os exemplos de identidade de pensamento entre ambos multiplicar-se à vontade.
7. Opina-se que não se devem colocar à parte essas trinta páginas, pois elas fazem jus à afirmação do próprio Lacan em A instância da letra, segundo a qual, ao falar de Heidegger ou ao traduzi-lo, esforça-se por deixar à palavra que ele profere sua significância soberana.
8. Não é outra, a considerar, a leitura que os autores fazem de Heidegger em Lacan, pois é a Heidegger, mais do que a Platão, Aristóteles, Kant, Hegel ou Descartes, que Lacan deve sua fundamentação filosófica do inconsciente, sustentada num tripé composto por Freud, Saussure e Heidegger.