Árvore do significante

Jean-Luc Nancy, Philippe Lacoue-Labarthe. O título da letra : uma leitura de Lacan. Tr. Sergio Joaquim de Almeida. São Paulo : Escuta, 1991.

1. A fórmula segundo a qual o algoritmo, sendo pura função do significante, só pode revelar uma estrutura de significante a essa transferência, define a imposição ou as condições propriamente estruturais do funcionamento significante, estruturalidade que Lacan coloca como articulação.

2. As unidades significantes decompõem-se, do ponto de vista de seus englobamentos crescentes, em elementos diferenciais últimos que são os fonemas da fonologia, cujo caráter de ajustamento diferencial é exclusivamente salientado, o que explica o privilégio atribuído à voz, predestinando-a à escritura alfabética e ao uso da palavra letra, que reúne, na figura dos caracteres tipográficos, a materialidade e aptidão para localização do significante junto à sua estrutura diferencial.

3. Tal decomposição em elementos define geralmente a ordem do léxico, ou seja, a ordem dos englobamentos constituintes do significante cujo limite superior é a locução verbal, ordem definida como uma topologia aproximável à figura da cadeia significante extraída de Hjelmslev, sendo em geral a gramática cujo limite é a unidade imediatamente superior à frase.

4. A articulação significante pode descrever-se segundo os dois eixos saussurianos do sintagma e do sistema, mas apenas com a condição de manter o funcionamento da pura estrutura significante além do ponto em que, do ponto de vista estritamente linguístico, as condições de possibilidade fornecidas pela estrutura cedem lugar à produção do sentido.

5. Na dimensão horizontal ou linear do discurso, destaca-se não a realização do sentido, mas a perpétua antecipação do significante em relação ao sentido, o que explica a utilização de frases incompletas que produzem um efeito significante justamente no ponto em que param de colocar signos e suspendem o sentido, utilização que remete à análise do Presidente Schreber retomada no texto sobre uma questão preliminar a qualquer tratamento possível da psicose.

6. Tal antecipação é relacionada com a teoria saussuriana dos dois reinos flutuantes, ainda que suspeitosamente para falseá-la, sabendo-se que, para Saussure, a formação do signo se descreve como o recorte simultâneo de duas massas flutuantes, a dos sons e a dos pensamentos, no interior das quais nem sons nem conceitos aparecem como tais antes do recorte próprio da língua.

7. Desse esquema, Lacan afirma que ele ilustra o deslizar incessante do significado sob o significante, não se tratando de uma simples inversão do esquema, pois falar do deslizamento de um dos termos ao invés da flutuação de ambos é mais do que falsear ou inverter, sendo por isso que Lacan finge tomar a imagem saussuriana apenas como simples imagem para denunciar sua fragilidade.

8. Trata-se, portanto, de uma crítica ao esquema saussuriano que subordina a constituição do significante e do significado à divisão prévia do signo, sendo preciso manter a independência e a preexistência do significante, daí o deslizamento sem fim do significado, ainda que se choque com a dificuldade de dar conta ao menos do efeito de significação ou de sentido, resistindo o esquema dos reinos flutuantes por não dar conta do signo em geral, mas do funcionamento concreto da própria língua, obrigando a passar da significação ao valor.

9. Sabe-se que a solução é a chamada teoria dos pontos de basta, segundo a qual é preciso, para que se efetive uma significação num dado momento, que o significante interrompa o deslizamento do significado por fenômeno de ancoragem que dá lugar à pontuação onde a significação se constitui como produto acabado.

10. É preciso lembrar que o próprio ponto de basta é dado por Lacan como mítico, de tal forma que não há significação que não esteja sempre a ponto de deslizar fora de seu sentido pretensamente próprio.

11. A dificuldade fecha-se apenas provisoriamente, sendo precisamente a própria linearidade saussuriana, princípio da língua como sistema de diferenças sem termos positivos, que atrapalha todo esse discurso, oferecendo como termo de comparação a escrita material das letras.

12. Basta escutar a poesia para que nela se faça ouvir uma polifonia e que todo discurso se averigúe alinhando-se sobre as várias pautas de uma partitura, de modo que o que essencialmente constitui o discurso não é a articulação sintagmática ou a horizontalidade sintática da cadeia, mas a profundidade paradigmática ou sistemática, o jogo das correlações semânticas ou léxicas, introduzida por meio da metáfora da música.

13. O que se passa, de fato, é que a dificuldade relativa à linearidade, que impunha o ponto de basta e a pontuação, autoriza e fundamenta um encarar doravante poético da linguagem.

14. Isso possibilita imediatamente a retomada do desvio de Saussure, tratamento de caráter espirituoso fundamentado no anagrama entre a palavra barra e a palavra árvore saussuriana, servindo esse ponto de pontuação para retomar a palavra árvore não mais em seu isolamento nominal.

15. Segue-se, a propósito de tal árvore, uma demonstração poética do poder evocador da palavra, apoiada, como último recurso, naquilo que na posteridade do simbolismo foi chamado alquimia do verbo ou bruxaria evocatória, não se tratando de comentar esse texto, mas de dá-lo simplesmente para entender.

16. É desta maneira, portanto, que se dá de fato a transposição da barra antes mesmo de ser exposta, ou seja, a produção do sentido, dado anteriormente ao enunciado de sua própria possibilidade, restando ainda, terminada a estrofe da árvore, trabalhar pela produção da operação significante, o que dá origem à última parte, intitulada a significância.