Jean-Luc Nancy, Ego Sum. Paris: Flammarion, 1979.
I. Quoties a me profertur…
ONDE SE VOLTA A FALAR DO SUJEITO
1. Após alguns anos de eclipse sob as figuras da Estrutura, do Texto ou do Processo, o sujeito retorna dos seus diversos exílios e volta a ocupar de maneira insistente os discursos contemporâneos.
2. A abertura da investigação parte deliberadamente de uma relação com a atualidade, inclusive com aquilo que nela assume o caráter de moda, porque as novas circunstâncias exigem esclarecer novamente em que sentido o pensamento filosófico se situa diante de sua própria conjuntura.
3. A conjuntura filosófica presente pode ser caracterizada pela duplicidade inseparável de um esquecimento e de um retorno daquilo que se chama “filosofia”, de modo que iniciar um discurso filosófico, ou presumidamente filosófico, sobre Descartes exige determinar que espécie de discurso está em questão e, por essa via, voltar a falar do sujeito.
4. A atualidade tende a desconhecer que obras e discursos propriamente filosóficos possam manter relações determinadas e operatórias com aquilo que parece exterior à filosofia, reduzindo o acesso ao presente à forma imediata de um objeto empírico tratado por discursos que combinam documentação e análise extraídas de uma antropologia generalizada.
5. Sem tomar Heidegger como garantia absoluta, conserva-se a pertinência da exigência formulada em 1929 de que a analítica da cotidianidade não permita reduzir a interpretação do Dasein humano a uma descrição antropológico-psicológica de vivências e faculdades.
6. O conhecimento antropológico e psicológico não precisa ser declarado falso para que se reconheça sua insuficiência fundamental: mesmo correto em seus próprios termos, ele não consegue manter continuamente em vista a questão da existência do Dasein.
7. A atualidade caracteriza-se, assim, por uma expansão prolixa do sujeito antropológico que constitui simultaneamente a efetivação de uma metafísica do Sujeito e o esquecimento da proveniência e da natureza metafísicas desse próprio sujeito.
8. A relação crítica da filosofia com sua atualidade pertence desde sempre à própria atitude filosófica, aparecendo explicitamente em Platão, Descartes, Kant e Hegel, mas essa relação possui um primeiro aspecto no qual a filosofia exerce uma vontade de domínio sobre sua época e sobre sua epistēmē.
9. A filosofia enquanto sujeito, porém, não coincide simplesmente com o sujeito da filosofia, pois este último não é o sujeito de uma submissão servil à atualidade, mas a relação pela qual cada atualidade entra em ato precisamente ao ser inquietada por aquilo que nela não se atualiza.
10. A época precisa trabalhar incansavelmente para definir a metafísica e libertar-se dela, pois seria desastroso deixar obscura a relação entre a futura história mundial e seu passado metafísico, repetindo uma obscuridade comparável à relação não esclarecida de Marx com Hegel.
11. Também devem ser contestados os retornos de diversas outras koiné, não marxistas ou antimarxistas, porque todas permanecem antropológicas sempre que apelam fundamentalmente à história ou à subjetividade.
12. O outro lado da duplicidade contemporânea consiste no retorno cúmplice do esquecimento sob a forma de uma suposta “nova filosofia” que concebe a filosofia como novidade absoluta e como ruptura descontínua com todo o passado.
13. A questão do ego constitui, portanto, uma questão de atualidade no sentido mais rigoroso e urgente do termo.
ONDE O SUJEITO VOLTA A FALAR DE SI MESMO
14. A atualidade do sujeito é menos nova do que aparenta, pois sua tonalidade antropológica ou profética apenas reveste de novidade superficial um motivo que constitui há décadas o leitmotiv da psicanálise de Lacan, revelando a continuidade do império do sujeito mesmo nas problemáticas não filosóficas mais avançadas.
15. A psicanálise de Freud e Lacan pode ser compreendida simultaneamente como o desenvolvimento extremo da problemática metafísica do Sujeito, como sua antropologização mais radical e como o lugar em que se torna visível o limite crítico da própria antropologia.
16. A psicanálise poderia parecer ter assumido a tarefa filosófica enquanto a filosofia teria permanecido como um Dom Quixote combatendo retaguardas científicas, mas isso não ocorre porque, no momento em que emerge filosoficamente a questão da inefetividade do sujeito, a psicanálise continua a reinvestir obstinadamente a posição de um discurso do sujeito nos dois sentidos possíveis dessa expressão.
17. Uma tentativa de desconstruir o sujeito pleno e senhor do discurso analítico mediante a consideração do hiato entre o “real do ato” do sujeito e sua consistência matemática ou discursiva acaba inevitavelmente ameaçada por aquilo que procura superar.
18. A teoria, isto é, o sujeito, sempre consistiu em pôr-se como pensamento do abismo aberto entre o ato de pensar e o discurso do pensamento, operação que sustenta também o cogito cartesiano.
19. Nenhum discurso consegue simplesmente escapar dessa lei, e a psicanálise terá contribuído de maneira insubstituível para a consumação da metafísica ao expor a figura nua de uma “ciência” cujo único objeto é a lei de seu próprio discurso, lugar onde o Sujeito se escuta e se faz escutar indefinidamente.
ONDE O SUJEITO SUSSURRA…
20. Diante dessa consumação, resta perguntar de que ainda se trata, o que poderia permanecer e o que ainda se pretende sob o nome de “filosofia”.
21. Nada resta além daquilo que permanece: a reconstrução metafísica obstinada do discurso analítico e de todo discurso, talvez acompanhada por uma equivalência lenta e silenciosamente estabelecida entre discurso e análise, que poderia constituir o fundo de inefetiva efetividade da situação presente.
22. Aquilo que permanece ocupa necessariamente o mesmo lugar de onde o Sujeito continua a fazer-se ouvir, ainda que talvez nada mais possa dar a entender, e tudo se decide nesse lugar do Mesmo.
23. Torna-se necessário, portanto, não tomar “enquanto tal” aquilo que não possui nem “enquanto” nem “tal”, mas permanece simplesmente indecidido, e o discurso dessa indecisão que se produz sem decidir-se corresponde ao discurso filosófico.
24. Não se trata de instaurar outro discurso, muito menos um discurso do Outro, nem sequer de privilegiar o discurso impresso que explicitamente se apresenta como filosofia, mas de escutar aquilo que permanece por trás do dito: um dis-curso sem direitos, sem signos legitimadores, deslocado, obsceno, decepcionante e sempre em ruptura, justamente por isso capaz de ultrapassar as interdições e aproximar-se do Fora intransgredível.
25. O que assim se deixa ouvir é o sussurro obscuro da fala filosófica simultaneamente pura e impura, sussurro de alguém que talvez ainda possa ser chamado sujeito, mas apenas enquanto se indetermina e deixa continuamente indecidida a própria decisão de seu discurso.
26. Esse gesto pelo qual talvez algo do que está vindo possa alcançar-nos ainda precisa passar pelo discurso, embora não se reduza a ele, e por isso não deve ser confundido com a conversão da filosofia em literatura ou arte.
27. Uma filosofia que procurasse imitar a arte e transformar-se ela própria em obra artística eliminaria a si mesma, pois arte e filosofia não compartilham primariamente uma forma, mas uma conduta que recusa a pseudomorfose: a arte permanece fiel a si ao resistir aos próprios significados, e a filosofia ao recusar agarrar-se a qualquer imediatidade, devendo procurar transcender o conceito precisamente por meio do conceito.
28. O gesto filosófico passa, portanto, pelo discurso sem se reduzir à teorização, pois exige confrontar no interior do discurso o dis-curso que pode colocar em questão aquilo que se retira por trás do Sujeito e se indetermina como sujeito.
29. Retornar a Descartes não significa reinstalar-se em sua fundação do Sujeito, reivindicar uma potência discursiva superior ou descobrir uma suposta verdade oculta que funcionaria como fundamento de todos os demais discursos, mas alcançar o lugar e o instante em que a fundação do Sujeito faz ouvir aquilo que ela própria desencadeia: o sussurro do sujeito que se enuncia e simultaneamente desaba.
30. Aquilo que se enuncia e ao mesmo tempo se denuncia será deixado chamar-se ego, nomeação que não equivale nem a um “mim” nem a um “eu” substantivado e que não deve originar nenhuma egologia transcendental ou indecidível.
31. Torna-se necessário recomeçar desde o princípio, como se nada ainda tivesse sido dito.
II. … Vel mente concipitur
32. Descartes imprime sobre três séculos de modernidade a marca da certeza, não como convicção banal de um subjetivismo ou como pretensa essência de uma “mente cartesiana”, mas como terra firme sobre a qual o pensamento moderno encontra seu fundamento.
33. A interpretação heideggeriana de Descartes permanece pressuposta porque não constitui apenas uma interpretação entre outras, mas uma elucidação incontornável de seu pensamento, embora sua própria confirmação torne possível avançar além dela.
34. A certeza proposicional do cogito continua articulando inclusive os discursos modernos que contestaram a certeza, a representação e o sujeito, pois neles permanece operante algum sujeito da representação capaz de saber o que ocorre com o próprio sujeito da representação.
35. As figuras do sujeito-inconsciente, sujeito-história, sujeito-linguagem, sujeito-máquina, sujeito-texto, sujeito-corpo e sujeito-desejo, inclusive quando definidas como simples efeitos de sujeito, acabaram sobretudo intensificando o estatuto do Sujeito e consolidando o substrato enquanto tal.
36. Cada aprofundamento desloca para trás a instância geral que sustenta, comanda, atribui e identifica todas as figuras possíveis do sujeito, mas essa instância, seja qual for seu nome ou localização, converte-se justamente na substância de um novo cogito.
37. A regressão infinita já estava programada no próprio cogito, porque, uma vez definida a verdade como certeza e apropriação representativa da coisa, torna-se inevitável recuar para uma apropriação anterior da própria apropriação, uma representação da representação e uma apresentação a si da verdade dessa apresentação.
38. Há um estranho esquecimento acompanhado por uma igualmente estranha conservação quando se substitui “eu penso” por “isso pensa”, “isso funciona”, “isso respira”, “isso aquece”, “isso come”, “isso defeca” ou “isso copula”, imaginando ter eliminado o sujeito mediante a supressão de sua figura consciente.
39. Já há interpretação em excesso na própria expressão “isso pensa”, porque até mesmo o “isso” é introduzido interpretativamente no processo e não pertence pura e simplesmente ao processo enquanto tal.
40. Mesmo sendo necessário ir além de Nietzsche e interrogar também a interpretação pressuposta na expressão “o próprio processo”, sua exigência permanece provisoriamente a mais rigorosa para orientar um exame intempestivo do sujeito.
41. A intempestividade desse exame conduz imediatamente ao limite extremo do discurso e esgota seus recursos desde o instante de sua primeira abertura, tornando necessário trabalhar precisamente nesse esgotamento onde talvez o próprio Sujeito se esgote.
42. Esse esgotamento não autoriza um refúgio no indizível nem num suposto além do discurso, pois uma longa série de figuras — Gesto, Figura, Grito, Significante, Psicose, Poesia — já ocupou esse lugar como pretensos não sujeitos capazes de falar por si mesmos.
43. A tarefa consiste antes em acompanhar e interrogar o esgotamento do Sujeito, ou permitir que esse próprio esgotamento coloque o pensamento em questão, perguntando se Nietzsche não teria chegado, precisamente nesse ponto, o mais próximo possível da fundação cartesiana do Sujeito.
44. Torna-se necessário interrogar aquilo que principialmente acaba o Sujeito: um fim simultaneamente constitutivo e desconstitutivo, o acabamento ou a finitude de ego.
45. Se o fim da metafísica designa o momento histórico em que se esgotam suas possibilidades essenciais, então a instituição cartesiana do Sujeito pode ser compreendida como correspondendo, pela necessidade mais rigorosa de sua própria estrutura, ao esgotamento instantâneo das possibilidades essenciais desse mesmo Sujeito.
46. A própria ereção e inauguração do Sujeito produzem o colapso de sua substância, e esse colapso não sobrevém posteriormente, mas pertence constitutivamente à própria instituição do Sujeito.
47. Talvez seja novamente necessário passar por Spinoza, para quem a identidade do pensamento é a identidade da ideia verdadeira que se revela por si mesma, mas a insistência cartesiana do cogito não se explica pela imposição de uma autorreflexão infinita.
48. Descartes recusa persistentemente introduzir no cogito uma reflexão do pensamento sobre o pensamento, mas tampouco permite uma simples contemplação da manifestação do verdadeiro ou um assentimento íntimo e vagamente psicológico a um “si” entendido como autoconsciência.
49. Torna-se necessário aproximar-se do ponto dessa instituição em que a certeza é simultaneamente apreendida e ocultada por um único gesto, embora, por definição, esse ponto não possa propriamente ser alcançado ou sequer aproximado e talvez nem seja verdadeiramente um ponto.
50. Em termos da resposta que o idealismo posteriormente procurará formular, trata-se de experimentar como o Sujeito cartesiano simultaneamente se põe e não se põe como intuição intelectual, oferecendo-se e retirando-se da especulação visual de si mesmo e da teoria de seu ser-Si: visão sem transparência, rosto desprovido tanto de olhos quanto de espelho.
51. A impossibilidade da intuição intelectual poderia parecer projetar Kant retroativamente sobre Descartes, mas a questão decisiva consiste antes em reconhecer como Descartes já controla rigorosamente o princípio que conduzirá à crítica kantiana, cuja aposta permanece vinculada à crise irremediável do Sujeito.
52. Os quatro ensaios subsequentes constituem quatro tentativas de percorrer esse limite, essa abertura sem borda que delimita o Sujeito ao mesmo tempo que permite seu transbordamento e o retraimento de sua identidade.
53. Os quatro caminhos são descontínuos porque não pretendem construir uma teoria geral e sistemática do cartesianismo, mas retornar repetidamente ao mesmo ponto, o ponto cartesiano do Mesmo, para verificar que o Sujeito não consegue manter-se nele nem como Um nem como Outro.
54. Aquele que não pode sustentar-se mediante uma essência conduz inevitavelmente à pergunta “o que é o homem?”, quarta questão kantiana que a própria filosofia seria incapaz de responder, apesar de tantas filosofias contemporâneas fazerem o homem falar sem enfrentar essa impossibilidade.
55. Aquilo que acontece ao sujeito e lhe sobrevém, em vez de sustentá-lo como substância ou mesmo mediante uma palavra, é finalmente sua arealidade.
56. Ego sum, enquanto escrevo.
57. Ego sum — mascarado diante de Deus.
58. Ego sum: o mundo é uma fábula.
59. Ego sum unum quid, isto é, sou uma única coisa cuja unidade não elimina, mas concentra, a tensão em que a instituição do sujeito coincide com sua própria abertura, exposição e impossibilidade de sustentar-se como substância plenamente determinada.