A passagem da investigação da historicidade para a historiologia, compreendida como ciência da história, tem como objetivo demonstrar que a possibilidade mesma da investigação histórica depende do caráter histórico da existência do Dasein, e não de um mero interesse teórico por acontecimentos passados.
Se a existência do Dasein é histórica, todas as suas práticas, inclusive a historiografia, estão enraizadas no seu historizar, o que vale tanto para o historiador quanto para o carpinteiro ou o músico.
Contudo, a historiologia mantém um vínculo mais específico e essencial com a historicidade, pois a compreensão do passado exige a capacidade de compreender mundos enquanto passados.
A possibilidade de compreender o passado depende da estrutura ontológica do ser humano enquanto ser-no-mundo aberto à temporalidade e à passadidade.
A passadidade dos fenômenos deriva da passadidade do mundo, e esta, por sua vez, da existência pretérita do Dasein.
A investigação histórica pressupõe uma relação existencial prévia com o Dasein que foi, isto é, com a historicidade do próprio historiador.
O objeto próprio da investigação histórica não são fatos isolados, mas o Dasein passado enquanto modo de ser-no-mundo.
Vestígios, monumentos e documentos só têm sentido histórico enquanto materiais para a revelação concreta de um mundo passado.
Compreender o passado é recuperar um modo pretérito de ser-no-mundo, apreendendo suas possibilidades reais e suas limitações efetivas.
A história autêntica não se orienta por atualidades factuais, mas por possibilidades existenciais.
O verdadeiro objeto da história é uma possibilidade de existência, não um conjunto de ocorrências consumadas.
Repetir autenticamente o passado significa tornar disponível, no presente, uma possibilidade existencial herdada.
A autenticidade do existir humano pressupõe uma historiologia autêntica.
Todo existir autêntico, seja como historiador, artesão ou músico, depende da recuperação crítica das possibilidades herdadas de uma tradição.
A crítica do presente, necessária à projeção de um futuro destinado, exige a revelação do verdadeiro legado histórico de uma comunidade.
Há uma circularidade essencial entre historizar autêntico e historiologia autêntica.
A investigação histórica autêntica pressupõe abertura resoluta ao passado e ao futuro.
Revelar uma possibilidade passada como ela realmente foi implica libertá-la das interpretações inautênticas dominantes no presente.
A história autêntica permite que passado, presente e futuro se iluminem mutuamente.
O historiador, ao revelar o passado como portador das possibilidades reais do presente, prepara o enfrentamento do destino individual e comunitário.
A escolha do objeto histórico é determinada pela orientação existencial do historiador em relação ao futuro.
A circularidade entre historizar e historiologia pode ser viciosa ou virtuosa.
O início da historiologia autêntica exige a ruptura provocada pela confrontação com a própria finitude.
A antecipação resoluta da morte permite ao historiador compreender a inseparabilidade entre destino individual e destino comunitário.
A voz da consciência, manifestada na angústia silenciosa, torna possível essa ruptura.
O paradoxo da consciência reaparece no âmbito da historiologia.
Se o Dasein inautêntico reprimiu sua capacidade de autenticidade, surge a questão de como pode ouvir o chamado da consciência.
A solução proposta consiste em admitir uma origem externa da voz da consciência, encarnada na figura do outro que serve de exemplo.
A análise das referências a
Nietzsche,
Dilthey e ao conde Yorck von Wartenburg esclarece esse ponto.
A discussão final, aparentemente marginal, mostra como a consciência pode intervir na historiologia por meio da crítica interna entre pensadores.
As cartas de Yorck a Dilthey exemplificam uma crítica não coercitiva, orientada às melhores possibilidades internas do pensamento criticado.
A relação entre Yorck e Dilthey ilustra o modelo amistoso da consciência.
Yorck se apresenta como intérprete do melhor potencial de Dilthey, e não como autoridade superior.
A crítica autêntica surge como desenvolvimento interno de possibilidades herdadas.
O progresso em direção à autenticidade é essencialmente histórico.
A posição de Yorck resulta da repetição crítica de possibilidades do passado orientadas ao destino do presente.
A autenticidade do historiador consiste em agir como voz da consciência de sua disciplina e de sua cultura.
A repetição histórica autêntica não é mera reiteração do passado.
O historiador nunca coincide plenamente com a compreensão passada, mas revela possibilidades inerentes a ela.
Essa diferença de situação é condição da compreensão histórica, não sua negação.
Heidegger assume implicitamente para si o papel que atribui a Yorck.
Ao apresentar Yorck como precursor, ele se coloca como intérprete interno de suas melhores possibilidades.
Reconhece, assim, que seus próprios insights dependem de uma herança crítica.
A amizade filosófica aparece como condição da superação da inautenticidade.
A inautenticidade humana é dominante, mas nunca absoluta.
Vestígios de autenticidade persistem em textos negligenciados, instituições decadentes ou figuras marginalizadas.
Por isso, o mundo humano jamais perde completamente a capacidade de romper com a repressão da inautenticidade.